Free YouTube Transcribe

Video transcript

159: A fantástica fábrica de algoritmos da Meta

Rádio Escafandro · 10,552 words · 48 min read

Want to search this transcript, jump the video from any line, or download it as TXT, SRT, or VTT?

Open in the transcript tool

Full transcript

0:00Oi.

0:02>> Rádio guarda-chuva. Jornalismo para quem

0:05gosta de ouvir.

0:09>> Nos ídos de 2018, quando passou num

0:11processo seletivo para trabalhar no

0:13Facebook, a Ester Sass se sentiu que nem

0:15aquele menininho da fantástica fábrica

0:17de chocolates.

0:18>> Era assim a a a saída de ouro, né? O

0:21ticket do Willonka. A Ester tem uma

0:23relação bem próxima com a tecnologia,

0:25porque o pai dela trabalhava com

0:27programação já na década de 1980,

0:30uma época em que a programação era um

0:32ofício misterioso e desconhecido.

0:34>> Eu tinha a mão pequenininha, eu já mexia

0:35no mouse.

0:36>> Aquele mouse que tinha uma gema de ovo

0:38dentro, né? Que o pessoal fala que a

0:39gente tem que cozinhar uma gema de ovo

0:40sempre antes de ligar o computador.

0:42>> Os jovens não sabem, mas a gente tinha

0:44que ficar cozinhando e trocando as

0:45gemas. Exatamente. [limpando a garganta]

0:46>> É

0:49>> aqueles computadores de ligar no botão,

0:51sabe? para chegar da escola. Então

0:52assim, eu cresci com a tecnologia,

1:00mas não foi exatamente pela proximidade

1:01com a tecnologia que a Ester chegou ao

1:03Facebook, nem foi isso que fez ela ver o

1:06emprego numa bigtech como uma barra de

1:08chocolates premiada.

1:12A Ester trabalhava com publicidade

1:15em grande parte, graças ao advento das

1:17mídias sociais que sugaram o dinheiro

1:19para anúncios automatizados dentro das

1:21plataformas. Esse é o mercado que há

1:23décadas vive em crise.

1:27[música]

1:30Os empregos de publicidade nos chamados

1:32veículos, tipo Globo ou Netflix, viraram

1:35raridade e as empresas do Vale do

1:37Silício viraram as fantásticas fábricas

1:39de chocolate do Willly Ononka.

1:42Cara, a gente via pessoas saindo da vida

1:44de agência, que era ficar subindo a

1:46pedra de si se for com morro acima toda

1:48a madrugada, se lascando em entrega de

1:51projeto, ninguém ganha extra, todo mundo

1:54tem burnout, todo mundo frito de

1:56remédio. Então assim, quando me essa

1:59pessoa me falou que tinha uma vaga

2:00temporária no Facebook, eu e qualquer

2:02pessoa que trabalhava com comunicação na

2:04época era óbvio, eu vou tentar, porque

2:07se eu for, a minha vida tá feita, assim,

2:09é o mais próximo de uma estabilidade que

2:11eu vou conseguir. Essa era a ideia. Em

2:132018,

2:15[música]

2:20[música]

2:20>> a Ester se candidatou pra vaga, fez o

2:23processo seletivo e passou.

2:27A função [música] dela seria fazer a

2:28ponte entre o Facebook e as empresas que

2:30queriam criar campanhas publicitárias

2:33dentro da plataforma.

2:37>> [música]

2:37>> E aqui tem um detalhe importante dessa

2:39chegada da externa fantástica fábrica do

2:41Mark Zuckerberg, porque assim como

2:43garotinho da história original, a Ester

2:46cresceu numa família pobre. Eu cresci na

2:48zona sul de São Paulo, no Grajaú, uma

2:51região periférica, escola pública, esse

2:54contexto.

2:55>> E nesse contexto trabalhar numa das

2:57empresas mais ricas do planeta era ainda

2:59mais impactante.

3:00>> No dia que eu passei na vaga, eu desci

3:03imediatamente no boteco mais próximo,

3:06tomei um shot de pinga e liguei pra

3:08minha mãe, pra minha irmã, tipo assim,

3:10gente, acabou assim, o AG não vai matar

3:12mais ninguém, sabe? [música] Estamos

3:14todos com a vida feita.

3:19>> [música]

3:19>> E aí ela começou a trabalhar e todas as

3:21expectativas foram por água baixo,

3:23certo?

3:25>> Na verdade não. Ela viu que era mais ou

3:27menos isso mesmo. [música]

3:31>> Elevadores belíssimos é o prédio mais

3:33lindo, com as pessoas mais educadas,

3:35todos os seguranças, todo o time. Aliás,

3:37se alguém de segurança ouv esse

3:38episódio, um beijo. Amo eles. [música]

3:42Todos os funcionários educadíssimos.

3:44Parecia que você entrava, tipo assim, é

3:46o que a gente imagina do Canadá,

3:48[música]

3:51as pessoas mais educadas, mais bonitas,

3:53mais elegantes, mais bem vestidas, de

3:55todas as cores, alturas, estilos.

4:02Todo mundo te dá bom dia, tá todo mundo

4:04sorrindo porque tá sendo todo mundo

4:06tratado a pão de novo. Parece que tá

4:08todo mundo tomando um antidepressivo

4:10brabo. E hoje em dia eu sei que tava,

4:15mas também [música] as condições eram

4:16muito gostosas.

4:18Gente, PlayStation 5, se você precisar

4:21de um power bank, se você precisar de um

4:23teclado, se você precisar de um fone da

4:25Apple, tinha um uma vending machine,

4:27sabe? Igual você compra salgadinho e

4:29Pepsi. Você aperta o botãozinho e cai.

4:32[música]

4:33Você só botava o seu crachá de

4:35funcionário e caía um aparelho

4:36eletrônico de graça.

4:39[música]

4:40Pilha.

4:42Eu não precisava comprar pilha porque eu

4:44pegava pilha na minha evente de machine.

4:49Eu de fim de semana catava 30 bulls na

4:51geladeira, eu e todo mundo, tá? Mas

4:53especialmente os mais pobres. [música]

4:56Porque a gente ainda tinha um gap

4:58financeiro a recuperar, né? Quem tá

5:00nessa vida há muito tempo. [música]

5:01>> Expropriação. Isso aí.

5:03>> Aí eu tava com fome ainda. Então assim,

5:05meus amigos iam visitar lá. Vega, podia

5:07levar a família para almoçar. Gente, não

5:09toma café da manhã. [risadas] Hoje vocês

5:12vão almoçar no Facebook. Tenho fotos da

5:15minha família. Tipo assim, [música]

5:18tomar open de sorvete, cara. Máquina do

5:20McDonald's. Sorvete. Tem noção do que é

5:22isso todo dia no almoço? Eu [música]

5:25lembrei daquele filme do riquinho, sabe?

5:27Que os crianças vão na casa dele.

5:29>> Era visitar o Rico Riquinho. Juro por

5:31Deus.

5:34E ele achando a coisa mais normal do

5:35mundo. Mas de certa forma ninguém achava

5:38tão normal assim. Todo mundo comentava

5:39tipo: "Porra, é por isso que eu tô

5:41aqui". Quando viajava, viajava de

5:43primeira classe,

5:46bicho. Saí do terminal Jabaquaras do

5:49Jardim Santa Bárbara, que passava, passa

5:51ainda de uma em uma hora, que vai

5:54carregando gado para entrar na fila

5:56preferencial da latanha e o pessoal

5:58fala: "Será que é uma champanhe?" Eu

6:00[música]

6:03literalmente cresci com insegurança

6:04alimentar [música] e lá você tinha

6:07geladeira e estoque de comida à vontade.

6:10>> Você pode pegar o que você quiser,

6:11assim,

6:11>> o que você quiser. E tipo assim, ah, mas

6:14eu tenho uma alergia glúten, ah, mas eu

6:16tô de ramadã, eu tô de preceito. Eles

6:21acomodavam tudo porque tinha toda essa

6:23coisa também, tipo assim, respeitar

6:24todas as religiões, se você tem

6:26diabetes, se você é viga. Teve uma época

6:29que tinha pouca proteína vegana, a gente

6:31reclamou, eles começaram a bocar mais.

6:33[música]

6:33Eu literalmente sobrevivia comendo

6:36mingal da prefeitura de São Paulo. As

6:38crianças estapeavam por sucrilhas, onde

6:40é que tinha sucrilhas na escola pública

6:42e lá o poste de sucrilhas era gigante.

6:44>> [música]

6:44>> Sim.

7:00Eu sou Tomás queini e o episódio 159 de

7:03Escafandro já começou. Nele, a gente vai

7:07mergulhar na cultura corporativa da

7:09fantástica fábrica de algoritmos da

7:11meta. A gente vai te contar como essa

7:12cultura mudou com a volta do Donald

7:14Trump ao poder e a gente vai refletir

7:16sobre o que tudo isso revela a respeito

7:18das bigs.

7:21E [música] como você sabe, esse os

7:23nossos outros 160 episódios só foram

7:26possíveis porque uma parte dos ouvintes

7:29financiam o escafandro por meio de uma

7:31campanha de crowdfunding.

7:33Isso dá pra gente o nível de liberdade

7:35editorial que poucos veículos da

7:37imprensa brasileira tem. Porque como a

7:39campanha é altamente pulverizada,

7:41[música]

7:41com milhares de apoiadores, a gente não

7:43precisa ter medo de incomodar um ou

7:45outro anunciante. A gente também não

7:48precisa moldar os nossos assuntos ou

7:50focar numa determinada faixa demográfica

7:52para facilitar a venda de produtos, como

7:54é comum na imprensa. Enfim, a gente pode

7:57falar de qualquer assunto pensando no

7:59que vai ser mais interessante e

8:00relevante para você que tá levando o

8:03escafandro nos fones.

