Full transcript
0:00Oi.
0:01Esse episódio foi feito em parceria com
0:03o Intercept Brasil. Toda a apuração é da
0:06repórter Laí Martins, que também
0:08publicou uma série de textos sobre o
0:10assunto. Então, se depois de eu ver o
0:13episódio de hoje você quiser mergulhar
0:14ainda mais fundo, vai lá no site do
0:17Intercept que tem muito material e uma
0:19abordagem diferente da que a gente vai
0:21fazer aqui.
0:22>> Este podcast é uma produção da Rádio
0:24Guarda-chuva, jornalismo para quem gosta
0:27de ouvir.
0:31se apresenta, quem você é e conta um
0:33pouco aqui da comunidade.
0:34>> Certo. Meu nome é Jordana, minha
0:37conhecida aqui há 43 anos aqui.
0:39>> No dia 20 de agosto de 2025, sentada num
0:42cômodo simples de uma casa no interior
0:44do Ceará, a repórter Laí Martins do
0:46Interceptadora
0:50pela frente.
0:51>> As dificuldade aqui de água são grande.
0:54Acho que,
0:55>> quer dizer, na verdade eram duas tarefas
0:57desafiadoras. Desde que eu nasci aqui
0:59que a gente sofremos por água.
1:01>> A primeira, a mais desafiadora e talvez
1:04até impossível era explicar porque um
1:06data center para armazenar dancinhas de
1:08desconhecidos teria acesso livre à água,
1:11enquanto ela, que tinha nascido e vivido
1:14na mesma região, nunca tinha tido e
1:16provavelmente nunca teria. E ela fala de
1:18uma série de impactos que ela já tem na
1:20vida dela. Por exemplo, ela desenvolveu
1:21uma de disco, porque como falta água,
1:24quando não tem água do caminhão pipa,
1:25ela tem que ir até um, como é que ela
1:28chama?
1:29>> Cacimbão que chama. A gente tinha que ir
1:31buscar pé de carro de mão num balde de
1:3450 L d'água num cacimbão. Isso tudo com
1:40folhas dentro do caimbão, com gia,
1:43levando carreira de ga, quem não conhece
1:45é uma van bem grande.
1:47>> E esse cafimbão que você falou, qual
1:49próximo daquele época?
1:51>> O cafimbão mais próximo daqui é mais ou
1:53menos mais ou menos 1,m5.
2:03Foi muito chocante para mim, Tomás,
2:05assim, e aqui eu falo muito de um lugar
2:07de sudestina, assim, de ver na prática o
2:09que significa falta de água. E eu vi,
2:12sabe, da dona Jordana, ela tem um filho
2:14pequeno, Benjamim, e ela falou que ele
2:17tá 15 dias sem aula na escola, porque
2:19falta água na escola.
2:26A dona Jordana contou para Laí que de
2:28tempos em tempos o poder público dá
2:30algum sinal de que a água vai chegar.
2:32Teve uma época, por exemplo, que eles
2:34instalaram medidores em todas as casas,
2:38mas a água nunca chegou.
2:41Quando foi essa época?
2:4410 anos atrás.
2:47[Música]
2:48Acho que tá com uns 10 anos mais ou
2:50menos que saíram nas casas colocando
2:52relógio. O relógio para receber a
2:56ligação de água da Cajessum.
2:59>> E veio até aqui perto do Parque do
3:01Vaqueiro. Tá lá, mas não vem para cá.
3:09>> E aí tem uma segunda tarefa desafiadora
3:11que a Laísa enfrentou. No caso, explicar
3:14pra dona Jordana o que é um data center.
3:19>> Eu vou ser bem sincero a você. Eu queria
3:21que você fosse bem direta comigo, porque
3:24gente matuta, eu bem bem você diz uma
3:28sigla, né? Mas eu não sei muito bem
3:31associar.
3:34>> Nesse momento, você, minha ouvinte
3:36sudestina, dançarina de TikTok, talvez
3:39esteja compadecida pela dona Jordana.
3:41não só pela distância da água, mas
3:43também pela ignorância quanto a essa
3:45instituição que se torna cada vez mais
3:47parte do nosso cotidiano,
3:50o data center.
3:52Mas aqui, eu que já conheço toda a
3:54história do episódio de hoje, me sinto
3:56seguro para lançar uma aposta, a de que
3:59você, minha ouvinte de torneiras bem
4:02nutridas, sabe quase tão pouco sobre
4:04data centers quanto a dona Jordana.
4:09Eu
4:10[Música]
4:17sou Tomas que Averini e o episódio 146
4:20de Escafandro feito em parceria com
4:23Intercept Brasil já começou. Nele a
4:26gente vai falar de como as dancinhas que
4:28você posta no TikTok, os seus vídeos de
4:30gatinhos, os seus filtros de beleza
4:32virtual e os seus memes gerados por IA
4:36impactam a vida de pessoas reais.
4:39[Música]
4:40Antes, eu preciso agradecer aos humanos
4:42luminosos que, por meio do nosso
4:44financiamento coletivo mantém o
4:46escafandro no ar há quase 7 anos. Se
4:49você tá entre pessoas como a Sherl
4:50Silva, a Eli Nazar, o Rafael Trindade e
4:54o Gabriel González de Oliveira, muito
4:56obrigado, mas muito obrigado mesmo por
4:59isso.
5:06Pra gente entender o que é um data
5:08center, a gente precisa primeiro
5:09entender que essa história de guardar
5:11dados na nuvem não existe. Não existe
5:15nuvem. A grande mentira que nos contam é
5:17que a internet tá na nuvem.
5:19>> Laí Martins,
5:20>> na verdade a internet é bem física, não
5:22só no data center, mas, por exemplo, a
5:24gente precisa de cabos. Existem cabos
5:26submarinos gigantes que atravessam os
5:29oceanos e levam a internet de um lugar
5:31pro outro. Aliás, se você quiser saber
5:33mais sobre isso, eu te recomendo o
5:35mergulho no nosso episódio 31, o
5:37primeiro da trilogia Profundezas da
5:39Rede. Nele, a gente entrevista um dos
5:42pioneiros da internet que conta sobre
5:44como esse monstrengo que domina a nossa
5:46vida foi plugado na tomada. Mas enfim,
5:49>> o data center é uma parte muito
5:51importante da internet porque ele é meio
5:54que a casa de máquinas, por assim dizer,
5:56né?
5:56>> Essas casas de máquina em geral ficam em
5:58gigantescos galpões industriais. E
6:01quando eu falo em gigantescos, eu não tô
6:03sendo hiperbólico. Na verdade, eu tô
6:05sendo modesto. O Mark Zuckerberg, dono
6:09da meta, disse que tá projetando um
6:10centro de dados do tamanho de Manhattan,
6:14uma instalação que começaria a funcionar
6:15já em 2026. Tem até bilionário Biruleab
6:18planejando construir data centers na
6:21lua. Então, data centers são galpões
6:23industriais, assim, coisas muito
6:25grandes, cada vez maiores, inclusive,
6:28que armazenam servidores, chips,
6:31computadores ultra poderosos,
6:34responsáveis por processar tudo que a
6:35gente faz na internet, né? Então, deixa
6:37um like, um e-mail, tudo isso passa por
6:39um data center. E agora com a
6:41inteligência artificial são os data
6:43centers que hospedam servidores que
6:46treinam a IA. Então, por exemplo, quando
6:48você, Tomás, pede lá pro chat GPT ou
6:51para algum modelo de geração de imagem
6:54fazer uma foto dos Beatles como se eles
6:56fossem tartarugas cruzando a rua, por
6:58exemplo, está acontecendo dentro de um
7:00data center.
7:01>> E a inteligência artificial sempre ela é
7:04a grande devoradora de processamento da
7:06atualidade. Para a popularização da
7:08inteligência artificial e desses modelos
7:11que se tornaram mais de uso comum da
7:13população, a gente precisa de data
7:16centers cada vez maiores e mais
7:18poderosos, porque a lógica dessas
7:20empresas também é de escalar. Elas
7:21querem escala, elas querem crescer o
7:23chat GPT4, em breve vai ser o CCO e o
7:26seis. E tudo isso demanda mais
7:28processamento, mais capacidade
7:30computacional.
7:31>> Os data centers de A ganharam até um
7:33nome especial.
7:34>> Eles são chamados em inglês de
7:35hypercalers.
