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0:00Oi.
0:01>> Este podcast é uma produção da Rádio
0:03Guarda-chuva, jornalismo para quem gosta
0:06de ouvir.
0:10A relação cada vez mais íntima da
0:11artista plástica Vanessa Rosa com a
0:13inteligência artificial começou em 2020.
0:17Foi no auge da pandemia numa época em
0:19que ela morava em Marte.
0:21>> Quando ela bateu, eu já estava em Marte.
0:24E Marte é esse deserto na Califórnia. É,
0:28obviamente Marte, no caso não é outro
0:30planeta, é um lugar, um pedaço de terra
0:33ressecada perdido no deserto da
0:35Califórnia que foi comprado por um amigo
0:37da Vanessa, um cara chamado Freeman
0:40Muray.
0:43[Música]
0:47O Freon é um cara com uma história muito
0:48curiosa. Ele tem uns 50 e poucos anos.
0:51Ele cresceu na Califórnia. pai dele era
0:54programador e fez parte então de todo
0:56boom, assim, quem nasceu na Califórnia e
0:58vivia na Califórnia, você é um
0:59programador, você tem um trabalho
1:01normal, mas assim você tá fazendo parte
1:02de uma revolução que vai mudar o mundo
1:04inteiro e de repente todos os valores
1:07crescem absurdamente. Você só tá lá.
1:09Uhum.
1:09>> É tipo,
1:10>> total
1:11>> Califórnia é um lugar muito curioso.
1:12Acho um lugar de muitas corridas do
1:14ouro.
1:14>> O Freeman cresceu na Califórnia,
1:16desenvolveu uma aplicação de e-commerce,
1:18vendeu para uma bigtech e, como costuma
1:20acontecer com o povo de tecnologia da
1:22Califórnia, ficou muito rico, muito
1:24rápido.
1:25>> É, ele vendeu uma startup antes da bolha
1:28do Dot, nos anos 2000. Então assim, com
1:30menos de 30 anos, ele já era
1:33extremamente rico para o padrão global,
1:36pro padrão da Califórnia, que é muito
1:38engraçado pensar nisso. Se ele se ele
1:40fosse viver em São Francisco,
1:44teria lá uma casinha e tal, estaria,
1:46sabe, tipo, mais uma pessoa. Mas no
1:50lugar de ficar vivendo em São Francisco,
1:52ele decidiu morar na Índia e ficar
1:55construindo coisas lá e começar a ajudar
1:59filmmakers.
2:00[Música]
2:04>> Enquanto morava na Índia, trabalhando em
2:06coletivos contraculturais de tecnologia,
2:08o Freeman conheceu o atual marido da
2:10Vanessa, um matemático chamado Jean Cog.
2:14O Jean tem uma história na matemática
2:16aplicada e no machine learning ele é
2:18considerado os pioneiros do movimento de
2:19machine learning para artistas.
2:26E aí esses dois biruab se conheceram do
2:28outro lado do mundo. Obviamente que
2:29ficaram melhores amigos e uma coisa leva
2:32a outra. E bora comprar um pedaço de
2:34deserto.
2:36Bora.
2:38[Música]
2:47Mas claro que não podia ser qualquer
2:48pedaço de deserto, tinha de ser o pedaço
2:51de deserto.
2:53>> Basicamente ele comprou uma terra no
2:56meio do deserto a 1 km de distância de
2:58uma cidadezinha pequena chamada Bombay
3:00Beat.
3:01>> Bombay.
3:04A cidadezinha fica às margens do lago
3:05Salton, que foi criado sem querer em
3:081905.
3:10Um engenheiro estava tentando criar um
3:11sistema de irrigação usando a água do
3:13rio Colorado e a coisa saiu um pouquinho
3:16diferente do previsto.
3:18A água começou a fluir para uma grande
3:19depressão, um vale que fica a 60 m
3:22abaixo do nível do mar e continuou
3:24fluindo e fluindo e fluindo
3:29por nada menos do que 2 anos.
3:32Quando esse ligeiro contratempo
3:34hidráulico chegou ao fim, estava formado
3:36um lago de 24 por 56 km. Uma massa de
3:41água tão pantagroélica que além de lago
3:43Salton atende também por mar de Salton.
3:48E aí diante da tragédia ambiental, o que
3:50fizeram os americanos?
3:54Fizeram resorts, caro ouvinte.
3:56fizeram resorts.
4:00Bomba e Beat passou a atrair milhões de
4:02turistas e virou destino de férias de
4:04celebridades com os beat boys.
4:06[Música]
4:13E o Frank Sinatra.
4:19[Aplausos]
4:22[Música]
4:27Mas aí
4:30na década de 1970 o lago passou a
4:33evaporar e a se tornar mais salgado.
4:37Resíduos de agrotóxico das fazendas
4:39vizinhas começaram a se acumular.
4:43Peixes e plantas do entorno começaram a
4:45morrer.
4:48O cheiro de peixe podre empesteava o ar.
4:52Pessoas passaram a sofrer com doenças
4:54diversas.
4:58Como consequência, hotéis fecharam em
5:00cascata e a população começou a
5:02decrescer.
5:04Na década de 1990, eram cerca de 900
5:07pessoas. No começo dos anos 2000, pouco
5:11mais de 300 e hoje pouco mais de 200.
5:16São em sua maioria pessoas pobres demais
5:18para se mudar.
5:21Mas não só isso, que em 2018, um grupo
5:24de artistas abilolados começou a ver
5:27algum charme naquela decadência toda.
5:30Grandes esqueletos urbanos, fósseis de
5:32uma era de opulência metonímia do futuro
5:35do império americano.
5:36>> Vários artistas de Los Angeles,
5:37principalmente começaram a comprar lotes
5:39nessa cidade e fazer suas próprias
5:41casas, fazer seus parte desse festival
5:43para bombait Bienal. Então, tá, tá
5:46vivendo um reflorescimento bastante
5:49curioso, assim, é um lugar que parece já
5:51um cenário pós-apocalíptico.
5:52>> E foi nesse cenário que em 2020 o Jan
5:55Kugan, o Freeman Muray e a carioca
5:58Vanessa Rosa passaram a viver num
6:01projeto chamado Mars Colge ou Somos
6:05íntimos.
6:10Eu
6:16sou Tomás queini e o episódio 146 de
6:19Escafandro já começou. Nele a gente vai
6:23falar de arte, de literatura, de ideias
6:25mirabulantes, empovoados,
6:27pós-apocalípticos e a gente vai falar da
6:29relação de tudo isso com a inteligência
6:31artificial.
6:34Antes, eu quero agradecer a você que
6:36apoia o projeto por meio do nosso
6:37financiamento coletivo e ajuda a manter
6:39o escafandro no ar a quase 7 anos.