8:05Então, se você gosta do projeto, você

8:07quer que ele cresça e se multiplique,

8:09você quer que a gente continue em busca

8:11do podcast dos sonhos, vem se juntar às

8:13pessoas que apoiam o nosso financiamento

8:14coletivo. Para fazer isso, o caminho é

8:17rápido, fácil e seguro. Só lá em

8:20catarse.

8:24Escolhe o valor com qual você quer ou

8:26pode apoiar. Catarse.me/escafandro.

8:34Se você quiser apoiar por outro caminho

8:35ou saber sobre as vantagens de ser nossa

8:37apoiadora, é só ir lá em

8:39radioescafandro.com

8:41que tem todos os detalhes.

8:44Mais se você já tá entre as pessoas

8:46luminosas que mantém o podcast no ar há

8:47mais de 7 anos, gente como a Aline,

8:50Tristão Bernardes, a Mariana Araújo, a

8:53Valéria Félix Mendes e o Roberto Viláça

8:56Trudes da [música] Veiga, muito

8:58obrigado, mas muito obrigado mesmo por

9:00isso.

9:06A Ester Sar me contou que no começo

9:08tinha uma relação ambígua com a fartura

9:10toda oferecida pelo Facebook, que na

9:12época que ela entrou ainda não se

9:13chamava Meta.

9:15Hoje, além do Facebook, a Meta é dona do

9:18Instagram e do WhatsApp, o que faz dela

9:20uma das empresas de comunicação mais

9:22onipresentes e valiosas do mundo. O novo

9:25nome, adotado em 2021 teve a ver com o

9:27investimento massivo na ideia de

9:29metaverso, de que pessoas passariam a

9:32interagir por meio de universos digitais

9:34com óculos de realidade virtual e outras

9:36tractanas do tipo. O Mark Zuckerberg,

9:38fundador do Facebook e dono da Meta,

9:41disse que o metaversa era o futuro,

9:43investiu mais de 400 bilhões no projeto,

9:45mas recentemente meio que mudou de

9:47ideia. Demitiu 10% das pessoas que

9:50tocavam o setor e disse que dali em

9:52diante o futuro ia ser a inteligência

9:55artificial.

10:01O Mark Zuckerberg [música]

10:02é hoje uma das pessoas mais ricas do

10:04mundo com uma fortuna de aproximadamente

10:061 trilhão de reais.

10:09Um trilhão, no caso, são 1000 bilhões,

10:11que por sua vez são 1000 milhões. E é

10:15uma soma difícil de visualizar. [música]

10:17Mas para você ter uma ideia, se o Mark

10:19Zuckerberg parasse de trabalhar e

10:21investisse o dinheiro dele na poupança,

10:22[música] a mais conservadora das

10:24aplicações, ele ganharia mais ou menos 5

10:27bilhões por mês.

10:30Quer dizer, os 400 bilhões gastos no

10:33metaverso [música] são meio que troco de

10:35pinga pro Mark Zuckerberg.

10:40E aí [música] lá tava a Ester, uma

10:42mulher crescida na periferia, perdida

10:44numa empresa que só em São Paulo tinha

10:46cerca de 800 empregados e ocupava vários

10:48andares da Faria Lima, epicentro

10:50[música] do capital especulativo de São

10:52Paulo e do Brasil.

10:54E isso, como eu [música] disse, muitas

10:56vezes trazia para ela sentimentos

10:57conflitantes.

10:59>> A gente fazia muito projeto, por

11:00exemplo, [música] com coletivos de

11:02favela, criativos, que visitavam, que

11:04faziam projetos lá, que filmavam

11:06[música] lá. A gente trazia realidades

11:08muito diversas ali para dentro e 100%

11:12ficava chocada. [música] Playboy ficava

11:14chocada.

11:17Dava uma certa

11:19vergonha [música] porque assim, eu

11:21imagino que seja a mesma coisa de de

11:23tipo assim: "Ah, favela venceu, agora eu

11:25moro num [ __ ] condomínio e eu vou trazer

11:27meus amigos da quebrada paraa minha casa

11:29e eles vão ver minha dispensa lotada.

11:31Eh, e depois eles vão pegar o ônibus

11:33deles de pau de arara e vão voltar para

11:35lugar [ __ ] deles. Eu tinha essa

11:37consciência até porque eu voltava pro

11:39meu lugar [ __ ] [música] para visitar

11:40minha família de fim de semana.

11:46>> Mas essa dicotomia [música]

11:48era aplacada pela realidade de que

11:49naquela época o Facebook era uma empresa

11:51diversa, [música]

11:52inclusiva e de certa forma flexível. Eu

11:55tive contato com pessoas de todas as

11:57religiões, coisa que eu nunca tinha

11:58trabalhado, porque no Grajal não tinha

12:00ninguém de burca, [música] não tinha

12:01judeu, várias culturas e várias pessoas

12:05mesmo que eu não tinha acesso antes,

12:06inclusive milionários. [música]

12:08>> E assim, a gente tá falando de 2018,

12:11todo mundo já sabia que as bigtechs não

12:12estavam exatamente interessadas em criar

12:14uma grande ciranda global. A Ester sabia

12:17[música] bem disso.

12:18>> Já tava acontecendo um pouco do rolê da

12:20Cambridge Analytica. A Cambridge de

12:22Analítica foi uma empresa de consultoria

12:24[música] política britânica que usou

12:26dados de cerca de 87 milhões de usuários

12:28do Facebook sem autorização para criar

12:32perfis psicológicos.

12:34A partir daí, a empresa direcionava

12:36peças de propaganda política moldadas de

12:38acordo com o que poderia impactar mais

12:40cada usuário. [música]

12:42Em tese, isso ajudou a primeira eleição

12:44do Trump em 2016. Esse escândalo veio à

12:47tona em 2018 e levou ao fechamento da

12:50empresa.

12:50>> Lembro que eu já tinha essa noção de

12:52que, tipo assim, [música] o Facebook

12:53podia influenciar negativamente em

12:55eleições, que podia tralá tralalá,

12:58>> mas

12:58>> acho que a cultura da empresa, né, que

13:00eu entrei [música]

13:01defendia muito esse ponto de vista. Acho

13:03que assim, sim, tem coisa complicada e a

13:06gente tá aqui para ser quase que

13:07cientista no sentido de [música] se tem

13:09um problema, a gente vai endereçar esse

13:11problema. Isso aqui é um grande

13:13experimento. Ninguém sabia a proporção

13:14que isso aqui [música] ia tomar. faz

13:16coisa boa também. Então, tipo assim,

13:17[ __ ] teve um terremoto as pessoas se

13:21localizarem por isso, WhatsApp, sabe?

13:23Tipo assim, existe e já existiu e

13:26existiram, existirão coisas boas que

13:28essas tecnologias trazem. dentro do meu

13:31ângulo de trabalho, que era servir as

13:33empresas dentro do lugar criativo da

13:35comunicação, eu sempre tinha essa voz e

13:38as pessoas já sabiam quem eu era. Eu

13:41literalmente tenho tatuagem de coquetel

13:42molotov visível, tenho feminista tatuada

13:45nos dedos, tipo assim, é muito claro,

13:47vou com camisetinha do Marques pra

13:49reunião, sabe? [música] E as pessoas

13:50achavam isso legal, porque a

13:52diversidade, inclusive política,

13:54[música]

13:55de gênero, pessoas com deficiência,

13:57pessoas de diferentes passados

13:59econômicos, era [música] importante pra

14:01empresa naquela época, porque eles em

14:03alguma medida, e isso se deve às pessoas

14:05que faziam [música] a empresa, também

14:07defendiam esse ideal.

14:10[música]

14:18Faço parte dessa geração que eu brinco

14:21um pouco que são os utópicos dos anos 00

14:23ali.

14:24>> Essa é a Daniela da Silva.

14:25>> E a gente achou que a internet ia ser a

14:27grande energia democratizadora da

14:29comunicação, dos meios de produção.

14:32>> A Daniela é jornalista de formação e

14:34recentemente ajudou a fundar a Control

14:36Z.

14:37A entidade da qual a Daniela hoje é

14:40diretora executiva foi pensada para

14:42confrontar o poder das bigtecs. A gente

14:45vai falar mais da contrtrol z daqui a

14:46pouco, mas por enquanto o que você

14:48precisa saber é que a Daniela sempre

14:50trabalhou pensando nessa relação entre a

14:53internet e a gente, seres de carne e

14:55sangue.

14:56>> Sempre senti muita necessidade de

14:58trabalhar com inovação e com

14:59criatividade. Acho que isso foi me

15:01levando para perto do campo da

15:02tecnologia. Dentro do campo da

15:04tecnologia, eu também fui me aproximando

15:06de reflexões um pouco mais críticas a

15:08respeito de como esse ecossistema estava

15:11se estabelecendo no Brasil e no mundo.

15:13Comecei a fazer parte de muitas

15:15comunidades, então fiz parte de

15:16comunidades de software livre, por

15:18exemplo, coletivos que se encontravam

15:21digitalmente também faziam ali os

15:24primeiros encontros de blogosfera, por

15:26exemplo, acontecendo no mundo real. E

15:28isso foi me transformando numa ativista.

15:30>> A carreira da Daniela tem alguns

15:32aspectos curiosos. que de certa forma

15:34funcionam como metáforas do

15:36desenvolvimento da internet. Porque

15:38quando ela começou a se envolver com os

15:40direitos digitais, uma das grandes

15:42brigas era para que a legislação

15:43brasileira não sufocasse o direito de

15:46expressão nesse novo ambiente.