7:37tipo hiperescala, porque eles são muito
7:40maiores, eles precisam dar conta de uma
7:43capacidade computacional muito mais
7:45elevada. Então também significa que eles
7:47são feitos para serem mais resistentes,
7:49por assim dizer, resistentes a
7:51temperaturas, ao uso de água, a
7:53invasões, por exemplo. Então esses são
7:56os grandes monstros, que é o que a gente
7:58vê que tá sendo instalado nos Estados
7:59Unidos nesse momento agora e que as
8:02comunidades estão ali fazendo alguma
8:04algum tipo de mobilização. No Brasil a
8:06gente tá na virada, esse é o momento de
8:08virada em que a gente vai sair de só
8:09data centers de cloud, de armazenamento
8:12e processamento para datacentas de IA.
8:15Uma parte dessa virada se deve ao
8:17governo Lula. No dia 19 de agosto, o
8:20Ministério das Comunicações lançou uma
8:21consulta pública para iniciar uma
8:24política nacional de data centers, a
8:26Reda, entre outras coisas, a Redata deve
8:30conceder generosas isenções de impostos.
8:33Como consequência, o governo espera
8:34receber R trilhões de reais em
8:37investimento nos próximos 10 anos.
8:39>> A grande questão é a troco de quê? O que
8:42a gente tem visto nas nossas reportagens
8:44nesses últimos meses é que não há
8:47elementos ainda que mostrem o que o
8:49Brasil ganha com essa política. O nosso
8:52setor tecnológico nacional,
8:55se a gente avança para reduzir a nossa
8:58dependência das bigtechs, porque hoje o
9:00governo brasileiro, né, o país como um
9:02todo, é extremamente dependente das
9:05bigtecs, n? O governo brasileiro é um
9:07grande cliente da Microsoft, da Google.
9:10nossos dados estão hospedados nesses
9:12sistemas. Então essa política poderia
9:16ter elementos que ajudem a gente a
9:19avançar para se tornar menos dependente,
9:21mas isso não aparece lá no momento.
9:24>> E aí tem um detalhe que é dos mais
9:25importantes paraa nossa história, porque
9:28no fundo os data centers são grandes
9:30depósitos de computadores. E
9:32computadores têm duas características
9:34físicas ainda imutáveis. Eles consomem
9:37energia elétrica e como subproduto do
9:39funcionamento eles produzem calor,
9:43esquentam e precisam ser resfriados.
9:45>> E aí tem maneiras diferentes de resfriar
9:47um data center. Todas elas usam água. A
9:50questão é quanto de água que vai usar.
9:52Tem sistemas mais eficientes e sistemas
9:54menos eficientes. Então as duas coisas
9:56andam meio que juntas, né? Quanto maior,
9:59mais consumo de energia, mais água você
10:01vai precisar. Tem sistemas que usam
10:04menos água e por isso usam mais energia,
10:07porque aí você vai para uma alternativa
10:09tipo ar condicionado, assim, um grande
10:11ar condicionado para manter aquele
10:13galpão resfriado.
10:14>> Você pode escolher se vai gastar mais
10:16água ou mais energia. Isso. Mas as
10:18coisas não dá para fazer as duas coisas.
10:20Na verdade, essa é a grande tentativa,
10:22mas tem uma coisa interessante que aqui
10:23é um parênteses meio nerd assim, mas tem
10:26um paradoxo que os estudiosos têm
10:29citado, né, que eu já ouvi em várias
10:30entrevistas que eu fiz, que é o paradoxo
10:32de Jevons. Existe uma crença falsa das
10:35pessoas que estão no desenvolvimento de
10:37IA, que é quanto mais a gente usar, mais
10:41a gente vai conseguir pesquisar, eles
10:43vão se tornar mais eficientes por conta
10:44do uso, né? A gente vai conseguir
10:46melhorar. Mas o paradoxo
10:49entende que os sistemas vão ser tão
10:51eficientes que eles vão ser cada vez
10:53mais usados e, portanto, qualquer ganho
10:54de eficiência foi anulado pelo aumento
10:56no uso. Então não tem muita saída assim,
10:58eh, não tem muito muita perspectiva boa
11:01daqui pra frente.
11:07[Música]
11:10Existe uma saída para essa cinuca
11:11energética que a princípio pode parecer
11:13interessante, que é a construção desses
11:16grandes armazéns computacionais em
11:18regiões frias do planeta, tipo o círculo
11:21polar ártico. E tem algumas empresas que
11:23estão fazendo isso. Ao mesmo tempo, tem
11:26muitas empresas que estão planejando
11:27construir coisas em lugares tipo o
11:29Ceará, que vamos combinar, não é
11:32conhecido exatamente pelo rigor dos seus
11:34invernos. Eu perguntei sobre isso para
11:36Laí Martins, por que esse interesse
11:38súbito no Ceará?
11:40>> Olha, tem muitas maneiras de responder
11:42essa pergunta, né? A primeira delas é:
11:45porque aqui a gente tem terra barata e
11:48disponível, mas o Brasil ele tem um
11:51grande uma grande vantagem nesse momento
11:54que é a gente tem energia limpa no nosso
11:57país, né? 80% da matriz energética
11:59brasileira vende fontes de renováveis,
12:02energias renováveis. Aqui a gente
12:04poderia abrir um grande parênteses para
12:06discutir até que ponto essa energia é
12:08realmente limpa, já que a energia
12:10hídrica muitas vezes envolve o
12:11alaramento de grandes áreas, o que emite
12:14altas quantidades de gás carbônico e
12:16muitas vezes provoca o deslocamento
12:17forçado de populações locais. Até a
12:20energia eólica, que muitas vezes é
12:22vendida como uma solução ambiental
12:23mágica, tem impactos que precisam ser
12:26levados em consideração.
12:27>> Especialmente Nordeste, as comunidades
12:29conhecem muito bem esse impacto, né? Tem
12:31toda um um impacto ali na fauna e na
12:34flora, mas tem um impacto humano também,
12:36por exemplo, a síndrome da turbina
12:37eólica que adoece as pessoas. Tem
12:40comunidades que vivem à base de taja
12:42preta, porque é um barulho que é um
12:44barulho meio invisível, né? É como se
12:46fossem ondas profundas que te afetam no
12:49sono. As comunidades relatam
12:51especialmente que dá para ouvir durante
12:52a noite, quando a vida para e fica tudo
12:54em silêncio, mas é como se tivesse um
12:56zumbido na cabeça constante. Quão
12:58enlouquecedor é isso?
13:00Então esse é um impacto, por exemplo,
13:02que muitas vezes não aparece e assim a a
13:05paisagem inteira do Nordeste, né, sendo
13:07transformada por esses gigantes eólicos.
13:10>> Certo, parentes apocalípticos fechados,
13:12bora voltar para outro ponto que torna o
13:14Ceará apetitoso para gigantes dos dados,
13:16>> porque dali saem cabos submarinos que
13:18conectam basicamente a internet da
13:20América do Sul ao resto do mundo. Na
13:22praia do futuro, né, saem esses cabos
13:24submarinos.
13:26[Música]
13:30E aí a Laí, que nos últimos anos se
13:33dedica especialmente à cobertura das
13:34Bigtex, teve uma ideia brilhante
13:38que foi comparar duas listas distintas.
13:41[Música]
13:43A primeira era uma lista dos data
13:44centers que poderiam se instalar em
13:46território nacional.
13:48Ela conseguiu isso com o Ministério de
13:51Minas e Energia, porque uma das
13:53primeiras coisas que essas empresas
13:54pedem é para ter acesso à rede básica de
13:57eletricidade.
14:00A segunda lista, e aqui que tá a
14:01esperteza da repórter do Intercept, foi
14:04cruzar os dados dos prováveis futuros
14:06centros de dados com atras dos
14:08desastres.
14:09>> Tem registrado eventos climáticos
14:11extremos, por exemplo, seca e estiagem
14:13ou enchentes alaramentos. E aí uma
14:16cidade se destacou, Calcaia.
14:19Era uma cidade com seguida as crises de
14:21seca e que receberia um data center
14:23gigantesco.
14:25O que é gigantesco?
14:27>> Se esse data center fosse uma cidade,
14:29ele seria a sétima cidade que mais
14:30consome energia no Brasil.
14:32>> E se esse data center for de fato
14:34implementado, sabe para onde vai essa
14:36quantidade impensável de eletricidade?
14:39>> Dá-me um gr.
14:40>> Um quê?
14:41>> Um gr.
14:42>> Um quê?
14:43>> Dá-me um.
14:43>> Pois é. Segundo a apuração exclusiva do
14:45Intercept, ela vai servir sobretudo para
14:47guardar dancinhas do TikTok.
14:50[Música]
14:53>> Quer dizer, não só dancinhas, mas enfim,
14:57vai armazenar dados do TikTok.
15:01Oficialmente o projeto é assinado pela
15:03Casa dos Ventos, que é uma empresa de
15:04energia eólica que tá entrando agora no
15:06segmento de data centers, mas a gente
15:09conseguiu confirmar com fontes que esse
15:11projeto vai ser ocupado pelo TikTok
15:13quando ele tiver pronto.