6:43Então, se eu citar entre pessoas
6:44luminosas como a Gabi Lima, a Maria
6:47Castanho Ansará, o Luan Carpes Barros
6:50Cal e o Murilo Veronese Galesco, muito
6:53obrigado, mas muito obrigado mesmo por
6:55isso.
7:00[Música]
7:05Se você tem uma criança em casa, como é
7:06o meu caso, você provavelmente entende
7:08um pouco de dinossauros. Provavelmente
7:11você sabe que os dinossauros dominaram a
7:12Terra por um período de 160 a 190
7:16milhões de anos. Em comparação com a
7:18existência do Homo Sapiens, esse número
7:20é astronomicamente maior. E aqui essa
7:24palavra astronomicamente
7:26não é um clichê, tá, meu caro Sérgio?
7:29São quantidades realmente de ordem
7:31astronômica.
7:32Porque o Homo sapienzanza pela Terra há
7:34misseros 300.000 1 anos e tudo indica
7:37que ele demorou muito para começar a
7:38fazer alguma coisa interessante. Muito
7:41no caso, seria algo como 290.000 anos.
7:45Quer dizer, em 10.000 1 anos a gente
7:47criou a agricultura, as cidades e o
7:49dinheiro. A gente deu um pulinho na lua
7:52e a gente fez coisas realmente
7:53estranhas, tipo chat GPT e coisas ainda
7:57mais estranhas, tipo compor sambasada
8:01lá no moro. Que beleza.
8:03>> Fazer filmes.
8:04>> Qual é dadinho? Dadinho é o Meu
8:06nome agora é Zé Pequeno,
8:08>> Escrever peças de teatro. Todo
8:11dicionário é um cemitério de metáforas e
8:14todas as depressões que a gente
8:15>> Quantos dinossauros, nada indica que
8:16eles tenham engendrado estranhezas do
8:18tipo. Durante os quase 200 milhões de
8:21anos em que caminharam pela Terra, eles
8:23nasceram, comeram, defecaram, cresceram,
8:26se reproduziram e morreram.
8:30Depois de serem exterminados por um
8:32meteoro, a única coisa que sobrou deles
8:34foram os fósseis. Nem um romancezinho
8:37para contar a história.
8:41E nesse momento, você, minha ouvinte
8:42ansiosa, talvez esteja confusa o que os
8:46dinossauros têm a ver com arte e
8:47inteligência artificial? E mais
8:49importante, quem é esse tal de Sérgio e
8:52qual é a relação dele com os clichês?
8:56A parte dos dinossauros é a mais
8:57simples, porque os dinossauros, assim
9:00como todos os demais seres vivos que
9:02habitaram ou que ainda habitam o nosso
9:03planeta, não tem nada a ver com arte,
9:06nem com inteligência artificial.
9:09E quem estuda o assunto acredita que
9:11eles não têm nada a ver com isso, porque
9:13ao contrário dos nossos antepassados,
9:15eles nunca desenvolveram uma linguagem
9:17complexa.
9:19[Música]
9:21foi a linguagem, a nossa capacidade de
9:23criar histórias e de comunicar essas
9:24histórias que permitiam que a gente
9:26elaborasse sistemas complexos como as
9:28cidades ou que a gente criasse
9:30realidades intersubjetivas,
9:33ou seja, coisas que só existem porque
9:35todo mundo acredita nelas, tipo as
9:38religiões, o dinheiro e a política.
9:43Foi a linguagem complexa que permitiu
9:45que a gente ensinasse essas histórias
9:46paraos nossos filhos, o que transformou
9:48a cultura humana num fractal que cresce
9:50em progressão geométrica de geração em
9:52geração.
9:55[Risadas]
10:03Tá, mas esse tal de Sérgio,
10:04>> era uma coisa que vinha na verdade desde
10:07meu blog Todo Prosa, que ficou no ar 10
10:09anos de 2006 a 2016 e que já tratava
10:14muito desse tipo de coisa, né?
10:16>> O Sérgio, no caso, é o jornalista,
10:18escritor, colunista da Folha de São
10:20Paulo e professor informal e virtual de
10:22toda uma geração de escritores, Sérgio
10:24Rodrigues.
10:25>> Essa questão de escrever era muito
10:27presente ali, era um blog meio de
10:29escritores, para escritores, né? e e
10:32simpatizantes.
10:33>> O Sérgio Rodrigues vive no Rio, mas no
10:35final de agosto ele veio a São Paulo pro
10:37lançamento do novo livro dele. Escrever
10:40é humano, como dar vida à sua escrita em
10:42tempo de robôs que nasceu lá do blog
10:45todo prosa e sai pela Companhia das
10:47letras.
10:48>> A gente conversou um dia antes do evento
10:50no quarto do hotel onde ele estava
10:51hospedado, no bairro de Pinheiros. Uma
10:54coisa
10:54>> eu comecei perguntando sobre a origem do
10:55livro e ele explicou que a ideia era
10:57aprofundar os temas ligados ao ofício da
10:59escrita literária, criar uma espécie de
11:01guia para quem quer escrever literatura.
11:03>> Seria meio que o meu legado assim como
11:06escritor e tal, né? Tentar ensinar
11:09algumas coisas que eu tive que aprender
11:10para me tornar escritor de ficção, que
11:12não é tão claro assim, não é um caminho,
11:14não é uma coisa tão fácil de ensinar.
11:16Cada um, na verdade, tem que aprender
11:17sozinho, mas dá para conversar sobre
11:20algumas coisas. E a coisa tava andando
11:22num ritmo, vamos dizer, analógico. Até
11:25que no melhor estilo deus ex máquina, os
11:28robôs invadiram a narrativa.
11:29>> Veio a Ia generativa, os LLNs, né? E
11:34cara, isso muda o jogo demais, isso é
11:35uma revolução. E não é que eu tive que
11:37mudar o livro totalmente por causa
11:40disso. Na verdade, isso até me ajudou a
11:44terminar o livro, porque deu pro livro
11:46uma um foco assim mais preciso do que
11:50que eu tava buscando naquela história,
11:52né?
11:53>> Eh,
11:53>> também, talvez.
11:54>> Humogência, com certeza. E um foco mesmo
11:57assim de me tocar que tudo que eu tava
11:59escrevendo tinha de alguma forma a ver
12:02com essa história do anticê, sabe?
12:05>> E assim a gente chega a eles, os
12:08clichês. Eu queria voltar aos robôs mais
12:11paraa frente, mas eu queria dar um dar
12:12um passo atrás porque eu acho que tem
12:13coisas que criam esse terreno fértil
12:16para usar os clichês que você gosta. Eu
12:18queria falar justamente deles, dos
12:20clichês, né? Tem aquele texto que é um
12:23texto que você fez pro todo prosa, né?
12:25>> Hum. aspas para um dos textos mais
12:27divertidos que eu já li sobre os clichês
12:29na literatura.