15:48>> Naquele momento, a nossa preocupação era

15:50assim: você, Tomás, tem um blog, alguém

15:53faz um comentário no seu blog, você pode

15:56ser responsabilizado pelo comentário

15:58dessa pessoa? Então, a gente tava

16:00começando a entender a interatividade

16:03e quem é responsável pelo conteúdo

16:06postado por terceiros no momento em que

16:08a gente tinha uma multiplicidade de

16:11veículos nascendo. Então, a gente tinha

16:13que tomar cuidado para que não tivesse

16:14uma legislação que inclusive sufocasse a

16:18criatividade e essa efervescência de

16:20veículos que vinha nascendo, porque a

16:22gente nunca tinha tido um dispositivo

16:24tão democratizador das mídias até aquele

16:26momento. a mídia era totalmente

16:28concentrada ali nos canais de mídia

16:30tradicional, até o momento que de

16:32repente qualquer um pode abrir seu

16:33próprio blog na internet, se tornar um

16:35comunicador. Então, como que a gente faz

16:38para criar uma governança que ao mesmo

16:40tempo permita que essa multiplicidade

16:43exista, mas que mantenha a

16:46responsabilidade civil pelo discurso,

16:49por qualquer dano que possa ser cometido

16:51nesse espaço? Hoje, quando se fala em

16:53direitos digitais, a briga não é

16:55exatamente contrária, mas é quase. Até

16:58porque aquela ideia de um ciberespaço

17:00livre que bebia na contracultura dos

17:02anos 70 para pensar no mundo sem

17:04fronteiras, nas pessoas tendo liberdade

17:06de expressão de forma igualitária, nunca

17:09chegou a se concretizar totalmente.

17:11>> O jogo muda completamente quando esse

17:14espaço virtual distribuído passa a ser

17:17cercado por grandes empresas globais. Um

17:20bom exemplo dessa reviravolta é o artigo

17:2219 do marco civil da internet aprovado

17:25em 2014.

17:26>> Ele basicamente fala assim: "Alguém foi

17:28lá e fez um post racista no Facebook. O

17:31Facebook não pode ser considerado

17:32responsável civilmente nem criminalmente

17:34por esse post. Quem tem que ser

17:36responsável é o terceiro. Então você

17:38pode ir à justiça, pedir os dados desse

17:40terceiro para responsabilizar esse

17:42terceiro pelo dano que ele causou com o

17:44seu post. Esse artigo tinha a ver

17:47justamente com aquelas demandas lá do

17:48começo da gente não censurar de primeira

17:51a internet, certo?

17:52>> Exatamente.

17:53>> Então, naquele momento ele fez sentido.

17:55>> Ele fez sentido. Aí o que acontece

17:57depois? Essas empresas começam a cercar

18:00a internet. que eu falo que são

18:01cercamentos digitais mesmo, porque a

18:03gente para de passar o seu tempo em

18:04inúmeros blogs e você começa a passar o

18:06seu tempo em uma rede social onde você

18:08vê a expressão da grande maioria das

18:10pessoas, inclusive veículos de

18:11comunicação, a gente sabe que isso é

18:13verdade. Estão todos plataformizados

18:15hoje e esses conteúdos passam a ser

18:17monetizados. Então, como você pode dizer

18:19que esse intermediário não tem nenhuma

18:22responsabilidade civil sobre o discurso

18:24se ele inclusive tá lucrando sobre esse

18:26discurso muitas vezes, às vezes

18:28diretamente? Então, às vezes tem anúncio

18:31pago que comete danos à sociedade.

18:33>> A gente mergulhou fundo nesse fenômeno

18:35no episódio 148, a infame escola de

18:38golpes feito em parceria com a agência

18:40Lupa

18:40>> e às vezes indiretamente porque ele tá

18:42explorando com o tráfego de dados e com

18:44a economia da tensão ali, com a captura

18:46da atenção das pessoas em relação à

18:48aquele conteúdo.

18:51[música]

18:54>> E aí tem outro ponto interessante nessa

18:56trajetória metafórica da Daniela da

18:58Silva.

18:59é que em 2021, depois de anos e anos

19:01trabalhando no terceiro setor, sabe o

19:03que ela fez? Foi trabalhar na meta. Foi

19:06uma decisão muito complexa. Primeiro foi

19:10um movimento individual e de

19:12planejamento de carreira mesmo.

19:15Sentia que era o momento de mudar e

19:18apareceu essa possibilidade. Existia

19:20essa abertura de um lugar para trabalhar

19:22no WhatsApp como red de políticas

19:25públicas [música]

19:26pro aplicativo no Brasil. Esse é um

19:27cargo bem importante. É basicamente uma

19:30ponte entre a sociedade e a empresa.

19:31[música]

19:32E a Daniela enxergou aí um caminho para

19:35promover mudança.

19:36>> Eu vinha tentando influenciar as regras

19:39sobre como essas plataformas funcionam

19:42do lado de fora. E pode ser um processo

19:45frustrante às vezes porque é muita luta.

19:48E eu me sentia tentando fazer parte de

19:50decisões que foram tomadas 4, c anos

19:53antes e lutando contra os efeitos delas

19:56a posterior, fazendo isso do ponto de

19:58vista da sociedade civil, com muita

20:01sensação de que eu não estava dando meu

20:03melhor naquela posição, naquele momento,

20:05de que eu tinha esgotado, que era o

20:07momento de tentar, acho que usar minha

20:09expertise, mas tentar fazer isso de um

20:11outro ponto de vista.

20:13>> Uhum.

20:15Vou participar [música] ou vou pelo

20:16menos ter um lugar de visão de camarote

20:19para entender como essas decisões estão

20:21sendo tomadas, como essas plataformas

20:23estão sendo governadas agora estando do

20:25lado de dentro de uma bigtec.

20:27>> Você me fala assim, eu vejo quase como

20:30um plano A e plano B, sabe? Você poderia

20:33entrar ali e conseguir mudar de fato

20:35alguma coisa por dentro, certo? você

20:38poderia entrar ali e descobrir como

20:41aquilo funciona e trabalhar como quase

20:44como uma uma espiã, assim, uma gente

20:45dupla lá dentro.

20:47>> Assim, quando eu contava pras pessoas,

20:48vou trabalhar na meta, várias pessoas

20:50falaram: "Não, é ótimo que você vá". Por

20:53isso eu confesso que eu pessoalmente não

20:55tinha muito plano B não. Eu fui com a

20:58cara coragem achando que ia dar certo.

21:01[música]

21:04>> E quando ela chegou para trabalhar,

21:06parecia que de fato ia [música] dar

21:07certo.

21:08>> Eu achava muito interessante uma

21:11tradição que existe no escritório da

21:13meta de nomear salas homenageando

21:16pessoas. Tinha uma sala Paulo Freire,

21:19padre Júlio Lancelote, uma sala Mariele

21:21Franco.

21:22>> Olha só,

21:22>> no escritório que eu trabalhava na

21:23sociedade civil, na fundação, também

21:25tinha uma sala Mariele Franco. Esses

21:27nomes faziam me perguntar como aquele

21:29lugar se entendia, em que lugar [música]

21:31do espectro político essa empresa se

21:33entende. Eu trabalhava num canto do

21:35escritório que tinha uma bandeira trans

21:39pendurada no teto.

21:40>> Caramba, em 2024 isso. E durante um

21:43tempo, em certa medida, as coisas

21:46realmente deram certo.

21:48>> Vivi momentos da minha curta trajetória

21:51dentro da empresa em que eu senti que,

21:53de fato, eu tava conseguindo fazer

21:55mudanças importantes, não mudanças

21:57estruturais, mas que eu senti que eu

21:59podia reduzir danos, prevenir decisões

22:02ruins de serem tomadas, coisas que eu

22:04acho que eu não teria conseguido se eu

22:05tivesse do lado de fora. E eu sei que

22:08existem pessoas que hoje trabalham

22:10dentro dessas empresas que são

22:12essenciais.

22:13ex-colegas, que bom que essas pessoas

22:15estão lá dentro, porque são pessoas que

22:17seguram o caminho dessas empresas para

22:19que elas não se tornem piores ainda no

22:22sentido dos danos que elas trazem à

22:23sociedade. Então, existem pessoas que

22:25fazem esse anteparo de resistência

22:27interno. [música]

22:31Esse para mim é um dos pontos mais

22:33fascinantes do nosso episódio. [música]

22:36Porque ao ouvir a Daniela e a Ester, ao

22:38ler o depoimento de outras pessoas que

22:40trabalharam na meta, inclusive fora do

22:42Brasil, esse paradoxo estava sempre

22:44presente. De um lado, uma empresa global

22:47com infindáveis problemas éticos.

22:50[música]

22:53De outro, aquele poder todo ali meio

22:55[música] que quicando num vácuo à espera

22:57de ser canalizado para um lado ou pro

22:59outro.

23:00as pessoas acreditando que poderiam de

23:02fato direcionar esse poder para um mundo

23:04melhor.

23:06E a [música] empresa dando sinais nada

23:08sutis de que mesmo depois da câmera de

23:10analítica, mesmo depois dos posts

23:12incitando genocídio em Miamar, mesmo

23:14depois da compra de disparos em massa no

23:16WhatsApp durante as eleições

23:17presidenciais, mesmo assim quem

23:20trabalhava ali tinha nas mãos uma

23:22ferramenta que podia mudar o mundo para

23:24melhor.

23:26[música]

23:27A gente fazia milhões de treinamentos, a

23:30gente tinha bilhões de iniciativas.

23:31Então,

23:32>> a publicitária Ester S de volta.

23:34>> Desde ter carro do Facebook na parada

23:36LGBTQ a mais, a gente tinha verbas

23:39destinadas a programas de inclusão em

23:42diversidade. Lá atrás a missão era tipo

23:45bring the world closer together. Se a

23:47gente queria deixar o mundo mais

23:49próximo, isso envolvia também eliminar

23:51barreiras de ódio. Hoje com com redill,

23:54com certeza, se fosse naquela época, a

23:56gente ia ter uma divisão de gente para

23:58fazer mudança no aplicativo, para trazer

24:00marca para colaborar. Então assim, é

24:02como se fosse o túnel de dinheiro do

24:04Silvio Santos com muito, muito dinheiro,

24:07que o dinheiro tá voando ali, você tá

24:08com cola no corpo e você vai pegar o

24:10quanto dinheiro você conseguir, mas ao

24:12mesmo tempo um canhão de visibilidade

24:14que você podia direcionar para onde você

24:16queria. Então, se você era bom de

24:18argumento e todo mundo que é ativista,

24:20todo mundo que quer fazer alguma coisa

24:22se treina para ser, você conseguia

24:24convencer um cara que tinha muito

24:26dinheiro dentro de uma empresa muito

24:29grande de cerveja ou de carro. Você

24:33conseguia convencer uma pessoa dessa a

24:35fazer um projeto voltado para pessoas

24:37trans, voltado para pessoas negras,

24:39voltado a promover contratação? E se na

24:42verdade o resultado dessa ação, ao invés

24:44de ser só quanto a gente vendeu, a gente

24:47também pensar quantos portfólios de

24:49talentos jovens a gente distribuiu,

24:51quantas mulheres a gente ajudou a

24:52empregar, dava para dar essa volta,

24:55sabe, e fazer ativismo dentro da

24:57empresa. Isso era muito incentivado até.