15:16>> Antes de continuar com o nosso episódio,
15:17eu preciso te falar sobre o
15:19financiamento do escafandro. Como você
15:21sabe, o podcast é orgulhosamente mantido
15:24por uma parte dos ouvintes que apoia o
15:26projeto financeiramente.
15:28É só por conta dessas pessoas luminosas
15:30que a gente consegue continuar
15:32produzindo e que o podcast tem chegado a
15:34um público cada vez maior.
15:36Então, se você gosta do projeto, se quer
15:39que ele cresça e se multiplique, se quer
15:41que a gente continue tentando trazer um
15:42conteúdo cada vez mais profundo,
15:44instigante pros seus fones de ouvido,
15:46vem se juntar à nossa campanha de
15:47financiamento coletivo. O caminho para
15:49isso é rápido, fácil e seguro. Só é lá
15:53no site catarse.
15:57Escolhe o valor com qual você quer ou
15:59pode apoiar. Com R$ 5 você já ajuda o
16:02projeto, tem direito de ouvir os
16:04programas um dia antes, pode entrar na
16:05fila para gravar a ficha técnica de um
16:07episódio e pode ter o nome citado por
16:09aqui. Se quiser apoiar por outro
16:11caminho, pelo PayPal, por Pix Corrente
16:14ou pela Aurelo, não tem problema também.
16:17É só ir no nosso site
16:18radioescafandro.com
16:20clicar em apoy todos os caminhos. Lá
16:23você também encontra todos os detalhes
16:25sobre as recompensas, inclusive para
16:27valores mais altos que dão direito a
16:29alguns mimos a mais. Se você ainda ficou
16:31com alguma dúvida, vai lá no nosso
16:33Instagram, rádio escafandro, acha o link
16:36do perfil, que lá também tem um caminho
16:38para se tornar um escafandrista
16:40luminoso.
16:41E agora, sem mais delongas, bora voltar
16:44pra nossa história.
16:46>> A gente não sabe, né, exatamente pro que
16:48o TikTok vai usar esse data center
16:50quando ele tiver pronto. Pode ser só
16:51para armazenamento de energia. Acho que
16:53tem um contexto geopolítico importante
16:55do TikTok, que é a questão do TikTok nos
16:57Estados Unidos, né? toda a ameaça de
17:00banir o aplicativo, a ameaça de ter que
17:03hospedar dados, tirar os dados dos
17:05Estados Unidos. Então eu imagino que
17:07tenha uma relação com isso, mas a gente
17:09não sabe qual é a atividade que vai ser
17:11desempenhada lá dentro. Pode inclusive
17:12ser treinamento de A, porque a Bartense,
17:15né, empresa proprietária do TikTok, tem
17:16um modelo de inteligência artificial, um
17:19modelo generativo de imagens. Então a
17:21gente não sabe e isso é importante de
17:23saber porque isso implica no consumo de
17:25energia e água.
17:27>> E assim com um furo de reportagem em
17:29mãos. E aí a gente soltou essa primeira
17:31matéria.
17:32>> O título da matéria publicada em maio de
17:342025 veio no formato de aspas de uma das
17:37fontes. Para ficar árido é só um
17:40empurrãozinho.
17:41>> E a reação pública foi muito engraçada
17:43porque Calcaio é um município muito
17:45grande. Territorialmente ele é maior que
17:46Fortaleza que tá ali do lado. As pessoas
17:49comentavam no post, né? Recebi e-mails
17:52falando: "Vocês estão loucos. Calcaia
17:54não é seco. Calcaia é uma cidade
17:56litorânia. Como assim vocês estão
17:57falando que Calcaia é seco?
18:00[Música]
18:02E assim, diante dessa grande confusão,
18:05em meados de agosto de 2025, A Laí
18:08Martins fez as malas e partiu rumo à
18:10calcaia.
18:11>> Você chegou lá no dia 18, é isso?
18:14>> Sim, segunda-feira eu cheguei lá.
18:16>> A Lais me contou que a cidade fica 40
18:18minutos do centro de Fortaleza.
18:19>> São duas cidades que acabam se
18:21conectando muito porque muita gente mora
18:24em Calcaia, trabalha em Fortaleza. Então
18:25ela foi direto para lá e partiu para um
18:27reconhecimento geral com uma fonte que
18:29pediu para não ser identificada.
18:31>> Eu já tinha viajado muito pelo complexo
18:33no Google Maps, assim, mas quando você
18:35tá lá é muito diferente assim de ver,
18:37né?
18:38>> Conta um pouco sobre essa sua impressão,
18:40essa diferença do território visto pelo
18:42Google Maps e e lá andando de carro.
18:45Primeiro assim, eu achei muito bonito.
18:47Você tem as dunas que são lindas, você
18:49tem uma uma mata que é muito verde, que
18:52é muito diferente do que eu vi, por
18:53exemplo, no outro dia quando a gente foi
18:55mais para dentro de Caltaia, que já é o
18:57semiário, a praia, do nada você tá
18:59andando ali na rodovia e tem indústria
19:01do seu lado e aí você vê aquele marzão
19:03azul lá na frente assim. E eu acho que a
19:06dimensão me chocou assim, a o tamanho
19:09ali do complexo, o tamanho das
19:10indústrias que estão ali, o a as
19:13distâncias das coisas, porque no Google
19:15Maps você não tinha muito essa ideia,
19:17assim, eu passeava, mas não via muito.
19:20Você tá falando aqui, eu tô imaginando a
19:22propaganda do Lula no nas eleições de
19:252026, o Sidônio Palmeira fazendo um voo
19:28de drone assim, falando do de como o
19:30Brasil tá tá evoluindo para uma energia
19:34limpa com data centers e inteligência
19:38artificial e sendo a potência da
19:41inteligência artificial do mundo. Eu
19:43imagino isso acontecendo.
19:44>> Olha, não acho difícil de acontecer, viu
19:47Tomás?
19:49[Música]
19:57Nesse primeiro reconhecimento, ficou
19:59evidente porque as pessoas comentavam
20:01revoltadas na matéria que falava de
20:02Calcaia como uma cidade que sofre com a
20:04estiagem. Porque tantos moradores
20:06argumentavam que a cidade era um paraíso
20:08a beiramar. é que, como tantas outras
20:10grandes cidades do planeta, Caucáia é
20:12tão desigual que acaba sendo duas
20:15cidades diferentes, conforme o lugar
20:17onde você vive ou os lugares por onde
20:19você circula.
20:20>> Então, é um município que tem litoral,
20:23praia, tem toda uma área do meio, que é
20:25um bioma meio misto, e tem uma área que
20:28já é semiárido. Tacaia em 16 dos últimos
20:3120 anos registrou emergência por
20:33sequestiagem. Tem famílias que não t
20:35acesso à água, que dependem de cisternas
20:38ou caminhões pipas para receberem água,
20:42para fazer coisas básicas, tipo beber
20:44água e cozinhar. Mas é isso. E é aquela
20:46paisagem bastante cearense que do nada
20:48você vê uma fazenda eólica, né? Tipo
20:50várias turbinas assim que saem no
20:52horizonte, tal. E uma coisa que me chama
20:55muita atenção é você não vê pessoas, mas
20:58as pessoas moram lá. Inclusive isso é
21:01engraçado, né? O Iago, fotógrafo com
21:03quem eu trabalhei, que é morador de
21:04Calcaia, me falou assim: "Tem muita
21:06gente de Calcaia que mora mais na zona
21:08urbana, que não sabe que aqui próximo ao
21:11CIP moram pessoas".
21:12>> CIP é o complexo industrial e portuário
21:15do PCEMEN.
21:16>> Ó, esse esse hotel
21:18>> ele foi construtamente para receber essa
21:19galera que trabalha no CIP, entendeu?
21:20>> O Roberto falou: "É,
21:22>> é
21:22>> que ele é meio matador de daqui pra
21:24frente é o CIP".
21:25>> É, o CIP começou a ser construído em
21:281995,
21:29foi inaugurado em 2002. e tá
21:32profundamente ligado com o projeto do
21:33data center pro TikTok. Não só porque o
21:36data center deve ficar dentro do
21:37complexo, mas porque o complexo meio que
21:39abriu a porteira pra boiada do progresso
21:41passar. E um dos primeiros passos nesse
21:44processo foi atropelar a população que
21:46vivia naquele lugar, incluindo aí o povo
21:49da etnia Anassé. Os anassé são um povo
21:53indígena que habita aquela região há
21:55muito tempo. Assim, as lendas, né, os
21:58registros dão conta de que eles estão lá
21:59desde pelo menos 1600 há muitos anos.