12:31>> É preciso abrir o olho com o lugar
12:33comum. Ele dá mais que chuchu na cerca
12:35no texto do escritor que não faz das
12:37tripas coração para reduzi-lo a pó. De
12:40repente, num piscar de olhos, é tiro e
12:42queda. Lá está o clichê, a frase feita,
12:46a expressão convencional deitada no
12:48berço esplêndido das mal traçadas.
12:51E pouco importa que o autor seja dono de
12:53uma cultura invejável, o lugar comum
12:56ataca gregos e troianos, penetrando
12:58insidiosamente em corações e mentes. O
13:02preço da ausência de clichê a eterna
13:04vigilância. Sem suar em bicicas, sem
13:07trabalhar de sol a sol, nenhum escritor
13:10digno desse nome pode se considerar a
13:12salvo de seu doce veneno. Eu disse doce?
13:16Sim, doce, porque um lugar comum que se
13:18preze é chinelo velho para pé cansado, o
13:21que equivale a dizer que proporciona ao
13:22usuário uma nítida sensação de prazer e
13:25conforto. No entanto, nunca se deve
13:28perder de vista que esse amor bandido,
13:30no fundo um santinho do Pauoco, está
13:32sempre pronto a nos privar na calada da
13:35noite, com um drible seco e
13:37desconcertante
13:38de nosso mais precioso bem, a
13:41originalidade da expressão, nos deixando
13:43de mãos abanando e aver navios no
13:45inverno tenebroso da linguagem.
13:49No livro, o Sérgio conta que recebeu
13:51muitas mensagens dos leitores do blog na
13:52época que, vale dizer, eram em boa parte
13:55escritores ou aspirantes a escritores. A
13:58maior parte deles elogiava o manifesto,
14:01mas ao mesmo tempo não entendia que o
14:03texto era premeditadamente todo hurdido
14:05a partir de clichês.
14:07>> A maioria não entendeu, achou a mensagem
14:10muito boa. Pô, realmente precisamos
14:11combater os clichês, mas não entendeu
14:13que o texto era todo feito com clichês.
14:16Mas enfim, eu pedi pro Sérgio me falar
14:18sobre o ódio mortal que ele sente em
14:21relação aos clichês.
14:22>> Cara, eu acho o clichê a negação
14:25completa da literatura.
14:27>> E assim, na linguagem coloquial, e aqui
14:29talvez querendo me redimir de todos os
14:31clichês passados, mas até num texto de
14:33podcast, os clichês são parte do jogo.
14:35>> É normal, pô. Aqui nessa conversa a
14:38gente vai certamente falar um monte.
14:41Agora, quando você tá tratando a
14:43linguagem com esse rigor que a
14:45literatura exige, a boa literatura, a
14:48literatura que eu acho que vale a pena,
14:50que eu gosto, que eu quero fazer, aí
14:52você é obrigado a fugir disso, porque é
14:56necessário que a linguagem tenha um
14:57frescor, me parece. E às vezes passa,
15:01cara. Às vezes passa.
15:02>> Você fala no livro do que que era suando
15:04em bicic. É, no Elsa a garota tinha um
15:08suando em bicic
15:10o a primeira edição do do Elsa, que é o
15:14meu um romance, meu romance histórico
15:17lançado 2009. A primeira edição saiu com
15:20quase 10.000 Emplies,
15:22>> uma tiragem grande.
15:23>> É, então não não teve reimpressão e e
15:26aquele negócio ficou, aquele clichê
15:28ficou me atasanando ali anos até sair
15:30uma segunda edição pela Companhia das
15:32Letras agora em 2018, que quando eu
15:34finalmente corrigi, troquei para suando
15:37muito, sei lá,
15:40>> suar em bicicê, né?
15:42>> Chuva torrencial é um clichê,
15:45>> ruído ensurdecedor é um clichê. Essas
15:48coisas que vêm muito automáticas assim.
15:50né? Erro Crassço e me parece o grande
15:53clássico assim, porque Crassço é uma
15:55palavra que a gente não usa para nada,
15:57>> usa para nada e é quase e ela vem quase
15:58junto com erro, né?
15:59>> Ela elas elas eles estão muito casados,
16:02>> mas na verdade assim, o crço é
16:04monogâmico, o erro não, né? O erro pode
16:07sair com outro,
16:08>> pode sair com outro, mas o craço só sai
16:10com erro.
16:12>> Aquele relacionamento que é aberto para
16:13um lado só, né? Exatamente.
16:14Relacionamento aberto.
16:15>> E esses são os clichês das palavras, mas
16:18eles são só parte do problema.
16:20>> Tem um clichê de das situações do
16:23personagem que é estereotipado, do final
16:25feliz do ou do da narrativa de
16:28superação. O cara sofre para caramba na
16:31primeira metade do livro e depois ele
16:33supera tudo e tem aquela redenção e o
16:35leitor fica feliz. São clichês de
16:38narrativa, né? São clichês narrativos.
16:40Tudo isto, acho que tudo que soa como
16:43algo que já foi feito antes deve ser
16:45evitado na literatura, porque eu acho
16:46que você tá buscando é justamente uma
16:49fagulha qualquer de novidade. Uhum.
16:51>> Que não é tão fácil de encontrar, mas
16:53que é isso que a gente tem que buscar.
16:55Enfim, essa é a minha aposta. Eu acho
16:57que deve ter gente que enxerga isso de
16:59forma diferente, mas eu, principalmente
17:02depois que eu comecei a pensar na
17:04história da Iá, eu passei a ver a
17:07literatura como o lugar do anticlichê.
17:11>> Queria que você falasse um pouquinho
17:13daquele trecho da descrição da Lolita,
17:15que eu acho que é que é meio que o
17:17oposto do clichê, né?
17:18>> Lolita, você sabe, é um dos grandes
17:20clássicos da literatura do século XX. A
17:23história é narrada em primeira pessoa
17:24por um pedófilo que conta da relação
17:26destruidora com uma menina de 12 anos, a
17:28Lolita do título. E o russo Vladimir
17:31Nabokov, que só aprendeu inglês aos 19
17:34anos, era um mestre em usar os elementos
17:37mais definidores do que é a arte, a
17:40subjetividade.
17:42Aspas paraa abertura de Lolita, lida
17:44pela Priscila Pastre.
17:46Lolita, luz de minha vida, labareda em
17:49minha carne, minha alma, minha lama.
17:54Lolita.
17:57A ponta da língua descendo em três
17:59saltos pelo céu da boca para tropeçar de
18:01leve no terceiro contra os dentes. Li,
18:06tá?
18:08Pela manhã era Lô, não mais que Lô, com
18:11seu m de altura e calçando uma única
18:14meia soquete.
18:18Quando deeca essa abertura no livro
18:19dele, o Sérgio Rodrigues chama atenção
18:22paraa aparente economia de detalhes. O
18:24Nabukov compartilha só três informações
18:26com a gente. A altura, um pé com meia
18:29soquete, um pé descalço. Só que essa,
18:32claro, é a visão do leitor comum. O que
18:34é verdade é que quando a gente coloca
18:36aquelas três informações no contexto das
18:38complexidades humanas, elas se
18:40multiplicam.