25:00Isso é bem importante que tá falando.

25:01Quer dizer, você fazendo essa ponte

25:04entre as empresas que queriam anunciar e

25:06estavam criando publicidade para colocar

25:08dentro do Facebook, você conseguia de

25:12alguma forma influenciar o conteúdo

25:15dessas campanhas? É isso que você tá me

25:16falando? Para [ __ ] para [ __ ] E

25:18não só a gente aqui do lado da

25:20publicidade, como existia uma sinfonia

25:22de habilidades trabalhando juntas,

25:24porque assim, dentro da meta, você

25:26tinha, eu que tô no time criativo, o

25:28fulano que trabalha no time de

25:30mensuração, ou seja, alguém que vai

25:31ajudar a gente a fazer esse cálculo

25:33novo, porque até então na publicidade

25:34todo mundo só olha para impactos, a

25:37gente vai olhar também para

25:38contratações, aí tem um cientista maluco

25:39que inventa isso. Aí tem um outro

25:41cientista maluco, engenheiro, que vai

25:43ajudar a desenvolver um app ou então uma

25:46criptografia específica para proteger os

25:48dados dessa nova base de dados que você

25:49tá criando. Então a gente tinha uma

25:52orquestra de talentos que permitiam

25:54desenvolver virtualmente quase que

25:56qualquer coisa. Então, as marcas que

25:58mais t dinheiro no mundo com a empresa

26:01que mais tem visibilidade no mundo,

26:02[música] você tá com um caminhão de

26:04dinheiro e um caminhão de visibilidade,

26:06você pode fazer o que você quiser.

26:08[música]

26:12Com esse caminhão de visibilidade, esse

26:14caminhão de dinheiro para você

26:16supostamente fazer o que quiser, com um

26:18salário gordo que permitiu a Ester

26:20comprar uma casa própria em menos de uma

26:21década, vinham as contrapartidas

26:25que eram basicamente viver pra empresa.

26:29na meta. Nunca trabalhei na Amazon e em

26:32outras bigtecs, mas até onde eu sei isso

26:35é bem comum, que é o lance de tipo

26:36assim, olha, você tá comendo caviar e

26:39champanhe todo dia, o mínimo que eu

26:41espero é que você me dê seu sangue, seu

26:43plasma, seu tempo, sua vida. Eles não

26:45pagavam hora extra, mas eles pagavam um

26:47[ __ ] salário. Eles não pagavam horra,

26:49mas eles pagavam ações. Lá pelo menos

26:52era CLT, lá pelo menos você tinha o Red

26:54Bull para te manter acordado. Então

26:55assim, eu arrisco dizer que uma grande

26:58parte da força de trabalho lá de todas

26:59as áreas era sociedade tarja preta

27:03total, indicação de psiquiatra, todo

27:05mundo, ah não, o doutor tal, libera mais

27:07fácil. Você quer uma bemflaxitina? Eu

27:09nem sei como é que chama. Você quer uma

27:11ritalina? Chefe, eu não vou conseguir

27:12trabalhar hoje. Eu falando para mim,

27:15chefe, porque eu tô me adaptando

27:16antidepressivo novo e ele me deixa muito

27:18ruim e aí depois que eu almoço, eu passo

27:20muito mal, então eu tenho que trabalhar

27:21de casa. E ela, sim, é o zoloft, né? É,

27:24é o Zoloft.

27:27Todo mundo trabalhava muito, muito,

27:30muito, muito, longas horas, fim de

27:32semana, tudo mais.

27:38Além do trabalho principal, tinhaura

27:40meio do Grêmio, do projeto paralelo, do

27:43desenvolver o seja você o empreendedor

27:45dentro do Facebook, vai descobrir um

27:47novo Facebook,

27:52porque sabe, você tem acesso aos

27:55melhores profissionais do mundo.

27:58Então, assim, como as possibilidades

28:00eram infinitas, você nunca parava de

28:01trabalhar e a barra era lá em cima.

28:04[música]

28:08A me contou especificamente de quando

28:10ela foi fazer uma apresentação no

28:11festival de canes de publicidade

28:13[música] em 2024.

28:16>> Minha primeira vez em Canis. [ __ ] legal.

28:18Meu Deus do céu. Eu passei três dias sem

28:22banheiro porque eu não conseguia comer

28:24porque não tinha tempo. Eu dormia 2

28:26horas por noite assim. Por quê? Eu tinha

28:29que ensaiar paraa apresentação. Aí você

28:31ensaiava, tinha uma preparadora de palco

28:32que falava coisas tipo assim. Seu inglês

28:35é mais ou menos porque você não é

28:36norte-americana, mas até que tá dando

28:38para te entender, mas se esforça mais.

28:40Você se porta posterioralmente parecendo

28:42uma rapper, então tente parecer mais

28:44educada. Toda essa coisa de você ter que

28:46performar para o coletinho da Faria Lima

28:49o tempo inteiro, quando você não é uma

28:50pessoa coletinha em Faria Lima, vai

28:52ficando difícil. Então assim, ainda

28:54tinham essa questão do [ __ ] e eu tô

28:58aqui e a minha família não tem acesso a

29:00nada disso, então eu vou manter esse

29:01emprego, então eu vou trabalhar cada vez

29:03mais, vou fazer o que precisa.

29:06Em CIS eu tava quebrando pau com

29:08advogado porque eu ia falar de AI, na

29:11União Europeia não podia falar de AI,

29:12cara. Eu tinha 30 e pouquinhos anos saí

29:16do cu do Judas do Brasil, sabe? Então

29:18assim, era um nível de pressão que você

29:20tava falando com a gente de Harvard,

29:22sendo que você não é ninguém e os

29:24clientes esperam tudo, porque você tá

29:26falando de contratos e negociações de

29:28milhões. [música]

29:31Sempre foi uma cultura desafiadora, eles

29:33chamavam, era zero confortável, exceto

29:37financeiramente.

29:38Se você é uma pessoa que acha que tudo

29:40que você faz na sua carreira vale a

29:41pena, porque a sua carreira é uma grande

29:43coisa, putz, parabéns, [música] você

29:46achou o lugar certo. Mas eu só aguentei

29:49medicada e eu sei que muita [música]

29:50gente lá também. E bem dedicada, viu?

29:53>> No final, o Red Bull levado [música]

29:55para casa não é nada, né? Perto que eles

29:57tiram de você, né?

29:59>> Exatamente. Tem uma expressão que o

30:01pessoal usa muito lá que é golden chain,

30:04né?

30:04>> [música]

30:04>> É uma algema de ouro, tal, que te deixa

30:07preso a um [ __ ] benefício, [música] mas

30:11ainda assim é uma algema.

30:14[música]

30:19As Bigtecs têm cultura corporativa

30:21forte. Isso é artificialmente criado

30:24para gerar identificação nas pessoas que

30:27trabalham lá. As pessoas que trabalham

30:28na meta se chamam de metamates. Tem

30:31dizeres espalhados pela parede, né? Move

30:34fast and break things. Então, mov-se

30:37rápido e quebre coisas. Tem um grande

30:40mural para você escrever o que você tá

30:42pensando, um mural físico que emula o

30:46Facebook dos e dos tempos, né? Que no

30:48Facebook antigamente você logava no

30:50Facebook, ele perguntava: "O que você

30:51está pensando que você postava no seu

30:53wall?". Então, tem esse wall físico

30:55dentro da empresa,

30:56>> tem a coisa que as pessoas chamam de

30:58swags, que são os presentes e brindes

31:00com logos da marca. Então eu entrei,

31:02além de ganhar meu computador, eu ganhei

31:04meias do WhatsApp. Tem uma filha que na

31:06época tinha 7 anos. Ela ficou super

31:08feliz com seu par de meias de WhatsApp e

31:11com o fato de que pela primeira vez ela

31:12podia falar para as pessoas onde a mãe

31:13dela trabalhava e as pessoas

31:15reconheciam. Minha mãe trabalha no

31:16WhatsApp.

31:17>> Finalmente deixou o mundo hip.

31:19>> É, [risadas]

31:21eu várias vezes tive uma conversa

31:23engraçada com pessoas que me perguntavam

31:24onde eu trabalhava. Eu falava: "Eu

31:25trabalho no WhatsApp". E as pessoas

31:27diziam: "Não, mas onde você trabalha?

31:29Mas que [limpando a garganta] empresa?"

31:30É o no WhatsApp [risadas] que as pessoas

31:33pensavam

31:35no WhatsApp, entendeu?

31:36>> Eu não é no WhatsApp mesmo.

31:40>> Eu acho que é porque o tanto que é

31:41surpreendente você ver um ser humano que

31:44trabalha nessas empresas. Como é tudo

31:45tão automatizado e mediado por máquina,

31:48depende de um ser humano que olha para

31:49você e fala: "Eu trabalho lá", gera um

31:51bug mental assim que as pessoas não

31:53consegue entender.

31:55>> Mas enfim,

31:55>> tem uma cultura muito forte feita para

31:58que você se sinta parte de um time. É,

32:00aliás, tem um moto, tem um lema que é

32:03meta, metamates e me. Então, primeiro

32:07lugar a meta, em segundo lugar os seus

32:09metamates, em terceiro lugar você.