22:02Então não existe um momento na história
22:04em que os anassonam estiveram lá. Eles
22:05não são povo que chegaram, eles
22:07estiveram lá, os empreendimentos
22:09chegaram. Inclusive essa área litorânia
22:12era uma área bastante importante para
22:14eles, assim na ancestralidade deles, né,
22:16na história deles. É uma área que, por
22:19exemplo, tem uma área de dunas ali, né,
22:21que é quando você tá chegando perto do
22:23porto, assim, tem
22:26cemitérios indígenas ali, eh, que são em
22:29áreas que hoje, por exemplo, eles já não
22:30acessam. Então eram áreas importantes
22:32para rituais, práticas, ritualísticas
22:35deles, áreas que eles já não acessam
22:37porque hoje são áreas privadas, né, do
22:39complexo ou de algumas indústrias que
22:41estão ali. Então a lógica, né, o Cassic
22:45Roberto Anac,
22:46>> meu nome é Roberto Antônio Marques da
22:48Silva, eu sou Cic Geral do povo Anacé,
22:51filho e carrega o legado do CCI Antônio,
22:56né, o CCI que fez o levante do povo
22:58nacé. Ele fala, a gente foi sendo
23:01invadido, não é que, tipo, eles sempre
23:05coexistiram com o complexo, não. Eles
23:07estiveram lá e o complexo foi chegando,
23:09chegando cada vez mais perto deles.
23:11>> Eu tenho, eu vejo o CIP como um um bicho
23:13que tem vários tentáculos. ou pela
23:16terra, ou tirando a água ou o ar que
23:18respiramos, ou os carros que passam para
23:21alimentar, ou os empreendimentos, as
23:24imobiliárias, os postos de gasolina,
23:26está tudo interligado.
23:32[Música]
23:35A Laí entrevistou o Casscique Roberto na
23:37comunidade Japuara, uma das 28 aldeias
23:39na Cés que se espalham pela região,
23:42>> que é meio que o centro ali da
23:45organização dos indígenas da Nassai da
23:46Terra tradicional. Aqui é importante a
23:48gente pegar um desvio rápido, porque
23:50sempre que existe um embate desse tipo,
23:53grandes empresas capitalistas contra
23:54povos originários, algumas etapas
23:57costumam se repetir.
23:59Uma delas é a cisão da comunidade. É
24:02principalmente por causa dela que hoje
24:04os anassés estão divididos em três
24:05grandes movimentos.
24:07>> Tem um grupo que é o grupo da reserva
24:09Tábara do Zassé, que é um grupo que foi
24:11removido de onde eles moravam. Isso
24:14aconteceu em 2013 por conta da
24:17instalação de uma refinaria da
24:18Petrobras, que no fim nunca aconteceu.
24:21Mais de uma centena de famílias foram
24:22removidas para uma terra que tem as
24:24vantagens de ficar longe da confusão e
24:26de ser homologada, mas tem a desvantagem
24:29de também ser longe de locais
24:30considerados sagrados pelos anassé. você
24:33deixa muita coisa para trás na Terra, se
24:35deixa
24:36questões ancestrais, se deixa seus
24:38encantados, né, que eles falam que são
24:40os antepassados deles que habitam aquela
24:43terra e não não vão junto.
24:46>> Além desse grupo que foi levado para
24:47longe do Buziles, tem o pessoal da
24:49grande aldeia Caip, que são os que estão
24:51mais próximos do futuro data center, a
24:53cerca de 2 km.
24:56E por fim tem um grupo da terra
24:58tradicional do CIC Roberto, que é o mais
25:01crítico as formas de progresso que tem
25:03chegado à região.
25:05E a gente começou a observar que essa
25:07organização CIP e tantas outras
25:10parecidas com ela consegue controlar o
25:13que é verdadeiro e o que é direito e
25:15transformar a seus modos, né, moldado
25:18aos seus próprios interesses.
25:20[Música]
25:26Aí tem outro detalhe importante que tem
25:29a ver com preconceito, porque ao
25:31contrário do que acontece com mais
25:32frequência na região norte, no nordeste,
25:35boa parte dos indígenas não tem mais as
25:37características arquetípicas que a gente
25:39costuma atribuir aos povos originários
25:41do Brasil.
25:42>> Os indígenas do Ceará, os indígenas do
25:44Nordeste se organizam de maneira muito
25:46diferente. Então parece um bairro, são
25:48várias casas, várias casinhas coladas,
25:50algumas ruas ali e a escola que acaba
25:53sendo um pouco o centro das atividades,
25:55né? Mas é uma cara de periferia assim,
25:59tem ou ou tem algum signo que
26:02identifique como indígena? Tô
26:04perguntando isso porque eu imagino que
26:06isso seja instrumentalizado como um
26:09discurso de que ali não é uma comunidade
26:11tradicional, certo?
26:12>> Sim. É, a escola é o signo, eu acho, que
26:16que demarca essa presença indígena,
26:18porque tá escrito escola indígena, as
26:20pinturas, né, na faixa da escola, né,
26:23tem ali símbolos indígenas, mas fora
26:27isso não.
26:27>> Essa discussão é importante porque os
26:29Anassé pediram ao governo que aquela
26:31região fosse oficialmente transformada
26:33em terra indígena. E ainda que parecer
26:35indígena não seja um pré-requisito na
26:37homologação de terras, isso acaba
26:39pesando na opinião pública, o que,
26:41claro, influencia a decisão de órgãos
26:43que são profundamente politizados.
26:46Existe um processo de demarcação do
26:48território na SE que se arrasta já há 20
26:50anos, começou com a FUNAI, eh, em dado
26:54momento reconheceu-se elementos de
26:58tradicionalidade, que é importante para
27:00avançar com o processo de demarcação.
27:02Depois falaram que não tinha elemento de
27:04tradicionalidade em algumas das áreas,
27:06então é um processo que tá muito
27:07entruncado há vários anos
27:09>> e assim a gente volta ao complexo
27:11industrial e a passagem da boiada.
27:14Vários empreendimentos foram instalados
27:17ali, ignorando a presença indígena
27:19naquele território, a presença de povos
27:21tradicionais.
27:22>> E se uma boiada passou, a porteira tá
27:24aberta, né?
27:25>> O fato de isso ter acontecido em vários
27:27dos empreendimentos meio que mostrou que
27:31hoje em dia você já não precisa mais
27:33respeitar, né? Então, por exemplo, uma
27:35coisa que é muito comum lá é novos
27:37empreendimentos que querem se instalar
27:39no CIP reaproveitam relatórios
27:41ambientais de projetos anteriores. Qual
27:44é a linha comum? Relatórios ambientais
27:46que ignoram a presença indígena. Então
27:48eles usam como precedente processos
27:51anteriores do tipo: "Não teve consulta
27:53ali, por que que precisa ter aqui?" Vai
27:55se criando uma lógica de apagamento de
27:57invisibilidade, que é o que os povos
27:59indígenas denunciam. Eles dão as
28:02licenças sem nenhuma consulta prévia,
28:04livre, informada, desrespeitando a
28:06presença da gente, eh, desrespeitando
28:09nossa forma de organizar. Tudo acontece,
28:12menos o estudo da terra na.
28:14>> E aqui tem um ponto relevante que a Laí
28:16levantou quando me contou da aventura
28:17dela por cacaia, que tá relacionado com
28:20a escola,
28:21>> o governo, né, o poder público dizem:
28:24"Ah, não, não é terra indígena, mas tem
28:26um aparelho público ali que é indígena.
28:29é uma escola indígena. E a escola
28:30indígena é lei diferente. Por exemplo,
28:32eles têm aulas de ancestralidade, né? É
28:35um currículo diferente do que uma só uma
28:36escola estadual. Então isso é usado como
28:39argumento para dizer: "Poxa, se não é
28:42terra indígena, então por que que tem um
28:43aparelho indígena?"
28:44>> Então na década de 90, quando o porto
28:46vem, né, e vem toda aquela aquela
28:48construção, esse é o Paulo Anassé,
28:50liderança da Aldeia Grande Cauíp. Os
28:52primeiros sinais de impacto sobre a
28:55gente vem justamente de retirar o que
28:56era nosso. Eles começam a retirar
28:59artefatos indígenas, as nossas urnas, as
29:02nossas louças e todos aqueles itens que
29:05são parte da nossa história para
29:07justamente apagar a nossa história de
29:08vez e dizer que aqui não havia nenhum
29:10indígena.