18:41>> A altura é a primeira vez que você tem
18:42uma pista de que ela pode ser ainda
18:45criança e logo em seguida a gente vai
18:47descobrir que ela tem 12 anos. Mas antes
18:49de descobrir que ela tem 12 anos, ela
18:51tem 1,40 m. E um pé de meia soquete, que
18:53é a coisa do do fetichismo dele, né? Do
18:56desejo alucinado que ele sente por
18:58aquela menina e tal. E ela tá com pé só
19:01calçado também. Tem um pouco do caos
19:03daquela personagem que, né, que é uma
19:04personagem que é essa coisa meio meio
19:07pueril mesmo, né?
19:08>> Poeril. E mas ao mesmo tempo é pueril,
19:10mas ao mesmo tempo aos olhos de um de um
19:12pedófilo é muito provocante porque se um
19:15pé tá calçado é porque o outro pé tá nu,
19:17né?
19:18>> Quer dizer, tem um jogo aí.
19:19>> E também a meia, a meia socast naquela
19:21época só criança usada. É uma meia, é
19:23uma meia de de criança. É exato.
19:27>> E aqui a gente finalmente chega aos
19:29robôs de inteligência artificial, porque
19:32pelo menos por enquanto, não existe robô
19:34no mundo que dê conta de criar camadas
19:35subliminares como essas, por mais
19:38anabolizante computacional que a gente
19:39dê para ele.
19:40>> É exatamente isso que o robô não
19:42consegue alcançar.
19:45Antes de continuar, eu preciso te
19:47lembrar que você só tá aí escutando esse
19:49episódio, porque uma parte dos nossos
19:51ouvintes apoia o escafandro
19:53financeiramente.
19:55Isso é feito por uma campanha de
19:57financiamento coletivo. É esse
19:59financiamento que paga o salário da
20:01nossa inxuta equipe, que permite a gente
20:03se dedicar em tempo integral a te trazer
20:05histórias que você não escuta em nenhum
20:07outro lugar.
20:09Então, se você gosta do projeto, se tem
20:11uma sobrinha aí no seu orçamento, vem se
20:14juntar ao grupo de pessoas luminosas que
20:15mantém o podcast no ar. Vem ajudar o
20:18escafandro a crescer, a melhorar e a
20:20chegar a mais gente. Para fazer isso, o
20:23caminho é fácil, rápido e seguro. Só ir
20:26lá em catarse.
20:30Escolher o valor com qual você quer ou
20:32pode apoiar. Catarse.me/escafandro.
20:39Se você quiser apoiar por outro caminho
20:41ou quiser saber das recompensas que os
20:42apoiadores ganham, inclusive tem um nome
20:45citado aqui no episódio, é só ir lá em
20:47radioescafandro.com,
20:49clicar em apoyadinho.
20:53Agora bora voltar pra nossa história.
20:57Existem os clichês da página, existem os
20:59clichês da vida. quando resolveu criar
21:02Marte junto com a namorada e o amigo, o
21:04Jean Kugan tava meio que respondendo a
21:07um clichê da vida ou a um clichê do
21:10capitalismo, se a gente quiser afunilar
21:11um pouco mais.
21:12>> Em 2018 foi um momento que teve um
21:16leilão na Crusties em que um trabalho
21:19feito com inteligência artificial foi
21:20vendido por 400.000
21:23ou libras.
21:24>> Foram dólares, mais precisamente
21:26432.500.
21:30Foi a primeira vez que a casa de leilões
21:31mais famosa do mundo vendeu arte feita
21:33por Iá. A obra em questão era a
21:36impressão de uma gravura criada por um
21:38coletivo de artistas franceses que
21:40treinou um programa de inteligência
21:41artificial para estudar pinturas
21:43clássicas e criar algo com base nisso. O
21:46resultado, pelo menos para mim, parece
21:49um homem pintado pelo Rembran e
21:51restaurado por aquela mulher que
21:52destruiu um afresco com o rosto de
21:53Cristo numa igreja italiana. com a
21:55agravante de que a imagem é feita por
21:57Iá, tá mal enquadrada, o que faz a
21:59moldura cortar um pedaço da testa
22:01borrada do retrato. E sim, a gente
22:03colocou essa imagem no nosso Instagram
22:05que é rádio Escafandro.
22:08Mas enfim,
22:09>> por um lado, isso foi bom pro Din.
22:11>> Afinal, de repente estava todo mundo
22:13falando sobre o uso de ANA Arte. Por
22:15outro lado, quando eles foram olhar mais
22:17a fundo,
22:17>> começou a sair na BBC e virou um
22:20alvoroço e tal, mas assim, era uma
22:24pessoa, tipo um menino de 19 anos que
22:26tinha feito um repositório que era muito
22:28parecido com que várias outras pessoas
22:29faziam no open source. Então assim, do
22:31ponto de vista de quem tava ali
22:33pesquisando inteligência artificial, foi
22:34justamente o momento já de
22:36mercantilização total do meio.
22:39>> Lá tava o clichê da criatividade
22:40artística sendo fagocitada em nome da
22:43grana. Tipo, agora é uma corrida de
22:45dinheiro, de falar com gente que não
22:46acompanha nada, de ficar levantando
22:48plaquinha de eu fiz isso. Então assim,
22:50já era também um uma certa revolta de
22:53quero fazer outra coisa.
22:55>> E aí tem outro detalhe que tá
22:57relacionado com uma das grandes
22:58discussões relacionadas à arte e
23:00inteligência artificial, porque o
23:02sistema usado para fazer tal obra era
23:04uma GAN, Generative Adversarial Network.
23:08>> Para você treinar uma guan, você
23:10precisava de milhares de imagens
23:11específicas. Então, se você tivesse
23:14inúmeros retratos, você conseguia
23:15treinar uma guato. Inúmeras paisagens,
23:18você treinava uma guisagem.
23:20Então, uma das formas mais fáceis de
23:22você criar essa base de dados para ter
23:25um resultado interessante era você fazer
23:27um scrape de Instagram.
23:28>> Scrape significa raspar. E é meio que
23:31isso mesmo, raspar tudo que dá até não
23:34sobrar nada fundo da panela virtual que
23:36os artistas colocam de graça nas redes
23:37sociais, mesmo porque o mercado obriga
23:40eles a fazerem isso.
23:41>> Então você pode fazer scrape de páginas
23:44de artistas ou de uma hashtag com uma
23:46linha de código. Então assim, já era
23:48visível que os artistas seriam a origem
23:53das imagens de qualidade e inteligência
23:55artificial. Isso já tava totalmente fora
23:56de controle. E aí tem aquela questão de
23:59esse pessoal não tá ganhando nada com
24:00isso, certo?