32:12>> Caramba. Então, a empresa com a cultura

32:13corporativa forte,

32:16>> tem um pezinho na seita, assim, né?

32:17>> É assim, importante dizer que tudo tem

32:19rachaduras, né? Rchaduras, isso mudou

32:23muito ao longo dos anos.

32:25>> No começo de 2026, a meta tinha quase

32:2780.000 empregados. Então, é natural que

32:30as rachaduras venham de todos os lados.

32:33Mas uma das grandes e das mais recentes

32:35veio em janeiro de 2025, quando o

32:38fundador da empresa Mark Zuckerberg

32:40publicou um vídeo de pouco mais de 5

32:42minutos que foi um terremoto no mundo

32:45digital. [música]

32:52>> [música]

32:52>> O Zuckerberg apareceu com um visual

32:54novo,

32:56o que no fim soou com uma personificação

32:57da mensagem que ele estava passando.

33:00Cabelo mais comprido e ondulado, relógio

33:02gigante no pulso, camiseta preta

33:04oversiza de no estilo gagsta,

33:06correntinha de ouro no pescoço e para

33:09além da roupa tinha um físico.

33:12[música]

33:13O se ner de magrecela claramente estava

33:15malhando.

33:18No vídeo dá para perceber que ele tá

33:19lendo o texto de um teleprompter com ar

33:22robótico que lhe é característico.

33:28[música] Ele começa dizendo que é hora

33:30de voltar para as raízes originais do

33:32Facebook e do Instagram que estava

33:34ancorada na liberdade de expressão.

33:42[música]

33:42Aí ele fala que nos últimos anos tem

33:44acontecido um debate muito intenso sobre

33:46os potenciais danos causados pelo

33:48conteúdo das redes e que governos e a

33:50imprensa tem pressionado por mais e mais

33:53[música] censura.

33:57Ele fala que, claro, tem umas paradas

33:58sinistras por aí, tipo drogas,

34:00terrorismo e exploração infantil,

34:03[música]

34:06e que eles levam essas coisas a sério e

34:07que, por isso criaram todo um sistema

34:09complexo de moderação. [música]

34:15O problema é que esse sistema é falho

34:19e como o Facebook é gigantesco, se eles

34:21falharem em 1%, isso vai causar a

34:24censura de milhões de pessoas. E eles

34:27chegaram a um ponto em que o sistema tem

34:29muitos erros

34:31e muita censura.

34:34>> [música]

34:35>> Para mim, esse é um dos pontos mais

34:36complicados do vídeo e da filosofia da

34:38meta,

34:40porque o Zuckerberg tá basicamente

34:41pegando uma balança com dois pratos.

34:43[música]

34:46Em um, ele tá colocando drogas,

34:48terrorismo, abuso infantil, homofobia,

34:50transfobia, misogenia e tudo de ruim que

34:53flui nas mídias sociais.

34:57No outro, ele tá colocando a liberdade

34:58de expressão de 1% da comunidade que tá

35:01correndo o risco de ter o seu conteúdo

35:03injustamente removido.

35:07De um lado, existe a ameaça real à vida

35:09de pessoas. Do outro tem pessoas para

35:12qual o maior risco é que um post seja

35:14derrubado. E ele tá falando basicamente

35:17que é mais importante olhar para esse

35:191%.

35:21Mas isso não é tudo.

35:25Ele vai adiante argumentando que as

35:27eleições que reconduziram o Trump e a

35:29Casa Branca foram um ponto de virada

35:31cultural para eles voltarem a priorizar

35:34o discurso. Então eles vão simplificar

35:36políticas e restaurar a livre expressão

35:38nas plataformas da meta. [música]

35:43O primeiro passo para isso parece saído

35:45das páginas de uma distopia do Jorge

35:47Warwell.

35:49>> [música]

35:52>> O Mark Zurkberg disse que para aumentar

35:54a liberdade de expressão, ele ia

35:56simplesmente se livrar dos checadores de

35:57fato num processo semelhante ao que o

36:00Elon Musk fez no X, o antigo Twitter. O

36:03segundo passo,

36:06simplificar a coisa toda livrando as

36:07plataformas de restrições em tópicos

36:09como imigração em gênero, que, segundo

36:11Zuckerberg, estavam em descompasso com o

36:14discurso geral.

36:19O CEO da meta garantiu que isso não quer

36:21dizer que virou bagunça. Claro que não.

36:25Segundo ele, as mudanças permitiriam que

36:27eles deixassem de olhar coisas menos

36:28importantes para se concentrarem no que

36:31é realmente crime. Aqui vale um

36:34parênteses para dizer que as leis

36:35americanas são bem mais frouxas do que

36:37as nossas nesse sentido. Racismo, por

36:40exemplo, não é crime por lá.

36:44>> [música]

36:44>> De qualquer forma, o Mark Zuckerberg

36:46explicou que os filtros passariam a ser

36:48mais porosos, o que diminuiria o que ele

36:51chama de censura.

36:53também faria eles pegarem muito menos do

36:55que o Zuckerberg chama de coisas ruins,

36:59mas segundo ele é uma troca vantajosa.

37:03[música]

37:06Afinal vai ter menos gente tendo seus

37:08posts derrubados injustamente. [música]

37:13O quarto ponto, segundo Mark Zuckerberg,

37:15seria trazer de volta o conteúdo cívico,

37:18que é basicamente voltar atrás numa

37:20determinação anterior que era de mostrar

37:22menos política e mais conteúdo de

37:24pessoas conhecidas.

37:27A nova mudança teria a ver com o

37:29alvorecer de uma nova era, que

37:32basicamente é a volta do Trump à Casa

37:34Branca.

37:36Quando a coisa aparecia além de surreal,

37:40ele explicou que o que sobrasse da

37:42equipe quisela pela veracidade do

37:43conteúdo nas plataformas seria realocado

37:46da Califórnia pro Texas, que ali haveria

37:49menos preocupações quanto ao

37:51enviezamento do time.

37:55[música] E aí chega, né?

37:59Não, não chega não.

38:08[música]

38:10No fim do vídeo, o fundador do Facebook,

38:12a empresa que preza pela diversidade que

38:15asia a bandeira trans no escritório da

38:16FH Lima, disse que ia trabalhar com o

38:19recém-eleito governo Trump para

38:21pressionar governos de outros países que

38:23estão indo contra empresas americanas e

38:26promovendo censura.

38:28Ele citou especialmente leis europeias e

38:30países da América Latina que teriam

38:32tribunais secretos silenciosamente

38:35obrigando empresas a removerem conteúdo.

38:38[música]

38:40Aí ele disse que tá ansioso por esse

38:42novo capítulo

38:44e termina de um jeito levemente

38:46sociopata.

38:47Fiquem bem

38:49[música] e ainda tem muita coisa por

38:51vir.

38:55>> [música]

39:02>> Para Daniela da Silva, [música] que

39:03estava no Facebook havia um ano, esse

39:05vídeo destruiu qualquer possibilidade de

39:07otimismo dentro da empresa. [música]

39:11Para você ter uma ideia, quando eu ia

39:12fazer engajamentos com o governo

39:14brasileiro, por exemplo, e falar de

39:15WhatsApp e falar de tudo que a empresa

39:17vinha fazendo para transformar o

39:19WhatsApp numa plataforma de comunicação

39:20mais segura, mais íntegra, [música] né,

39:22onde o debate acontece de maneira mais

39:24íntegra, programas de checagem de

39:26notícia, apoio a checagem de notícia,

39:28era um dos pontos que eu trazia como

39:30relevantes para que isso acontecesse.

39:32>> Uhum.

39:33>> Então, aquele dia, o Mark tava falando,

39:34isso aqui a gente não vai fazer mais.

39:35Esses programas de checagem de notícia

39:37tendem a ser muito enviezados e eles

39:39desafiam a nossa liberdade de expressão.

39:42>> E assim, o vídeo foi talvez o mais

39:43chocante, mas a rápida transmutação do

39:46CEO da meta num poodle humano

39:48anabolizado tentando copular com a perna

39:50do Donald Trump produziu uma sequência

39:52de pérolas. No podcast do

39:55semiarrependido trampista Joe Rogan, por

39:57exemplo, ele disse que abre aspas,

40:03ter uma cultura que celebra um pouco

40:05mais a cultura da agressão

40:08tem seus méritos e que um pouco mais de

40:11energia masculina não faria mal às

40:13grandes corporações.

40:19estagnada do Marcos Luckberg

40:21rumachosfera e ao movimento Maga. A

40:23sigla do Faça América Grande de novo, a

40:25resistente base de apoio do Donald Trump

40:28deixa uma grande pergunta no ar. Por

40:31quê? Precisava fazer essa agnada, sabe?

40:34Eu fico perguntando o que que tá por

40:35trás disso, assim, sabe? Ou era talvez

40:38algo que sempre fez sentido para eles e

40:41eles só abraçaram mais publicamente

40:44quando viram o cavalo do Trump passar

40:46selado assim, sabe? Como é que você vê

40:48essa guinada no geral assim?

40:50>> Eu me perguntei a mesma coisa que você.

40:52Precisava disso? Precisava tirar

40:55absorventes femininos de dentro dos

40:57banheiros masculinos no dia seguinte da

40:59publicação desse vídeo em alguns países.

41:01Precisava dessa gnada retórica?

41:03>> Tem até uma questão que a gente pode se

41:05questionar do ponto de vista estratégico

41:08comercial, né? Porque também se afasta

41:10um monte de gente. A gente não sabe

41:12quanto tempo que o Trump vai continuar

41:14ali. O cara é o [ __ ] do maluco. A gente

41:15não sabe o que que ele vai fazer. Se ele

41:17quiser censurar o o Facebook daqui a

41:20dois meses, é capaz que ele faça, sabe?

41:22Um cara totalmente instável, né? Então

41:24tem essa outra questão assim, sabe? Que

41:25até comercialmente é estranho, né?

41:27>> Exatamente. Me perguntou a mesma coisa.