29:11>> O Paulo Anassé contou que esse embate só
29:13cresceu nos últimos anos e chegou ao
29:15ápice com que ele chama de a guerra da
29:17água. Essa grande guerra pela água,
29:20quando ela vem, ela vem para passar por
29:22cima de tudo que fosse possível. A gente
29:24mora num dos maiores espelhos d'água, em
29:26frente um dos maiores espelhos d'água do
29:28estado, que é o rio do Cauí, né, o
29:31lagamado do Cauí, que inclusive é uma
29:33APA, uma área de proteção ambiental. O
29:36Cassig contou para Laí que entre 2009 e
29:382010 ele começou uma campanha pública
29:40pelo direito à água, porque ele
29:42representava 27 comunidades que sofriam
29:45com estiagem, mesmo tando do lado do
29:47rio.
29:47>> Esse povo que estava ao redor tirava
29:50essa água, protegia essa água e usava
29:52água apenas para quê? Para sua
29:53alimentação, para plantar, mas não
29:56poderia usar para tomar banho ou para
29:58algo do tipo.
29:59>> Aí ainda segundo Paulo Anassé, em 2016,
30:02o governo do estado fez uma proposta
30:04prosé.
30:05os poços se vocês derem a água do rio
30:08pro complexo
30:09>> e a proposta não foi exatamente bem
30:11recebida
30:12>> e aí a gente começa uma guerra realmente
30:15dizendo que a água não é mercadoria e
30:17não é moeda de troca
30:18>> e aqui é importante dizer que o Zassé
30:21não vem a água como eu vejo ou como você
30:23vê considerando que você seja uma
30:25ouvinte não indígena, moradora de uma
30:27grande cidade.
30:28>> A água para nós, ela tem todo um
30:29complexo de informações que num branco
30:32ele não vai entender. para nós ele não,
30:35ela não é só aquela que nos alimenta,
30:36que nos dá a vida, mas ela tá dentro da
30:40gente, ela faz parte da gente, ela é o
30:42nosso sagrado e ela corre no meio da
30:45nossa mãe que é mãe terra. Então é mesmo
30:47que eu tá matando, tirando essa água.
30:50Então essa água ela tem que ser cuidada,
30:52tem que ser preservada e o sagrado que é
30:54o Cauíp mais ainda. Então naquela época
30:58a intenção era estão construindo a
30:59ciderúrgica, vamos levar água para
31:02esfriar as placas de aço. E a pergunta
31:05era se para que essa água para placas de
31:08aço se nós não temos água.
31:10E sempre era os indígenas são contra o
31:13progresso, os indígenas são contra o
31:15desenvolvimento.
31:18[Música]
31:26[Aplausos]
31:29Quando veio a proposta era de 800 L por
31:31segundo, né? Então era aquela grande
31:34confusão, 800 L onde nós não temos água
31:37nas torneiras. Como pode isso? Proassé
31:41não podia e eles foram à guerra.
31:48As primeiras que toparam toda essa
31:50guerra comigo foram as mulheres. As
31:52mulheres iam para cima dos canos, as
31:53mulheres cavavam, entupiam as as os
31:58buracos que iam botar o cano.
32:02E a gente passou três meses acampado na
32:04frente de um rio não permitindo, levando
32:07bomba, levando tiro, levando tudo que
32:09fosse possível.
32:11[Música]
32:14E a partir dali vinam as ameaças, né?
32:18Eu passei muito tempo por ameaças, foram
32:22duas ameaças de morte das quais eu tive
32:25que sair do território e retornei agora
32:28nesse ano.
32:31[Música]
32:36E assim, a briga do Zassé pela água não
32:39acontece à toa. as empresas do CIP e já
32:42estão afetando o sistema hídrico da
32:43região, como o geógrafo da Universidade
32:45Federal do Ceará, Geová Meirelles,
32:48explicou para Laí Martins,
32:49>> com mais de 30 poços, retirando água e
32:54rebaixando os aquííferos, de modo que
32:56nós tivemos, inclusive uma reunião com o
32:59governador à época para tratar
33:01justamente desse uso exagerado,
33:04perdulário, um sistema hídrico
33:06fundamental os ecossistemas ali daí
33:09costeira e
33:11tanto dos dos indígenas como camponeses.
33:15>> Tá, mas e o data center nisso tudo
33:18pro professor Geová, que inclusive faz
33:20parte do grupo de trabalho de
33:21identificação da terra indígena ANACÉ,
33:24com o data center, o impacto cumulativo
33:26no sistema de águas pode inviabilizar a
33:29presença dos indígenas ali.
33:31>> E essas populações estão submetidos a um
33:35perda de biodiversidade com
33:37desmatamentos, não é? E aí tem um
33:39aspecto que para mim parece crucial
33:41nessa relação, que é a comunicação entre
33:44empresas indígenas ou no caso a falta de
33:49comunicação. A Lais perguntou sobre isso
33:52pro Paulo Anassé,
33:53>> uma empresa, né, que a MRS, que é uma
33:55empresa que foi contratada para fazer
33:57esse relatório, ela diz que no final de
34:002024 ela esteve no território e fez um
34:02mapeamento sociológico e entrevistou 254
34:06pessoas, inclusive lideranças. Eles
34:08escrevem assim no relatório. Queria
34:09saber se alguém veio aqui falar com
34:11vocês sobre o data centro. pode ter
34:13vindo e sono,
34:15porque ninguém viu essas pessoas aqui. E
34:19se eles vieram, não disseram realmente o
34:22que era, não me lembro, eles podem ter
34:25ido em outro território, mas aqui não.
34:35E assim, existe a tal redata e existe
34:38uma boa vontade do governo federal para
34:40com os data centers e para com o TikTok.
34:42Esse projeto do TikTok no Ceará é
34:44importante pro governo federal.
34:46Existiram reuniões em Brasília para
34:48tratar esse projeto. A viagem do Lula a
34:51China, importante lembrar, existe uma
34:53reunião com o TikTok, né? Então essas
34:56coisas estão sim conectadas.
34:57>> Nossa, aquela confusão da Janja lá, né?
35:00>> Tem a fala da Janja,
35:01>> você lembra, né?
35:02>> Exatamente.
35:03>> No jantar com o presidente chinês Xin
35:05Ping, a primeira dama falou que o TikTok
35:07favore extrema direita, o que causou uma
35:09grande comoção na imprensa brasileira.
35:12Além disso, existe uma grande sinergia
35:14entre o governo do estado do Ceará e o
35:16governo federal. Importante isso, porque
35:19o Elumano é da turma do Camilo Santana,
35:21que hoje é ministro da educação, que é
35:23próximo do Lula, não só eh ministro do
35:27governo, mas é uma pessoa próxima do
35:28Lula historicamente, assim, uma pessoa
35:30de confiança dele. Então, sim, existe
35:31uma conexão.
35:32>> Mas apesar de tudo isso, no centro dessa
35:34questão tá o governo do estado, em
35:37especial autarquia do governo do estado,
35:40a superintendência estadual do meio
35:42ambiente, SEMAS.
35:44>> Muitas coisas para dizer sobre a SEMAS,
35:45né? A semass é uma autarquia, então na
35:48teoria é um órgão independente.
35:50>> Mas como eles estão ligados a SEMA, que
35:53é um órgão político, as coisas acabam se
35:56misturando um pouco.
35:57>> SEMA é a Secretaria Estadual do Meio
35:59Ambiente e Mudança do Clima.
36:01>> E aí, bom, a minha relação com a SEMAS
36:03tem sido de, né, questionamentos. Eu
36:05tenho questionado bastante, tenho
36:07tentado obter documentos com eles, não
36:09tem sido muito fácil, mas eles respondem
36:11as perguntas,
36:12>> só que eles respondem de maneira
36:14protocolar, em geral por meio de nota.
36:16Mas aí em meados de agosto, a Laí estava
36:19no Ceará
36:19>> e a minha intenção de ir lá na
36:21terça-feira era tentar conversar
36:22principalmente com alguém, né? Furar
36:24essa barreira da assessoria de imprensa
36:26só no e-mail,
36:27>> porque você tentou marcar e eles não
36:28marcaram, é isso? Não, eu não tentei
36:30marcar, só que aí sobrou um tempo lá e
36:33eu falei: "Eu vou tentar minha sorte,
36:34porque não?" E fui lá. Olá, bom dia.
36:37>> Dia,
36:38>> tudo bem?
36:39>> E assim foi.
36:40>> Então, meu nome é Elaí, eu sou
36:42jornalista e eu vim, eu queria tentar
36:44falar com o Rivaldo. Ele tá por aí?
36:47>> Seu nome é
36:48>> Laí Martins. Eu não tenho hora marcada
36:50com ele, mas eu tava aqui perto, falei
36:52isso.
36:53>> E a coisa deu resultado.