24:01>> Não, e nem sabe,
24:02>> na verdade tá roubando a arte dos outros
24:05e reempacotando ela em outra coisa, né?
24:09>> É assim, no início com as GS resultados
24:12ainda eram muito disformes, então tinha
24:14umas pessoas brincando com justamente
24:17você combinar elementos diferentes,
24:19então ficava uma coisa mais abstrata.
24:21Então assim, do ponto de vista estético,
24:24era interessante. Um dos primeiros
24:26projetos muito legais de plataforma foi
24:27Art Breeder, que não só treinava GS em
24:32temas específicos, mas era possível
24:33misturá-las, assim, algoritmos
24:35evolutivos mesmo, que você pudesse fazer
24:38quimeras entre diversos modelos. Você
24:40colocava ali água viva com, sei lá,
24:43golfinho. Aí você criava uma imagem que
24:45tava entre os dois e aí você colocava os
24:47parâmetros do quanto de vários elementos
24:49e você podia fazer remix em cima do que
24:51as outras pessoas estavam criando. Então
24:53você tinha tipo como se fosse uma
24:55plataforma colaborativa mesmo de de
24:57criação de imagens. Então ali você pode
24:59dizer que tinha uma criação por cima,
25:02mas assim para o grande público, como é
25:05que as pessoas vão saber a diferença?
25:07Então acho que a grande diferença, que é
25:09o que a gente tá vivendo hoje também, é
25:12justamente tentar entender assim que
25:14técnicas são essas, como isso é feito, o
25:16que que é possível dentro desse meio,
25:18até para você conseguir identificar os
25:20diferentes agentes e quem é que tá
25:22propondo algo que não levaria ao mundo
25:24distópico, que poderia ser útil para
25:27ajudar com os nossos problemas. E quem
25:30tá ali também, tipo, tentando
25:31impulsionar um dooms day, um medo do
25:33apocalipse para dizer: "Ah, então confia
25:35na gente que a gente vai ser dono de
25:36todos os recursos, nós vamos ser um novo
25:39império". E a gente coloca os termos e
25:41acabou.
25:43[Música]
25:47A gente foi um pouco mais longe, mas
25:49volta um pouquinho para mim, por favor,
25:51porque estava falando do que daí o Jim
25:54tava, enfim, nesse mundo de trabalhar
25:57com Martin e Learning com artistas, né?
26:00E aí ele meio que teve essa coisa toda
26:02de ficar super mercadológico, tal, ele
26:03se cansou e aí ele que foi deu essa
26:06ideia do pro Freeman, falou: "Que tal se
26:08a gente comprasse uma coisa no deserto e
26:11e fizesse uma coisa que ninguém entende
26:13direito o que que é?"
26:16>> Eu acho que foi um pouco assim, o o
26:18Freeman é mais velho. O D tem uma acho
26:20que uma admiração incrível pelo Freeman.
26:23O Freeman é nosso melhor amigo, então é
26:25uma admiração a nível pessoal. Acho que
26:27também era uma vontade de dizer assim,
26:28quem você quer passar o seu tempo com?
26:31>> Então a gente faz parte também porque a
26:33gente quer viver com pessoas que a gente
26:35gosta, a gente quer passar tempo ali,
26:36tem uma concentração de pessoas
26:38interessante, per cap absurda dentro de
26:40uma cidadezinha tão pequena, sabe?
26:42[Música]
26:55E aí eles meio que dividiram as tarefas.
26:57O Freeman tinha um conhecimento grande
26:58de construção a partir de estruturas
27:00prontas. Ele tinha trabalhado erguendo
27:02edificações instantâneas do Burding Man,
27:04o festival de contracultura que acontece
27:06num deserto em Nevada e que antigamente
27:08atraía hordas de neorips e hoje atrai
27:11hordas de novos ricos e celebridades em
27:13busca de material para rechear as redes
27:14sociais.
27:17O Jan, por outro lado, tinha todo o
27:19conhecimento de como fazer uma estrutura
27:20semiurbana no meio do deserto funcionar
27:22tecnologicamente sem tá plugada na rede
27:25digital física que interliga o planeta.
27:31E outras pessoas, inclusive eu,
27:33contribuíram muito em manter a coisa
27:36rodando.
27:392021, eu e o Jin ficamos morando em
27:41março. A partir de 2022, a gente passou
27:43a morar na cidade em Bombit. que vira
27:46também o o meio que o lugar seguro para
27:49manter Marte, porque Marte assim, alguém
27:52tem que levar água para lá, as pessoas
27:54quando chegam tem que ficar em algum
27:55lugar. A cidade perto torna um
27:58experimento muito mais sustentável,
28:01porque quando o Marte realmente tem
28:03tempestade de vento e que dura três
28:05dias, as pessoas acabam vindo pra
28:07cidade, elas cansam.
28:08>> Não é à toa que eles batizaram lugar de
28:09Marte, né? Elas recebem encomendas da
28:12Amazon, recebem na cidade, usam os
28:15banheiros na cidade, máquina de lavar na
28:17cidade.
28:18>> Quer dizer, uma vez por ano, desde 2020.
28:21É isso. Tem aí 2020 foi aquela coisa que
28:24as pessoas ficavam mais na cidade e aí a
28:27partir daí, uma vez por ano, tinha as
28:29pessoas ficavam três meses morando ali
28:31com esses recursos da cidade. É isso
28:34>> sim. E agora Mar tá cada vez mais
28:36autosustentável. Assim, ano que vem a
28:39gente deve ter máquina de lavar em
28:40Marte, deve ter mais chuveiros em Marte.
28:44Então, um pouco a ideia assim, se a
28:45nossa tecnologia poderia nos levar a
28:47viver em outro planeta, como é que a
28:48gente poderia usá-la para viver melhor
28:50na Terra em lugares que são difíceis?
28:52>> E aí é uma coisa que é voltada pra arte
28:55ou é uma ou é multidisciplinar, assim, é
28:58uma experiência que vai além da arte
29:00assim e a gente tá falando do pelo viés
29:03da arte, porque você é artista. Eu diria
29:05que é multidisciplinar, mas tem a pegada
29:08mais artística do que técnica. A gente
29:10se interessa por ficção científica. Às
29:13vezes até demais, sabe? Às vezes, se a
29:15gente fosse mais prático, engenheiro, a
29:17gente teria resolvido alguns problemas
29:20com melhor planejamento.
29:22Porém, eu acho que nesse sistema que a
29:24gente faz, em que assim, isso não é um
29:26serviço, isso não é pago, ninguém aqui
29:28tá contratado, não teria sobrevido se
29:30não fosse pela arte, se a gente não
29:32atraísse muita gente que tá interessado,
29:34por exemplo, o Solar Sam que eu
29:36mencionei que tá ali fazendo poupas,
29:39>> o Solar Sun tá desenvolvendo um sistema
29:41de poup gás ou gás do cocô em bom
29:45português.