41:30Eu penso muito no contexto

41:31internacional.

41:33>> Antes de falar desse contexto

41:34internacional e regulatório, é

41:36importante a gente dar um passinho atrás

41:38para entender o que o Facebook era na

41:40origem. que sim, em algum momento ele

41:43também se revestiu do verniz Nel Rip que

41:45maquiou tantas empresas do Vale do

41:47Celício, mas isso não necessariamente

41:49teve a ver com algum desejo do Mark

41:52Zuckerberg.

41:53>> Acho que houve em algum momento uma

41:55missão organizacional de conectar

41:57pessoas e acho que em algum momento isso

42:00sim se tornou um um lema da empresa, mas

42:05só a gente não pode esquecer que a

42:06origem é muito menos gloriosa do que

42:08isso, né? O protótipo do Facebook se

42:10chamava Face Mesh. Era uma rede fechada,

42:14criada por um punhado de nerds que

42:15moravam no dormitório da Universidade de

42:17Harvard e queriam rankear todas as

42:19mulheres do campus por ordem de

42:21atratividade.

42:24Vamos combinar que essa não é a mais

42:26nobre das missões, né? Era uma

42:27ferramenta de ranqueamento de mulheres,

42:31basicamente.

42:33[música]

42:35E aí eu acho que as coisas foram se

42:37sucedendo junto com a escala daquilo que

42:39foi criado, sabe?

42:42>> [música]

42:43>> Tanto do ponto de vista de negócio,

42:46assim, uma percepção, isso aqui é uma

42:47coisa que pode dar muito e muito, muito

42:50dinheiro, como de fato deu, quanto do

42:52ponto de vista político.

42:55[música]

42:59Isso aqui é uma coisa que tem muito

43:01poder, muito poder de transformação para

43:04diferentes direções. Eu não acho que

43:06essa realização tava na gênese do

43:08produto. [música] E eu acho que até um

43:11pouco outros lemas organizacionais ali

43:14da meta e do Facebook trazem isso, né?

43:16Essa coisa que do Move Fast Breakings.

43:20>> Pois é, além da bandeira trans, do moral

43:23físico, onde os metamates podem postar

43:25como estão se sentindo, uma constante no

43:28escritório da meta era o grande lema de

43:30trabalho da empresa. Move fast and

43:33breakings, algo como se mexa rápido e

43:37quebre [música] coisas.

43:40Tipo, desenvolva,

43:42acerte, erre, quebra o [música] que

43:44tiver que ter quebrado, depois a gente

43:46conserta. Assim,

43:48>> essa é a grande máxima global da meta. E

43:51fazendo, [música]

43:52quebrando tudo. Se der ruim, a gente

43:54resolve.

43:57>> [música]

43:58>> Esse jeito de pensar fica evidente na

44:00leitura de um livro chamado Careless

44:02People, algo como gente que não se

44:04importa numa livre tradução. O

44:06bestseller publicado em 2025 foi escrito

44:09por uma ex-executivona da meta, Sara

44:12Miller, que tinha um cargo parecido com

44:14o da Daniela da Silva. Só que em vez de

44:16fazer a ponte com o governo local, ela

44:18era uma espécie de embaixadora

44:20planetária da empresa.

44:23[música]

44:27E a gente sabe bem como o Facebook de

44:29fato se mexeu rápido e quebrou coisas da

44:31porta para fora. O ódio religioso em

44:33Myanmar, que foi potencializado por

44:35algoritmos e culminou na morte de mais

44:37de 20.000 1000 pessoas talvez seja o

44:39maior exemplo disso. A empresa se moveu

44:42rápido para colocar uma ferramenta em

44:44ação, algoritmos, que tinham a missão de

44:47manter as pessoas mais tempo na

44:49plataforma. Os algoritmos aprenderam que

44:51o melhor jeito de manter as pessoas

44:53engajadas era mostrar coisas que

44:55deixassem elas raivosas, ultrajadas e

44:58nojadas. Com isso, eles acabaram

45:01ajudando a quebrar algumas coisas no

45:02caminho, no caso, alguns milhares de

45:05vidas humanas.

45:07E isso, por mais terrível que seja, não

45:10é exatamente uma novidade. Mas no livro

45:13Caroless People é interessante que a

45:15Sara descreve como as decisões são

45:16feitas dentro da empresa. Ela conta, por

45:19exemplo, que em dado momento eles

45:21estavam planejando uma viagem paraa

45:23Coreia do Sul, só que tinha um

45:24probleminha, o mandado de prisão contra

45:27o Mark Zuckerberg por uma questão

45:29relacionada a uma lei do país que

45:31regulamenta jogos online. Mas o motivo

45:33não importa muito. O que importa é que o

45:36Facebook estava interessado em

45:37restabelecer pontes com o governo

45:39sul-coreano. E aí a forma mais rápida

45:42que eles encontraram de fazer isso foi

45:44basicamente deixar que algum auto

45:46executivo da empresa viajasse ao país

45:48para ser preso. Num capítulo intitulado

45:51Síndrome de Estoco, a autora conta que

45:54não apenas foi ela a escolhida para ir

45:56em cana do outro lado do mundo, como ela

45:58estava disposta a se sacrificar pelo bem

46:00do Facebook. O que não chegou a

46:02acontecer, provavelmente porque o marido

46:04dela lembrou [música] de um pequeno

46:06detalhe. Eles tinham acabado de ter um

46:08filho que na época tinha 7 meses e ainda

46:11mamava [música] no peito.

46:19Isso tudo de forma um tanto sinuosa,

46:21leva a gente de volta pro vídeo do Mark

46:23Zuckerberg pra ideia de retorno às

46:26origens ou pros problemas dessa ideia,

46:29porque nesse processo de se mover rápido

46:31e quebrar coisas, o Facebook, depois a

46:33meta foi mudando e se complexificando.

46:37Não faz mais sentido a gente pensar:

46:39"Ah, gente, bora deixar os nerds de

46:41Harvard nota pras coleguinhas, vai." Não

46:43apenas a empresa foi se complexificando

46:45do ponto de vista político, como ela foi

46:47reconhecendo o seu poder político. E

46:50quem tem acompanhado os movimentos das

46:52lideranças das bigtecs, não só da meta

46:55nos últimos meses, sabe que lhe caiu

46:57muito bem esse papel. Tem umação das

47:01empresas com o mundo da política. Olha

47:02tudo que a gente tá vendo de files

47:05agora. tem diversos CEOs de Vigitec

47:07envolvidos nos Epstein Fels. Então, os

47:09homens de poder eles se encontram, eles

47:11convergem, fazem parte do mesmo círculo.

47:14Falacioso um discurso de falar: "A gente

47:16vai ser o Facebook lá de 2004 agora e a

47:20gente vai parar com essa coisa de

47:21moderação de conteúdo." É uma é uma

47:22falácia, isso não é possível.

47:24>> E assim, essa ideia de voltar ao

47:26passado, de recriar o mundo que era mais

47:28divertido, porque homens brancos

47:29poderosos podiam mais, é sim um belo

47:32ponto de encontro entre os techros. e os

47:35extremistas de direita. Poucas coisas

47:37representam tão bem a essência do

47:39trampismo quanto um punhado de jovens

47:41riquinhos ranqueando mulheres de acordo

47:44com a aparência.

47:45>> A gente estava falando de Mark

47:46Zuckerberg, você fala de Elon Musk, você

47:48fala de Peter Theel e tem a questão da

47:50luta, tem a questão do esporte, tem a

47:52questão dos carros, tem a questão deles

47:54falarem publicamente. Mark Zuckerberg

47:56falou publicamente, falta energia

47:58masculina na meta hoje, falta energia

48:00masculina nas empresas, né, no mundo dos

48:02negócios.

48:04Acredito que isso faz parte desse

48:06movimento de retorno de uma consequência

48:09da expansão delicada que a gente

48:11conseguiu em anos anteriores, com a

48:14abertura das redes, com a possibilidade

48:16das pessoas se comunicarem de maneira

48:17mais livremente. E agora os donos do

48:19negócio tão impondo ali as suas regras e

48:22suas vontades, né? Mas como eu disse lá

48:25atrás, ainda que a broderagem exista,

48:28não parece ser ela a real motivação. A

48:31real motivação parece ter muito mais a

48:33ver com o fato de que as pessoas estão

48:35percebendo o poder que essas empresas

48:36têm, estão percebendo como elas podem

48:38ser nocivas. A sociedade e a saúde tem

48:41cobrado governantes por políticas de

48:43regulamentação e controle. E esses

48:45governantes, ainda que de forma lenta e

48:47desconexa, terecido

48:50respostas em geral na forma de leis. Se

48:53você pegar o vídeo começo, meio e fim e

48:55você [limpando a garganta] entender o

48:56que ele tá dizendo, ele fala exatamente

48:58isso. Ele fala: "Eu vou tomar essa

49:00providência e isso é uma demanda do

49:03campo político republicano há muito

49:06tempo. Vou mudar as plataformas para

49:08essa direção e a gente vai impedir que o

49:11contexto regulatório que tá se armando

49:13aí fora nos atinja." Então eu acho que

49:16ele tá olhando para lugares, por

49:18exemplo, o Brasil.

49:19>> E aqui de novo tem uma sinergia, né? uma

49:22confluência de interesses, porque de um

49:25lado os Tech Brows não querem

49:26regulamentação, porque isso favorece o

49:29império deles. Enquanto budistas e

49:31muçulmanos se engalfinham numa guerra

49:33digital que ajudou a criar um genocídio,

49:35eles ganham dinheiro vendendo anúncio de

49:36sapato ou panela antiaderente. E ao

49:39mesmo tempo, esse sistema desregulado

49:41permite que o fluxo de desinformação que

49:43mantém a popularidade dos extremistas de

49:45direita siga irrigando cérebros ansiosos

49:48e distraídos sem qualquer anteparo

49:50jurídico. as empresas estão respondendo

49:53ao contexto regulatório, elas não tão

49:55passando por uma crise de consciência,

49:57não, realmente precisamos cuidar melhor

50:00das crianças e adolescentes, assim, não

50:01é isso que tá acontecendo. O julgamento

50:04que aconteceu sobre as tecnologias como

50:06eh as da meta, né, do Instagram e do

50:09YouTube serem viciantes nos Estados

50:11Unidos por conta do processo iniciado

50:13por uma jovem de 20 anos que diz que

50:15começou a usar as redes sociais aos seis

50:17e justifica vários dos seus problemas.