36:55>> Quem me recebeu foi primeiro, né, a
36:57assessora de imprensa. Olá. Olá,
36:59>> tudo bem?
37:01>> Prazer, cara. Eu sou a Laí do Intercept.
37:04>> Você quer entrar conversar com na sala?
37:06>> Então, é, pode ser, pode ser.
37:09>> Mas foi engraçado porque deu para ver
37:10que eles ficaram surpresos e eles sabiam
37:13que eu era, né? Tipo, a Laí do Intercept
37:15para eles ali é um nome rotineiro,
37:17porque eu mando muito e-mail. É de fato
37:20assim, eu sou, eu encho o saco deles. É,
37:24já deve ter muito meu, meu nome, né?
37:27Elas a aquelas que eu preparei com ele.
37:30Ai, sinto muito muito trabalho.
37:33Tranquila, sabe? Com certeza.
37:35>> Mas assim, me receberam super bem, foi
37:38bem cordial a conversa ali. E aí, eh,
37:40quem me recebeu oficialmente foi o
37:42Ulisses Costa, não o radialista. Ulisses
37:46Costa, que é o diretor de licenciamento
37:49da SEMS.
37:49>> Atualmente, o cargo oficial do Ulisses
37:52Costa é de assessor especial da SEMAS. E
37:55a Laí tinha duas questões principais
37:57paraa autarquia. A primeira tinha a ver,
38:00claro, com a questão da consulta e a
38:03segunda tinha a ver com detalhe curioso,
38:06porque o relatório ambiental do data
38:07center foi particularmente
38:10genérico.
38:11>> Queria saber porque que o data center
38:13foi licenciado como construção civil.
38:15Porque dentro desse grande grupo de
38:16construção civil, tá? Parque de
38:19vaquejada, cartódromo e agora o data
38:21center, como se eles fossem coisas que
38:23tem impacto semelhantes, sendo que tipo
38:25um data, o o parque de vaquejada é
38:27basicamente um ring, né? Tipo, super
38:30diferente do que é um data center. E
38:32assim, o fato dele ter sido licenciado
38:34como um parque de vaquejada levou a
38:36outras questões que é ele foi licenciado
38:39como baixo impacto e aí por isso não
38:41precisou de um estudo ambiental
38:42aprofundado, que seria o Erima. EA RIMA
38:45é a sigla para estudo de impacto
38:47ambiental e relatório de impacto
38:49ambiental. É o protocolo básico que
38:51avalia como cada projeto vai afetar o
38:53ambiente e como eventuais impactos podem
38:56ser mitigados. E isso não foi feito no
38:59caso do data center porque as
39:00autoridades acharam que o EAIMA não era
39:03necessário e ele foi pré-aprovado com um
39:05relatório ambiental simplificado, um RS.
39:09A Laí perguntou sobre esses buziles
39:11todos pro Lices Costa. Essa questão do
39:14licenciamento
39:16é um problema porque não tinha previsão
39:18legal para enquadrar esses data centers
39:21e aí terminou se enquadrando em
39:24construção civil. Mas isso não faz
39:26diferença em relação a a por exemplo os
39:29estudos.
39:30Dentro do Código Constção Civil, por
39:32exemplo, a gente tem aeroporto.
39:33>> Sim, mas o esse projeto passou como PPD
39:37baixo.
39:37>> PPD é o potencial poluidor degradador.
39:41>> E aí isso por consequência levou à
39:43dispensa de um estudo mais aprofundado.
39:46>> Não necessariamente, Laris. Não
39:48necessariamente.
39:48>> É, ele passou com o RAS.
39:50>> Pois é. Só que a outra alternativa ao R
39:53seria o rim, certo? Se você observar a
39:56estrutura do termo de referência do RAS
39:58Hum
39:59>> e a estrutura do termo de referência do
40:00Erima, eles foram similares. O nível de
40:04aprofundamento de estudos não iria ser
40:08diferente se fosse um ou fosse um e
40:10rima. Só que isso é uma questão que fica
40:12aberta porque é uma questão de
40:13interpretação. Você tem um
40:15empreendimento novo que não tem
40:18tipificação
40:19legal. Então eu não sei explicar para
40:22vocês agora, até porque não foi uma
40:24decisão minha na época, porque escolheu
40:26o PPD baixo.
40:27>> Para mim, essa fala do Ulisses, que
40:29importante ressaltar, não teve tempo de
40:31se preparar para essa entrevista, me
40:33parece algo que a gente poderia batizar
40:35de política do Tostines. Precisa estudar
40:38a fundo. Não. Por que não? Porque o
40:42impacto vai ser baixo. E como a gente
40:44sabe que o impacto vai ser baixo? Porque
40:46se o impacto fosse alto, a gente ia
40:47precisar estudar a fundo.
40:53[Música]
40:56Ocorre um processo de banalização do
40:58estudo de impacto ambiental. Não estou
40:59dizendo que para esse caso é o caso, mas
41:03por exemplo, você tem ali uma área
41:04industrial que foi destinada para esse
41:07fim. Tem uma série de outros
41:09empreendimentos que foram passíveis de
41:11rima. E aí o data center enquanto
41:14estrutura, ele é como se fosse uma
41:17fábrica. A questão dele é a demanda
41:20energética dele e para alguns casos a
41:22demanda hídrica, que às vezes é
41:25exagerada, mas do ponto de vista da
41:26estrutura da construção civil, talvez
41:28ele seja até menos impactante do que uma
41:30ciderúrgica que usa cavão em forno, tem
41:34altíssimos níveis de emissão
41:36>> ou de uma termaelétrica.
41:38>> Uhum. Se ela for alimentada a carvão ou
41:40até a gás, seja.
41:41>> E assim, vamos combinar, né? Ser menos
41:43impactante do que uma termoelétrica
41:45alimentada a carvão, para mim é tipo ser
41:47menos explícito que o X Vídeos, menos
41:49confuso que o Carlos Bolsonaro, menos
41:51rico que o velho da Van. De qualquer
41:53forma, o gancho do carvão fez o Ulisses
41:56Costa desatar falar de emissão de
41:57carbonos. Então ele não é um grande
41:59emissor, ele é potencialmente emissor,
42:01>> que aí já é outra discussão teórica que
42:03a gente teria sobre o referencial,
42:06>> que impacto a gente tá analisando o
42:08potencial, o efetivo. E eu acho que não
42:12é tão importante, porque o nosso
42:13trabalho é o quê? Evitar. E com o modelo
42:16que a gente adotou, apesar das
42:18discordâncias, a gente conseguiu atingir
42:20esse objetivo, que é evitar que esses
42:22impactos aconteçam.
42:24Assim, depois dessa longa volta, ele
42:27chegou à segunda grande questão da Laí
42:29Martins, que tinha a ver com as pessoas,
42:32porque os ANAC não foram consultados.
42:34>> A questão das consultas prévias, elas
42:37não foram feitas em função de ser uma
42:41uma área que não abrange terras
42:43indígenas homologadas com portaria de
42:46interdição, tá em estudo. Não havia na
42:50época da entrada do empreendimento
42:51previsão paraa cobrança do E Rima. foi
42:54aplicado um RAS, né, um relatório
42:56ambiental simplificado,
42:58mas que não é simplificado como o nome
43:01sugere, é só ler o estudo. Não precisa
43:05acreditar em mim, não. Basta ler o
43:07estudo.
43:07>> Na verdade, há controvérsias. O próprio
43:10Luis falou que não sabe quanto carbono
43:12vai ser emitido. Ninguém sabe exatamente
43:15quanta água o monstrengo do TikTok vai
43:17beber. Porque o que a empresa fala é que
43:19a água vai correr em um circuito
43:21fechado, vai ser reutilizada pelo
43:23sistema. Por outro lado, existe um
43:26pedido para perfuração de postos
43:27artesianos. Além disso, os números
43:30previstos no relatório são baixos, tipo
43:33bem baixos. Quanto que tá previsto? 30
43:35m³. É isso?
43:37>> 30 m³ de de água, que pra data center é
43:40um número baixíssimo. A primeira vez que
43:41eu olhei, eu falei, deve tá errado. Eu
43:43até questionei a Cácia, eu falei: "Esse
43:45número tá certo mesmo?" Porque olha, com
43:46base em outros projetos e mandei alguns
43:48links, eh, esse número parece ser muito
43:50baixo. E aí eles foram, não é, é esse
43:52número mesmo que eles informaram.
43:54>> Mas para além disso é saber aonde eles
43:57vão colocar esse data, né? Vão colocar
44:02na beirada do rio.
44:04>> Cacique e Roberto.
44:05>> Ah, mas se a água é tão pouca que eles
44:07vão usar, porque que não coloca lá
44:09distante? Não vai ficar uma água, uma
44:11água circular. Por que na beirada do
44:13rio? Por que em cima do território
44:15indígena? Por que em cima de um
44:17alquífero indígena?