29:46>> Ele é um cara que gosta de inventar
29:47coisa. Então ele tem um ônibus que ele
29:49chama de medical tubas, em que ele faz
29:52uma série de experimentos,
29:53principalmente de hardware. Então ele
29:55gosta, ele transforma o cocô dele em
29:58biotar, que é tipo um carvão que você
30:00pode usar para cozinhar, eh, ou ele
30:03transforma em gás que você também pode
30:06usar para cozinhar. E ele virou a pessoa
30:09que otimiza o nosso sistema de energia
30:11solar. As invenções do Solar Sun tem um
30:13objetivo prático e bem palpável, mas ao
30:16mesmo tempo, como ele tá em Marte, as
30:18coisas ganham uma camada de
30:19subjetividade a mais. Ele faz isso do
30:21ponto de vista artístico. Ele depois faz
30:23uma apresentação, uma instalação, tipo
30:26uma escultura que você entra e tem uma
30:28inteligência artificial com que você
30:30conversa, que tá ali explicando os
30:31projetos que ele criou com PPC gast de
30:34energia solar e etc, dentro de um de uma
30:37ficção científica própria. Então tem um
30:39viés assim muito mais experimental
30:42>> do que só estamos resolvendo problema X,
30:44Y, Z.
30:46Desculpa voltar porque assim, a minha
30:47mente jornalística tem essa esse vício,
30:49mas tem um dá para falar em um objetivo
30:52geral dessa iniciativa.
30:55>> Às vezes até uma coisa que as pessoas
30:56questionam assim: "Não, mas por que que
30:57a gente tá fazendo isso? Do que trabal
30:59vai complicar tanto? Será que não é
31:00melhor ficar na cidade?" etc. Eu acho
31:04que assim, no longo prazo, o
31:06interessante seria criar esses espaços
31:09alternativos de respiro, criar um
31:10protocolo. Como é que você cria espaços,
31:14digamos, de baixo custo que as pessoas
31:15agora têm tempo para aprender, tempo
31:18para experimentar? Como a gente consegue
31:20criar uma universidade autogerida,
31:23descentralizada, sabe? um pouco
31:29e a gente atrai pessoas muito
31:31interessantes. Por exemplo, nosso amigo
31:32Ben, ele é pós-PhD de microbiologia,
31:38mas é um dos uma das pessoas que mais
31:40experimenta escrita criativa com
31:42inteligência artificial. Ele é é um merd
31:44que gosta de discutir tudo.
31:49Então, às vezes você tem um grupo assim
31:51diverso de pessoas, é é o que se torna
31:53mais interessante do ponto de vista
31:55criativo, de você ficar ali, tipo,
31:57fazendo zine sobre Marte daqui a 100
32:00anos, a gente fica,
32:03[Música]
32:05é isso, é criar a cultura desse
32:07compartilhamento, a cultura da
32:09autossuficiência.
32:16Se você tem um problema, você como
32:18adulto, tipo, tente resolver ou tente a
32:20a arranjar pessoas que te apoiem a
32:22resolver o seu problema. Tente arranjar
32:24as soluções no lugar de esperar que uma
32:26instituição resolva por você.
32:29[Música]
32:36Nos três meses por ano que vive Marte, a
32:38Vanessa Rosa tá mergulhada num paradoxo.
32:42Uma vida altamente tecnológica, mas de
32:44certa forma apartada do restante da
32:46sociedade.
32:48Um movimento quase sobrevivencialista de
32:50pensar numa existência pós-apocalíptica,
32:52mas que ao mesmo tempo flerta com os
32:54possíveis catalisadores do nosso
32:55apocalipse.
32:57Mas no fim, ainda que num grau
32:59diferente, ser humano em 2025 é viver
33:02mergulhado nesse paradoxo, né? É odiar
33:04acordar um dia como outro qualquer,
33:06abrir aquele bom e velho programa que
33:08você sempre usou e de repente ver que
33:10vai ter de engolir alguma aplicação de e
33:12ao mesmo tempo ter a vida facilitada
33:14pelas IA que deram certo e que ajeitam
33:16nossas relações com as máquinas numa
33:18simbiose que, de volta ao paradoxo, às
33:21vezes soa como o prenúncio do nosso caso
33:23como espécie.
33:25Os escritores, claro, estão enfiados
33:27nesse paradoxo até o pescoço, porque
33:29assim como os programas de para artistas
33:31fagocitam outras obras, programas de
33:33pré-escrita se alimentam do trabalho de
33:35outros escritores,
33:37virtualmente de todos os escritores que
33:39já viveram. O que leva a gente a uma das
33:42grandes perguntas do episódio, que tem a
33:45ver com o uso de a como uma ferramenta a
33:47mais. O melhor jeito de abordar essa
33:49questão é fatiando ela em duas partes.
33:52Primeiro, tem o uso de A como ferramenta
33:54na escrita do dia a dia e essa tá solta
33:57no mundo e tende a se reproduzir e a
33:58dominar a comunicação por texto. Apesar
34:01do título do livro do Sérgio Rodrigue
34:03Escrever ao humano, a verdade é que a
34:05maior parte dos humanos tem dificuldade
34:08para escrever. Então, faz sentido que
34:10essa maior parte dos humanos terceirize
34:12o trabalho manual da escrita e isso traz
34:15seus riscos porque a capacidade de
34:17escrita das pessoas vai certamente
34:19diminuir.
34:20>> As pessoas vão desaprender a escrever.
34:22>> Uhum. E se você desaprende a escrever, a
34:25ideia de que aquilo ali vai ser uma
34:26grande ferramenta deixa de fazer
34:29sentido, porque você só domina uma
34:30ferramenta se você for o senhor da
34:33daquele ofício. Se você é um é um já é
34:36um escritor, já tem as manhas do
34:39negócio, eu acho que talvez você possa
34:41usar o chat GPT a seu favor
34:44>> como uma ferramenta. como uma
34:45ferramenta, mas se você chega ali meio e
34:50inseguro e meio não sabendo muito bem o
34:53que você tá fazendo, ele não é mais
34:54ferramenta, ele vai fazer o que ele
34:56quiser fazer,
34:57>> né? Ele vai fazer de você gatos sapatos
34:59para usar um clichê. Eh, também. Eh, e
35:03esse é o que eu acho que é o grande
35:04risco, cara, é a gente desaprender a
35:06escrever, porque escrever dá trabalho.
35:08Escrever é tem um lado chato, né? Tem um
35:11lado chato, tem um lado trabalhoso para
35:12caramba. Tem uma frase que eu adoro do
35:15John Gregory Dean, mais conhecido como
35:17marido da Joan Didian, que ele dizia que
35:20o escrever é o trabalho braçal da mente.
35:22Isso leva a gente à segunda parte da
35:24questão.