50:20né, de saúde mental, por conta do uso

50:23das redes. A forma como as empresas se

50:26defendem é muitas vezes bastante cínica,

50:29inclusive. Então, essas empresas vão lá,

50:31sentam no banco dos réus para dizerem

50:33coisas como o que faz os nossos produtos

50:36serem muito utilizados é que eles

50:37entregam muito valor pro usuário, não é

50:39que eles são viciantes.

50:41Quando você tem uma série de documentos

50:43internos vindo à tona mostrando o

50:46contrário, mostrando que a própria

50:49empresa tem a noção dos riscos, de que

50:52no horizonte de riscos de você tá

50:54desenvolvendo tecnologias que estão

50:56sendo criadas para maximizar o uso o

50:59máximo possível, é claro que nesse

51:01horizonte o vício é um risco que existe.

51:05>> Em março de 2026, um juro de Los Angeles

51:08reconheceu esse risco, pelo menos em

51:10parte. A responsável pelo processo foi a

51:13jovem de 20 anos, citada pela Daniela,

51:16identificada como Kiley. Snapchat e

51:19TikTok fizeram acordos com a justiça,

51:21enquanto a Meta e a Alphabet, dona do

51:23Google, foram condenados a pagar

51:25indenizações que somadas chegam a 6

51:28milhões de dólares. O valor representa

51:31menos de 0,004%

51:35dos quase 20 bilhões de dólares que as

51:38duas empresas lucraram no ano passado.

51:43>> Eu acho que ninguém com o nível de

51:44dinheiro, poder econômico, influência

51:46mundial no nível que ele tem, vira essa

51:49casaca se não quiser.

51:51>> A publicitária est

51:52>> porque não precisava, certo? Ele pode

51:55comprar um país para ele se ele quiser,

51:56certo,

51:57>> Tomás, eu que não sou ninguém que sair

51:59do Grajaú. Trabalhei se anos para eles e

52:01já consegui falar que se lasque vocês.

52:03Quem dirá o cara que tem dinheiro para

52:05comprar países, né? Tipo assim,

52:08>> sim,

52:08>> não tem porquê. Se você não quiser, não

52:10tem porquê.

52:12[música]

52:18[música]

52:19>> Essa coisa da oligarquia comandada por

52:21Tech Brow é o maior perigo que tem,

52:26sabe? Tipo, na verdade, ele é o perigo,

52:28não é o Trump, ele é também o perigo.

52:30Ele é tão perigo quanto.

52:33[música]

52:36Se a gente for pensar bem, o vídeo do

52:39Mark Zuckerberg simbolicamente equivale

52:41à estatueta de ouro que o CEO da Apple

52:43levou de presente ao dono do Trump.

52:46É um aceno público, mais um item da

52:48bajulação explícita do bejanel que o

52:51republicano tanto ama. [música]

52:53é também a ponta mais visível de um

52:55grande emaranhado de ações que as

52:57BigTechs têm feito para frear processos

53:00de regulamentação em todo o planeta.

53:04[música]

53:08Em uma série de reportagens feita por um

53:10consórcio de entidades jornalísticas de

53:11vários países e liderado pela agência

53:13pública, jornalistas conseguiram

53:15registrar quase 3.000 ações de

53:17influência das bigtecs no campo político

53:20de todo o mundo entre 2012 e 2025.

53:24O Brasil tá no topo da lista desse

53:25levantamento com quase 2000 dessas

53:28ações,

53:30que são reuniões, visitas de cortesia,

53:32presentes, treinamentos, participações

53:34em eventos e assim por diante.

53:38Uma das reportagens da série A mão

53:40invisível das BigTechs mostrou também

53:42que o governo americano atrelou à

53:44negociação das tarifas sobre importações

53:47à estratégia cachorro louco do Trump na

53:49economia, ao afrouxamento de leis

53:51relativas a empresas de tecnologia.

53:54Pelo menos 10 países da América Latina e

53:56da Ásia assinaram acordos com o governo

53:58americano para facilitar a coleta de

54:00dados por empresas como Amazon, Google e

54:03Meta. A Indonésia, por exemplo,

54:06conseguiu reduzir as tarifas impostas

54:07pelo governo Trump de 32 para 19%.

54:12como provável contrapartida, permitiu

54:14que os dados pessoais dos seus cidadãos

54:17fossem transferidos para os Estados

54:18Unidos, o que vai contra a legislação do

54:22país. [música]

54:28E aí na outra ponta tem as pessoas.

54:32Centenas de milhares de pecinhas de

54:34carne e osso disputando poder em maior

54:37ou menor escala tentando fazer o

54:38leviatando os dados navegar um pouquinho

54:40mais no rumo dos seus interesses

54:42próprios, sejam eles quais forem.

54:46[música]

54:49E como Marcos Zuckerberg disse no vídeo,

54:52o segundo mandato do Trump simbolizou

54:54uma nova era para essas pessoas.

54:59Cara, sempre teve essa ideia de que,

55:03óbvio que o Facebook não é uma ONG, a

55:07gente tá trabalhando num lugar em que

55:09grana é o mantra, a gente tá fazendo um

55:12projeto de equidade racial, mas eu

55:16também vou reportar quantas compras de

55:19carro essa campanha trouxe. Então assim,

55:21foi sempre uma empresa muito liberal,

55:23dava espaço para nós esquerdinhas, mas

55:26ia fazer workshop com o Nicolas Ferreira

55:28falando de bom uso de WhatsApp e que se

55:31[ __ ] né?

55:32>> E ao mesmo tempo, ainda antes do segundo

55:34mandato do Trump, os coleguinhas da rede

55:36vizinha tavam em situação um tanto pior.

55:39>> Antes também do Trump ser eleito, uma

55:41coisa que aconteceu foi o Elon Musk

55:43comprar o Twitter. Eu lembro que durante

55:46um bom tempo a conversa no corredor e no

55:48workplace e tudo mais era: "Olha só como

55:51a gente deu sorte de trabalhar aqui.

55:53Olha como o pessoal da Microsoft deu

55:55sorte de trabalhar lá, o pessoal do

55:56Google trabalha lá e não no Twitter,

55:58porque o Twitter sim é o inferno de

56:02Dante, todo mundo trabalhando até dormir

56:05embaixo da mesa, é meio abusivo, é

56:08pornografia infantil e que se poda."

56:11Então assim, a gente sempre olhava

56:12horrorizado falando: "Nossa, olha que

56:15absurdo, olha como os cara deixa chegar

56:17lá. Ainda bem que não é aqui."

56:18>> Mas aí

56:19>> quando virou e a gente começou a ver

56:21assim, todo dia saiu uma notícia, todo

56:24dia tinha um post, todo dia o Zuckerberg

56:26ficava mais machoin, te amo, Trump,

56:30obrigada Trump, desculpa, Trump. Até que

56:33para mim o que foi a gota d'água foi, eu

56:35lembro que era um domingo, eu tava acho

56:37que na academia e aí eu vi o Zuckerberg

56:40e no podcast do John Rogan, que eu

56:43considero bem zoado, e falou de que

56:46agora as empresas precisavam de mais

56:48energia masculina. E eu lembro que eu só

56:50catei esse trecho assim e falei: "Nossa

56:54senhora, tipo, meu Deus, é para lá que

56:57ele vai". E aí, na condição de punk

57:00esquerdinha molotov que eu sou, eu já

57:03catastrofizei e falei: "Essa [ __ ] vai

57:06virar o hitlerismo i pro Max, eu não vou

57:10ficar para ver. Já tinha acontecido

57:12vários layoffs.

57:13>> Layoffs em bom português são demissões

57:16de massa.

57:17>> Os layoffs eu já percebia mais gente de

57:19grupos minorizados saindo. Eu já percebi

57:21mulher que voltava da licença à

57:23maternidade, era demitida. Existiam

57:25sinais, mas de novo, o almoço grátis era

57:28muito gostoso, a business class era

57:30muito gostoso, os projetos ainda eram

57:32muito bonitos, só que aí, se eu não me

57:34engano, foi logo depois do podcast ou

57:36muito pouco após que rodou um e-mail em

57:39nível bonito e corporativo, tá? Mas o

57:41que queria dizer no e-mail era pau vai

57:43tourar mesmo, layoffa

57:46que a gente precisar de dinheiro, a

57:47gente vai fazer. Boa sorte para vocês,

57:49trabalhem mais. Esse papinho aí de ficar

57:52liberando dinheiro para negocinho de

57:54inclusão não dá dinheiro. É WKE, a gente

57:57não vai mais fazer. Porque o Trump botou

57:59umas condições meio assim, tipo, se você

58:00quiser manter a empresa aberta, tá

58:02proibido fazer coisa bo tá proibido ter

58:05comitê de diversidade ananã. Aíes

58:07fizeram tudo. Por exemplo, dentro do

58:09time criativo que eu trabalhava tinha

58:11uma coligação, digamos assim, que era de

58:16combate à desigualdade racial. Esse

58:19núcleo foi extinto e a pessoa que

58:22liderava ele demitida, que é uma mulher

58:24negra assim inteligentre,

58:26uma americana que me ensinou assim

58:28muito, mas muito, mas muito do que eu

58:30sei. E aí a gente ia vendo essas coisas,

58:32nesse meil eles falavam, né, acabou

58:34essas iniciativas, essas Érica Hilton aí

58:36que vocês tm contratada, não quero mais

58:38porque a gente quer mais energia

58:39masculina também. Vamos tirar as placas

58:42e as bandeira.