44:18>> De qualquer forma, para Ulisses Costa,
44:21os dados que foram apresentados estão de
44:23bom tamanho.
44:23>> Então a gente entende que o nível de
44:25informação que o estudo trouxe, ela foi
44:27suficiente pra gente tomar uma decisão
44:29que a gente entende
44:31>> adequada.
44:35[Música]
44:37No fim da entrevista, Ulisses tocou num
44:39ponto que tá profundamente relacionado
44:40com eias rimas, ras e PPDs
44:44e que no fundo é o último objetivo das
44:46grandes empresas,
44:48o dinheiro.
44:50As legislações elas estão estruturadas
44:53de forma que o PPD e o portes
44:55influenciam basicamente
44:57no valor que você paga em termos de
44:59taxa.
45:02[Música]
45:04Quando a gente só pesa os argumentos do
45:06assessor ambiental da SEMAS, a impressão
45:08que fica é que todo o processo de
45:10avaliação da instalação do data center
45:12foi baseado na política do Tostines. que
45:15o estado tá dizendo que a empresa não
45:17precisa consultar os indígenas porque
45:19eles não têm uma terra demarcada ali. Só
45:22que eles não têm uma terra demarcada ali
45:23porque o mesmo estado, ainda que em
45:26instância diferente, não demarca essa
45:28terra.
45:30[Música]
45:32No fim, o Ulisses disse que mesmo que
45:34isso não seja imposto no processo legal,
45:36a semass vai sim fazer com que os
45:39indígenas sejam escutados.
45:44Além disso, a Funai promete retomar o
45:46grupo de trabalho paraa demarcação da
45:47terra naé ainda nesse segundo semestre,
45:51o que, por um lado, parece uma boa ideia
45:52para usar naé, por outro sua como um
45:55tiro na água.
45:58E Laí, o provável é que é muito difícil,
46:01né, a gente ver, pensando aqui, eu não
46:04lembro de nenhum exemplo de terra que
46:06foi demarcada em cima de um
46:09empreendimento tão grande, foi retirado
46:11esse empreendimento, né? Provavelmente
46:14se for demarcado, vai ser um recorte
46:16ali, né? Vamos, vamos fazer um jeito
46:19desse desse Porto continuar lá dentro,
46:21né? Eu nem sei, mas assim, se fosse
46:23fazer, ia ter que ser uma grande coxa de
46:25retalhos, vários recordes assim, porque
46:27no quando você tá lá no território, eh,
46:30tem uma área que concentra muito as
46:31indústrias, então tipo umas vizinhas às
46:33outras, mas aí você anda por vários
46:36quilômetros, não vê nada e aí do nada
46:38você vê uma indústria de novo. Então, o
46:40assentamento delas no território foi
46:41meio estranho assim, né, a localidade
46:43assim. Então é, vai ser um desafio. E
46:46você tem o porto na praia que é gigante.
46:48Então, por exemplo, a costa seria
46:50demarcada onde tá o porto? Não sei. São
46:53questões assim. E a FUNA, à medida que o
46:55tempo passa, você tem mais indústrias se
46:57instalando lá.
47:02Então é um desafio.
47:06>> E no fim, além de todos os possíveis
47:08impactos futuros, tem os impactos
47:11presentes desse empreendimento, que tem
47:13a ver com uma incapacidade por parte das
47:16empresas e do poder público de informar
47:18as populações locais sobre como o data
47:20center vai afetar a região e as pessoas
47:23que vivem ali.
47:24>> O data center, primeiro que eu não sabia
47:25nem o que era, né? Primeiro de tudo,
47:28data center, tudo bem, eu não não não
47:31estudo, não sei inglês, center dá uma
47:34ideia que seja centro, né? Aí data,
47:37então deve ser o calendário no centro do
47:41calendário, né? Mais ou menos. Dá para
47:43dá dá para ter uma interpretação, não
47:45sei nem o que é data sendo.
47:46>> É diferente de falar de uma ciderúrgica,
47:48né? Que as pessoas entendem o que faz,
47:50as pessoas entendem que potenciais
47:51impactos tem. Quando eu fui pro Rio
47:53Grande do Sul, as pessoas me perguntavam
47:55o que que essa fábrica vai produzir
47:56quando eu falava do data center. Nada,
47:59não vai sair caminhão com caixas,
48:01entendeu?
48:03>> No último dia em Calcaia, a Laí foi num
48:05evento organizado pelo IDEC e pelo
48:07Instituto Terramar. Os anass
48:09apresentaram toré.
48:11[Música]
48:20>> Conversaram com especialistas sobre os
48:22possíveis impactos do data center e
48:24fizeram planos pros próximos passos.
48:29>> Segundo o que falou C Roberto, ele já
48:31tem próximos passos planejados. Ele não
48:33entregou muito assim, mas já existe uma
48:35continuidade da ação que começou a
48:38ocupação na Semo e eles pretendem
48:41continuar. Um desses desdobramentos é a
48:44representação no Ministério Público
48:46Estadual para barrar o licenciamento
48:48desse projeto para que ele seja suspenso
48:49nesse momento por uma série de fatores,
48:52a não consulta, mas também por ele ter
48:54desrespeitado, né, um processo de
48:56licenciamento de alguma maneira
48:57contaminado ali, porque o negócio do
49:00parque de vaquejada não dá, né? Não, as
49:02pessoas estão olhando e falando isso é
49:04inadequado. Não dá para avaliar os
49:07impactos de uma maneira séria se a gente
49:09não tá classificando o empreendimento da
49:11maneira correta.
49:15[Música]
49:19>> A Laí Martins procurou a Casa dos Ventos
49:21e o TikTok para eles se posicionarem
49:24sobre tudo que foi falado aqui e na
49:26reportagem que ela publicou no
49:27Intercept.
49:29O TikTok não respondeu e a Casa dos
49:31Ventos respondeu por escrito.
49:34Em resumo, disse que o projeto seguiu
49:36rigorosamente os processos de
49:38licenciamento da CMAS e que não se
49:40sobrepõe a nenhuma área demarcada ou
49:42ocupada por qualquer comunidade. E aí
49:45tinha mais um lado que era importante
49:47escutar, o do governo federal, porque o
49:50governo tem incentivado a instalação de
49:52data centeres no Brasil. Ea tentou
49:54algumas vezes entrevistar pessoas do
49:56governo federal sobre o assunto, mas só
49:58conseguia respostas via assessoria de
50:00imprensa. Então a gente ia publicar o
50:02episódio sem esse outro lado. Mas aí
50:05algo surpreendente aconteceu. O episódio
50:09já tinha sido devidamente finalizado e
50:11eu tava em Brasília no Ministério da
50:13Fazenda, o que por si só é um tanto
50:15surpreendente, para produzir um episódio
50:17que vai chegar nos seus fonos de ouvido
50:19só no ano que vem.
50:21Estamos chegando.
50:22Natália
50:23>> tudo bem? Como é que você tá? Prazer.
50:25>> Opa. E aí, Igor? Tudo bem, Tomás?
50:26Prazer. No meio dessa pororação, eu me
50:28vi sentado diante de um cara chamado
50:30Igor Marquezi. Se precisar que desliga
50:33funcionar para você.
50:34>> O Igor é empresário e empreendedor de
50:35tecnologia, criou uma fintec na garagem
50:38da casa dele e hoje atua como assessor
50:40especial do ministro Fernando Hadad.
50:42>> Posso já colocar um lapelinha? No meio
50:43da nossa conversa que aconteceu numa
50:45sala do Ministério da Fazenda e que era
50:47sobre um assunto que não tava
50:48diretamente relacionado com a nossa
50:49história de hoje, ele começou a falar de
50:51data centers.
50:52>> Você trazer data center pro Brasil de
50:54qualquer jeito pode ser muito ruim
50:56>> e de como ele e consequentemente boa
50:58parte do governo enxergam os data
51:01centers.