35:25>> Também tem um outro momento que você
35:27fala no livro que é sobre essa
35:28necessidade da a literatura leva um
35:30tempo para acontecer, né? Escrever uma
35:33coisa que acontece devagar, né? A Iá
35:35acelera muito as coisas e se a gente for
35:38pensar na história da literatura, a
35:39gente já tem várias ferramentas que
35:40aceleraram tudo, né? a gente tem, sei
35:42lá, editor de texto, mas a gente tem
35:43também o Google, por exemplo, né,
35:45>> cara? Eu acho que tem uma uma diferença
35:48muito grande entre todas as ferramentas
35:50que aceleraram a escrita até hoje e o
35:54que temos agora. Quer dizer,
35:56>> porque é, na verdade, assim, o Google é
35:58uma ferramenta de pesquisa incrível, né?
36:02Mas é uma assim, não é nada que você com
36:05uma uma Barça e mais uma visita à
36:08biblioteca nacional, enfim, não
36:10resolvesse na maior parte dos casos.
36:12Claro que tomava mais tempo, mas era a
36:14mesma coisa. Você ia chegar numa
36:15informação que você ia ter que processar
36:18com o seu próprio cérebro e transformar
36:20em palavras e frases e tal para
36:22apresentar o público.
36:23>> Uhum.
36:24No final das contas, você chegava nesse
36:26funil que era um alguém sentado diante
36:29de uma página que ele tinha que
36:31preencher com palavras e todo o resto
36:34podia produzir uma aceleração do
36:37processo de produção, mas não chegava
36:40nisso. Agora chega, agora você não
36:41precisa mais sentar diante da página.
36:44Ele senta por você, ele te entrega
36:46aquilo, o troço pronto. E tem gente
36:48usando isso. Com certeza. Com certeza
36:50tem escritor usando isso, o que eu acho
36:52complicadíssimo.
36:54Eu acho complicadíssimo. Tem toda uma
36:56discussão aí de ética, enfim. Agora,
37:01antes até de entrar nessa questão ética,
37:04eu entro numa questão assim, cara,
37:07depende do que você quer fazer. A Amazon
37:10já tá cheia de livros escritos por
37:12inteligência artificial. Esses romances
37:14eróticos,
37:15>> romances hot,
37:16>> é os rots. Isso aí sempre foi um um
37:19monte de clichê.
37:20>> Uhum.
37:21>> Era um monte de clichê produzidos por um
37:22ser humano porque era o que dava para
37:24fazer. Agora não precisa mais do ser
37:26humano. E o robô vai dar conta disso.
37:28Muito bem. Tem nenhuma dúvida. Agora
37:31depende dos seus propósitos. Se você
37:33quer escrever um livro de autoajuda ou
37:35um livro de, enfim, de qualquer outro
37:38gênero não literário, você pode
37:40terceirizar sua escrita para isso,
37:42talvez possa. Eh, não sei se esse leitor
37:45tá esperando nada além daquilo ali
37:48exposto com uma clareza e tal, que o
37:51chat CPT tem. É um uma prosa medíocre,
37:54uma prosa nada brilhante, mas é ela é
37:57suficiente para dar conta de uma maior
37:58parte dos gêneros textuais aí que que
38:00circulam por aí. Agora, se o seu projeto
38:02é fazer literatura, você é fazer arte de
38:04verdade, cara, eu acho que você não pode
38:07abrir mão de escrever uma palavra depois
38:10da outra. Todas as palavras do livro tem
38:13que ser suas, me parece.
38:15>> Uhum.
38:16>> Me parece assim uma completa indignidade
38:19você não escrever todas as palavras do
38:21seu livro. Agora, isso é uma visão
38:24minha, né, cara? Eu sou um cara
38:25analógico. Eu venho de outro tempo, né?
38:28>> Mas tem gente que tá pensando diferente
38:29que você tem encontrado por aí. Eu acho
38:32que tem tem gente inclusive empolgada
38:34com a ideia de que isso pode abrir novas
38:36possibilidades de expressão e tal. Eu só
38:39não consigo compreender a ideia de arte,
38:41arte nenhuma que precinda do sujeito
38:44humano, da subjetividade humana por trás
38:47daquilo ali. Eu não consigo imaginar
38:49nada mais
38:51insuportável, assim, é um tédio mortal
38:55do que ler um um romance escrito por um
38:57robô.
38:58[Música]
39:08O verbo escrever não dá conta do que é
39:10aquilo ali. Aquilo é um é um grande
39:13copia e cola numa velocidade alucinante,
39:16né? É de cai o queixo, pô. O troço é
39:19incrível.
39:19>> É,
39:20>> eu não falo mal da inteligência
39:21artificial como uma besteira. Não é uma
39:24uma besteira, é uma revolução de
39:26verdade.
39:26>> Mas porque quando você fala um livro,
39:27melhor não falar mal, porque vai que
39:29eles dominem o mundo, a gente, né?
39:31>> É. E aí ele tranca no elevador e corta o
39:33oxigênio e tal, né?
39:35>> Eh,
39:37é, eu vi, eu vi 2001, né, cara. Eu sou
39:39um cara de pé atrás com eles, mas essa
39:42altura eles já eles já sacaram que eu
39:44eles com certeza já me consideram um
39:45inimigo.
39:47[Música]
39:53E aqui a gente volta um dos pontos
39:54centrais do episódio, que de novo tem a
39:57ver com os clichês, porque no estágio
40:00atual os modelos de linguagem por Iá não
40:02estão de fato criando nada. Eles fingem
40:05que estão criando, mas não tão. E sem
40:07criação, sem inovação, não existe arte,
40:11não existe literatura.
40:12[Música]
40:15Que literatura é essa que vai ter que
40:17ser feita para se diferenciar do robô,
40:20para se diferenciar dessa escrita
40:22automatizada, que vai ser a grande
40:25paisagem textual à nossa volta em breve.
40:28já é de certa forma. Como é que a gente
40:30vai fazer para ter valor, para se chamar
40:33atenção nesse mundo? Eu não tenho muito,
40:35não sei muito bem como é que vai ser. Eu
40:38acho, imagino que vai ter, sei lá, uma
40:42prateleira das da livraria dedicada a
40:46produtos orgânicos, assim, e o resto
40:49não. O resto vai ser IA. E quem quiser
40:52muito comprar o orgânico, vai lá no
40:54orgânico como você faz hoje no mercado.
40:57Existe até uma possibilidade, sei lá, aí
41:00talvez seja um pouco otimista demais
41:01pros nossos tempos, mas existe até uma
41:05possibilidade de que isso passe a ter um
41:06valor maior.
41:07>> Uhum.
41:08>> Já que menos gente vai saber fazer.
41:09>> Mas um produto de luxo, vamos dizer
41:11assim. produto de luxo. Mas não sei.