58:44E aí, ao mesmo tempo, dentro do

58:46marketing, dentro das empresas que a

58:48gente trabalha, não é só que o Trump lá

58:50na Casa Branca falou que não pode mais

58:52ser walk. Os marqueteiros, os

58:55aprovadores de campanha, essa galera

58:57também já não tava mais com cheque para

59:00fazer campanhas de diversidade. Nossa,

59:02se eu botar a pessoa trans dirigindo meu

59:04carro, os acionistas vão fazer um abaixo

59:07assinado e eu tô na roça, né? Então isso

59:10acabou.

59:14Quando eu escuto a Ester falar, eu não

59:16consigo deixar de pensar no jeito Trump

59:18de fazer política

59:24no departamento de eficiência do Elon

59:26Musk cortando coisas que eles nem sabiam

59:28como funcionava.

59:34Tão parecido com a forma como o Donald

59:36Trump faz política, né? Parece um cara

59:38com uma marreta numa loja de cristais. É

59:40uma coisa autocrática. E assim, [música]

59:42você quer uma coisa mais parecida com

59:43alguém com uma marreta numa loja de

59:45cristais ou com o Donald Trump do que o

59:47Move Fash and Break Things? Tipo,

59:48[música] tinha um cartolado escrito MF

59:51ainda na ainda no escritório da Meta em

59:53São Paulo. Isso segue escrito [música]

59:54na parente.

59:58Quer dizer, tudo isso me faz pensar que

1:00:01no fim não é uma guinada, não é uma

1:00:05mudança de pensamento dele, é um uma

1:00:09saída do armário, vamos dizer [música]

1:00:10assim, talvez.

1:00:11>> Eu acho que é um ciclo, acho que é um

1:00:13movimento circular. Eu fico um pouco com

1:00:15essa sensação.

1:00:16>> Hum. ele descreve dessa maneira, ele

1:00:18fala sobre volta às raízes, volta ao

1:00:20entendimento original do que era para

1:00:22ser [música] o Facebook. E eu acho que é

1:00:24um movimento circular depois de ter

1:00:25passado por um período de

1:00:27conscientização das responsabilidades

1:00:30que tavam intrinsecamente ligadas a esse

1:00:33poder e ter feito um movimento de se

1:00:35demonstrar responsivo à sociedade por

1:00:39conta disso. E agora acho que tá

1:00:41fechando o ciclo no sentido de que a

1:00:44gente tá vivendo uma tendência global de

1:00:46homens de poder quererem ter menos e

1:00:49responscoility sobre seus atos.

1:00:52>> Você acha que é circular ou que é

1:00:54cíclico? Porque assim, a gente tá no Z

1:00:56Geist, que é a guignada conservadora à

1:01:00direita, né?

1:01:01>> Sim.

1:01:01>> E a gente viu alguma coisa diferente na

1:01:03época Obama, Lula, né? Todos os países

1:01:05da América Latina guiando pr pra

1:01:07esquerda, primavera árabe, enfim. Você

1:01:09acha que se o mundo for de volta para

1:01:12esse nessa coisa pendular que a gente tá

1:01:15vendo que acontece cada vez de forma

1:01:16mais rápida na política, até por causa

1:01:18das redes sociais, né?

1:01:19>> Exato.

1:01:19>> Você acha que se for voltar para esse

1:01:21lugar, ele muda de novo de camisa?

1:01:23>> Eu não sei se ele muda de novo de

1:01:25camisa, mas eu acho que tem uma reação

1:01:28muito forte nascendo e emergindo a como

1:01:31as BigTech, como as empresas têm se

1:01:33apresentado, sabe?

1:01:34>> Uhum. Eu acho que assim, falando em

1:01:36movimento pendular, falando acho que se

1:01:38eu se eu não acreditasse que é cíclico e

1:01:40não circular fechado e e acabou, eu não

1:01:44estaria fazendo o trabalho que eu quero

1:01:45fazer a partir de agora, que é trabalhar

1:01:48do lado de fora para que essas empresas

1:01:49sejam responsabilizadas [música]

1:01:51pelos danos que elas causam à sociedade.

1:01:59Em abril de 2026, alguns meses depois de

1:02:02se demitir a meta, a Daniela da Silva se

1:02:04tornou uma das fundadoras de uma

1:02:06entidade chamada Control Z.

1:02:08>> A Control Z é uma organização que surgiu

1:02:10para fazer enfrentamento aberto e

1:02:12coletivo às BigTechs.

1:02:14>> Essa é a jornalista, diretora de

1:02:16projetos e cofundadora da Control Z,

1:02:18Tatiana Dias. Você talvez se lembre da

1:02:21Tatiana Dias, de quando ela era editora

1:02:23do Intercept e trouxe pra gente a

1:02:25história da produtora Brasil paralelo no

1:02:27episódio 128 reaças sob demanda.

1:02:31>> A gente defende que são as pessoas que

1:02:33podem provocar as mudanças necessárias.

1:02:35conversa não pode ser uma conversa para

1:02:38advogado, especialista em privacidade,

1:02:41parlamentar, lobista de empresa que tá

1:02:44caminhando pelos corredores do

1:02:46Congresso. Essa é uma conversa para pais

1:02:47e mães, é uma conversa para

1:02:48profissionais de saúde, é uma conversa

1:02:51para criadores de conteúdo, é uma

1:02:53conversa para artistas, uma conversa

1:02:54para professores. Para isso, a gente vai

1:02:57atuar com projetos para efetivamente

1:02:59incluir as pessoas nessa conversa. Essas

1:03:01estratégias incluem jornalismo

1:03:03investigativo, né? A gente vai lançar

1:03:05uma plataforma para o West Blower,

1:03:07também inclui litígio estratégico focado

1:03:09em pessoas comuns. Então a gente lançou

1:03:12também o ADD, o que é o nosso arquivo de

1:03:15danos digitais, né, um documento

1:03:17coletivo pra gente construir evidência

1:03:19sobre danos provocados pro Bigtex. E a

1:03:22nossa última frente de atuação é

1:03:23mobilização, né, com estratégias de

1:03:26contrarrativas nas bigtecs e articulação

1:03:28de público chave para conectar a

1:03:30discussão sobre direitos digitais ao dia

1:03:32a dia das pessoas comuns.

1:03:34>> A gente precisa ampliar

1:03:36significativamente a ressonância desse

1:03:39debate sobre como funcionam as

1:03:42plataformas digitais onde a gente tem

1:03:44vivido boa parte das nossas vidas, né?

1:03:52A Ester Sá também se demitiu da meta

1:03:55logo depois da circulação do famigerado

1:03:57vídeo do Mark Zuckerberg.

1:04:01E o BAC foi tão grande que ela resolveu

1:04:03abandonar também a publicidade e a

1:04:05[música] tecnologia.

1:04:07Eu

1:04:09vou começar a estudar técnica de

1:04:11enfermagem esse ano, porque eu quero

1:04:14muito voltar paraa ciência que eu gosto,

1:04:16fazer da minha vida alguma coisa

1:04:18positiva. Eu já não tenho mais medo de

1:04:20morrer de fome porque eu fiz uma

1:04:22graninha no Facebook, já não tenho mais

1:04:24nada, né? Já já investi tudo, consegui

1:04:27ter onde cair morta e nem que eu tenha

1:04:29que viver de arroz, feijão e chepa, mas

1:04:30eu vim da pobreza, então não tenho medo

1:04:32nenhum de voltar para ela.

1:04:33>> Você comprou uma casa, é isso que tá me

1:04:35falando?

1:04:35>> Comprei uma casa. Sustendo os meus

1:04:37bichinhos com uma ração mais baratinha

1:04:39hoje em dia e faço frila de criação.

1:04:43>> Nada de ração de quinua para eles.

1:04:45>> Nada de Redbull para [ __ ] Hoje em dia

1:04:46eu faço café milita mesmo. [risadas] Tem

1:04:49cafeína também. Ah, eu não viajo mais de

1:04:51primeira classe, na verdade não viajo

1:04:52nem de ônibus leito mais, mas eu sou

1:04:54feliz e eu gosto de todos os dias que eu

1:04:56acordo e eu não preciso mais tomar 150

1:04:59mg de Zoloft para não tirar minha vida.

1:05:11>> [música]

1:05:17[música]

1:05:20>> Antes de terminar, eu quero te convidar

1:05:22a conferir o feed do Ciência Suja, nosso

1:05:24parceiro de rádio guarda-chuva. Eu te

1:05:27sugiro em especial o episódio

1:05:29Polilaminina, anatomia de uma promessa.

1:05:32[música]

1:05:34Eles mergulham fundo na história da

1:05:35molécula, que poderia ser a cura para

1:05:37paraplegia, inclusive nas contradições e

1:05:40controvérsias da médica brasileira que

1:05:42descobriu a medicação. Então, procura aí

1:05:44pelo ciência suja no seu aplicativo de

1:05:46áudio preferido, escuta [música] que

1:05:48você não vai se arrepender.

1:05:54[música]

1:05:55Eu sou Tomas Averini e termina aqui o

1:05:58episódio 159

1:06:00de Escafandro.

1:06:02Obrigado por escutar e até o próximo

1:06:05mergulho.

1:06:07[música]

1:06:19Oi, aqui é o Leonardo Dadal. Eu tô

1:06:22falando de Vila Velha e Espírito Santo.

1:06:25A mixagem de som deste episódio é do

1:06:27Vittor Coroa. A trilha sonora tema é do

1:06:31Paulo Gama. O design das capas é da

1:06:35Cláudia Furnari. A edição de áudio é do

1:06:38Mateus Marcolino.

1:06:40O roteiro, a direção e a sonorização são

1:06:43do grande Tomás Queaverin.

1:06:50>> [música]

1:07:08[música]

1:07:12[música]

More from Rádio Escafandro

Recently added transcripts

Browse the whole transcript library

This transcript was generated from the captions YouTube publishes for this video. Get the transcript of any YouTube video atfreeyoutubetranscribe.com, free, unlimited, no sign-up.