51:01>> Ah, então data center é ruim. Não, data
51:04center pode ser ruim se você fizer desse
51:06jeito. Por outro lado, data center é
51:10ultra crítico para qualquer empresa que
51:13quer, não precisa nem inovar, que quer
51:15existir, né, em 2025. E aí eu percebi
51:18que o que ele tava me falando era um
51:19contraponto extraoficial do governo. A
51:22reportagem da Laí
51:23>> é um insumo crítico para toda a cadeia
51:25produtiva. A gente não conseguia atender
51:27nem a demanda brasileira com os data
51:29centers no Brasil é um problemaço. A
51:30primeira coisa que a gente tem que
51:31resolver é isso. Segunda coisa, ah,
51:35vamos trazer um data center de
51:37exportação pro Brasil. Legal. Em que
51:39condições você vai usar energia 100%
51:42renovável? vai ser água zero, vai ser
51:44carbono zero desde o início. E se eu vou
51:46pegar uma parte desse investimento e vou
51:49garantir que você vai investir em
51:50pesquisa de desenvolvimento em áreas
51:52onde o Brasil tem potencial de virar
51:53exportador e principalmente você não
51:56pode exportar tudo. Uma parte dessa
51:58capacidade tem que ser destinada ao
52:00mercado doméstico para que as nossas
52:03startups, as nossas empresas, as nossas
52:05universidades, os nossos diversos entes
52:08governamentais tenham acesso a esse
52:11recurso que é o recurso mais escasso do
52:13planeta hoje, que são esses
52:14supercutadores para treinamento e uma
52:16inferência de modelo. Nesse cenário, o
52:18data center é espetacular. Quanto mais
52:20data center vier pro Brasil que topar
52:23esse mas aí o jogo, fomos nós que
52:25desenhamos. A gente sentou, escutou a
52:27sociedade civil, ouviu a preocupação,
52:29viu que dava para resolver o negócio da
52:30água, entendeu como é que tá a matriz
52:33energética brasileira, viu que nos
52:34próximos anos tá sobrando energia, a
52:36gente tem um problema porque tem energia
52:37demais, entendeu a estrada da
52:40capacidade, desenhamos os nossos termos
52:43e fomos lá e falamos assim: "Vocês
52:44querem vir para cá para jogar o jogo
52:46aqui?" É isso. Ah, eu quero redução
52:49fiscal no custo de imposto de renda.
52:51Não, não vai ter nada. a gente desenhou
52:54nas nossas regras e aí eles vêm jogar o
52:57nosso jogo. Aí eles podem ser parceiros
52:59bacanas. As mesmas empresas que podem
53:01ser, entre aspas, problemáticas podem
53:04ser uma solução. Então acho que é esse
53:05pragmatismo que a gente tem que ter.
53:07>> Isso que você tá falando é o redata, né?
53:08>> Isso.
53:09>> Mas teve um uma parte de CD impostos
53:12também, não teve um
53:13>> Não, não tem um um pedaço ali que aí é
53:16de novo é é você olhar pra situação,
53:18fazer o raio X ser pragmático, né? né?
53:20Então assim, o Brasil tinha uma
53:23estrutura tributária complexa demais
53:25para esse negócio, que não só era caro,
53:27mas era complexo e podia mudar a
53:29qualquer momento. Por sorte, esse
53:32parlamento e esse governo, quando as
53:34primeiras ações aprovou uma reforma
53:35tributária que resolve tudo isso. O que
53:37a gente fez foi só antecipar os efeitos
53:40dessa reforma tributária,
53:42>> parte dos efeitos, né? A reforma
53:43tributária vai ser mais benéfica para
53:45esses data centers a partir de 2027, se
53:48a gente não fizesse nada. Mas a gente
53:49pegou um pedaço que tava impedindo a
53:52vinda desses dessas estruturas para cá,
53:54que era a tributação sobre os servidores
53:56e antecipamos os efeitos da reforma. Só
53:58que como a gente fez isso aí eu pude
54:00criar essas contrapartidas todas que eu
54:01te falei.
54:03>> Diante disso, eu perguntei
54:04especificamente sobre o projeto de
54:05Calcaia.
54:06>> A impressão que eu tive é que tá
54:08faltando mesmo comunicação, porque as
54:10pessoas não sabem o que o que que é,
54:11entendeu? Então tá com muito receio de
54:13meu, já já é uma é uma região que tem
54:15problema de água. Olha, mas aí eu vou te
54:18falar, esse projeto especificamente e a
54:20gente recebeu os detalhes desse projeto,
54:21esse
54:22>> projeto de calcaia.
54:22>> É, esse calia é PEN, é no Ceará.
54:26>> É isso, isso, isso. P.
54:27>> Eu fiquei muito impressionado
54:29positivamente, principalmente com a
54:31questão ambiental desse projeto. Ele é
54:33um projeto com 100% de energia limpa. É
54:36um projeto que não vai consumir água.
54:38Para você ter uma ideia, tinha uma
54:39empresa lá que fazia captação de água e
54:41tal, tavam achando que iam ganhar um
54:42super cliente, que eles e esses data
54:45centes que estão vindo pro Brasil, eles
54:47estão usando um sistema de resfriamento
54:50líquido em sistema fechado, que é
54:53sensacional você olhar. É um tubinho
54:55azul que chega com água gelada numa
54:57placa de cobra em cima do chipe, esfria
55:00a placa, a placa esquenta e sai um
55:01tubinho de água vermelha e esse sistema
55:04recircula. Então, a única consumo de
55:06água é o que tem de perda desse sistema.
55:10O consumo desse data center gigantesco
55:13quando tiver no tamanho completo vai ser
55:15o equivalente de 72 residências. É nada
55:18assim. Então, seria interessante se a
55:19gente pudesse usar essa sua fala, porque
55:20assim, uma das coisas que tá sendo
55:22colocado no episódio justamente assim,
55:23que é tão pouca água e como a gente não
55:25conseguia, como eles não conseguiram
55:27falar com a empresa, eles acham que
55:29talvez
55:29>> aqui, só para ficar claro, eu tô me
55:31referindo aos anassé,
55:32>> não estivesse previsto a quantidade
55:33total de água que para projeto o projeto
55:36que passou por aqui, parte assim, tem
55:38uma previsão muito agressiva de uso de
55:41conteúdo local, então eles estão
55:42tentando achar fornecedores locais para
55:44várias coisas na construção do data
55:46center. tem investimentos em programas
55:49de educação, em uma série de questões lá
55:51para formar os técnicos, etc. e tem uma
55:56preocupação socioambiental que eles
55:57sabiam que ia ser o problema desde o
55:59início. Então assim, eu não não posso
56:01falar de maneira geral, mas esse projeto
56:04particularmente se se o que tiver
56:06virando,
56:08materializando for o que eh chegou aqui
56:11pra gente ver, eu fiquei muito
56:12positivamente impressionado com o
56:15aspecto de sustentabilidade. Vai ser um
56:16dos data centers mais sustentáveis do
56:17mundo. Aqui vale uma parte do apartte,
56:21porque eu obviamente comuniquei à equipe
56:23do Igor Marquezini que pretendia usar a
56:25nossa conversa para esse episódio feito
56:27em parceria com Intercept. Eles disseram
56:29que tudo bem, mas fizeram questão de
56:31ressaltar que esse não é um
56:33posicionamento formal do Ministério da
56:35Fazenda.
56:39[Música]
56:47Antes de terminar, eu preciso corrigir
56:49dois erros do episódio anterior.
56:51Primeiro porque eu falei que aquela
56:52famosa restauração desastrosa do rosto
56:54de Cristo aconteceu numa igreja na
56:56Itália. Na verdade foi na Espanha. E
57:00segundo que eu disse que o Vladimir
57:02Nabukov só tinha aprendido inglês aos 19
57:04anos. Na verdade, ele se mudou para os
57:07Estados Unidos aos 19 anos, mas foi
57:09alfabetizado em inglês ainda criança.
57:13Eu agradeço aos ouvintes que me enviaram
57:15essas correções e peço desculpa pelos
57:17erros.
57:20E por fim, também antes de terminar, eu
57:22quero te convidar a escutar o podcast
57:24Cirandeiras, nosso parceiro de rádio
57:26guarda-chuva, que tá de volta aos
57:28tocadores. Nessa temporada nova, as
57:31jornalistas Joana Soarez e Raquel Baster
57:34vão falar sobre as cozinhas brasileiras,
57:36que são espaços de convivência e de
57:37compartilhamento de saberes entre as
57:39mulheres do campo e das cidades.
57:42Procura aí pelo Cirandeiras no seu
57:43aplicativo de óleo preferido. Escuta que
57:46você não vai se arrepender.
57:50Eu sou Tomás que Verini e termina aqui o
57:53episódio 147 de Escafandro.
57:57Obrigado por escutar e até o próximo
58:00mergulho.
58:05[Música]
58:07Oi, aqui é o Luca Barbero e eu tô
58:09falando de São Paulo capital. A mixagem
58:12de som desse episódio é do Víor Coroa. A
58:15trilha sonora tema é do Paulo Gama. O
58:17design das capas é da Cláudia Furnari. A
58:20edição de áudio e a sonorização do
58:22Mateus Marcolino. A reportagem é da Laí
58:26Martins. O roteiro e a direção são do
58:28Tomás Queiaverini.
58:31[Música]