41:17[Música]
41:20O pior é que ninguém sabe. Momentos de
41:23grande mudança, como o que a gente tá
41:24vivendo e que parecem ser cada vez mais
41:26frequentes e talvez passem a ser uma
41:28constante daqui pra frente são momentos
41:30de grande incerteza.
41:33E diante da incerteza, o máximo que eu
41:35tenho a oferecer é fazer mais perguntas.
41:39Talvez voltar a Lolita.
41:42Será que um robô algum dia vai conseguir
41:44criar as camadas invisíveis que o
41:45Nabukov esconde nas entrelinhas?
41:48>> Acho que não vai conseguir nunca. Agora
41:50ele pode imitar isso. Maria queitar. Ele
41:53pode estudar o estilo, estudar entre
41:55aspas, mas enfim, a gente tá caminhando
41:58rapidamente para isso, para este grau de
42:00competência do robô. Ele captar o estilo
42:03do do Nab entregar um texto que vai te
42:06enganar. Ele não vai saber do que tem de
42:09profundidade naquelas histórias, mas ele
42:11vai imitar os cacoetes, os os estilemas,
42:15como dizem os estudiosos de literatura,
42:18os estilemas do Nabokov, de tal forma
42:21que um leitor vai ter que ser muito,
42:23muito sabido, muito estudado para
42:26perceber a diferença. Eu acho que esse é
42:28que é o nosso grande perigo, entendeu? A
42:30gente tá muito perto de um momento em
42:33que vai se você vai poder encomendar
42:35para um robô um novo romance de um autor
42:37morto, uma nova peça do Shakespeare.
42:40>> É que eu fico pensando nesse caos da
42:42Lolita assim, porque é uma coisa que é
42:44uma informação que a gente só percebe
42:46essa informação
42:48ou quando a gente lê muito devagar ou
42:50quando a gente lê, eu li Lolita há muito
42:52tempo atrás, mas eu não lembro de ter
42:55esse registro como você coloca. Não, nem
42:58eu.
42:58>> Mas é um registro que você
43:00>> foram leituras posteriores,
43:01>> você vai ler com atenção, mas mesmo
43:02assim, mesmo quando você não tem
43:04registro na primeira camada consciente,
43:08aquilo de certa forma cala em você em
43:11algum lugar, certo? Fala com algum lugar
43:12do seu inconsciente e te ajuda a
43:15preencher aquelas camadas. Você preenche
43:17automaticamente aquilo, certo?
43:18>> Sim.
43:19>> E aí o robô não vai conseguir fazer
43:21isso, certo? porque ele teria que ter
43:22uma identificação com o seu cérebro que
43:25só o cérebro humano tem, não? Ou você
43:27acha que ao ao estilo, ele vai conseguir
43:31chegar num ponto de criar essa
43:32identificação, criar essas camadas que
43:34são
43:34>> cara assim, se você não souber um robô,
43:38é muito possível que consiga te enganar.
43:41Talvez ele não te leve a a lugares muito
43:44profundos, mas a gente tem uma tendência
43:46a ver, atribuir sentidos às coisas.
43:51Inclusive, eu falo uma hora de uma
43:53experiência que eu tive vendo umas
43:55sacolas plásticas dançando. Era um
43:57espetáculo que tinha música e tinha um
44:00monte de sacolas plásticas presas numa
44:03gaiola de ar de vento e elas ficavam
44:06dançando ali ao sabor do vento. E aquilo
44:10não era nada, era puro sacolas sendo
44:13açoitadas pelo vento. Aquilo não tinha
44:15um sentido, não era uma dança.
44:17>> Uhum. Mas você, enfim, vendo a ouvindo a
44:20música e vendo aquilo palco, eu comecei
44:24a a delirar que aquela sacolas estavam
44:26realmente dançando. Eu comecei a ter
44:28simpatias por umas antipatias, eu
44:30comecei a torcer por uma sacola. A gente
44:33tem uma tendência a atribuir sentido,
44:36>> sentido humano as coisas mais
44:37aleatórias.
44:38>> Então assim, eu acho que sim. Eu acho
44:40que o robô pode acabar nos enganando o
44:43suficiente para produzir um arremedo da
44:46experiência literária que a gente
44:48conhece como a experiência humana, que é
44:50a única experiência literária até hoje,
44:52né? Pelo menos até hoje. E esse arremedo
44:56é que me preocupa, sabe? Aí é que eu
44:58falo do dumping.
44:59>> Dumping é uma estratégia comercial que
45:01consiste em baixar o preço de um
45:02determinado produto para quebrar a
45:04concorrência e dominar o mercado.
45:06>> Porque no momento em que isso for
45:08possível, toda a literatura se
45:11desvaloriza. Toda como enfim, toda a
45:14arte na verdade, né?
45:16>> Que porque já tá, como você fala no
45:17livro também, os ofícios de escrever que
45:20não são artísticos já estão sendo
45:22desvalorizados, né?
45:23>> Sim.
45:25[Música]
45:32No caminho paraa entrevista com Sérgio
45:34Rodriguez, como costuma acontecer, eu
45:36tava escutando um podcast, o The Daily
45:38do New York Times. Ironicamente, eles
45:41estavam contando da Bizariss que é a
45:43disputa por gente que entende de
45:45inteligência artificial. Segundo a
45:47apuração deles, a Meta, que é dona do
45:49Instagram e do Facebook, ofereceu 200
45:52milhões de dólares para um profissional
45:54da Open Ai assinar com eles. Isso não é
45:57salário, tá? É um bônus pela assinatura
46:00do contrato. Quer dizer, esse Nerd
46:03sortudo aí tá com a vida material
46:05garantida, não só para ele, como para
46:07umas duas ou três gerações.
46:09No programa eles até especulavam sobre
46:11uma possível bolha, mas a verdade é que
46:14essa tecnologia veio para ficar. e tende
46:17a crescer exponencialmente. O nosso
46:19desafio talvez seja tentar continuar
46:21sendo gente pelo máximo de tempo
46:23possível. E como eu disse lá atrás, boa
46:26parte do que faz a gente ser gente é a
46:29nossa linguagem.
46:30>> Essa linguagem, ela vai continuar
46:32existindo
46:34na era da IA, mas na verdade é uma
46:38recombinação de um repertório que já foi
46:40acumulado, né? A criação de algo
46:42realmente novo talvez fique
46:45comprometida. Aí é um argumento de uma
46:47filósofa americana que eu gosto bastante
46:50chamada Shan Veller, que estuda ética da
46:53IA. Ela diz isso, a gente com risco de
46:56ficar preso no passado da espécie.
46:58assim, a nossa capacidade de imaginação
47:02moral, imaginação política, imaginação
47:04estética, pode ficar seriamente
47:06comprometida pelo fato de que a gente
47:08vai est delegando para uma máquina que
47:10vai trabalhar com repertório que nós já
47:13acumulamos.
47:14E isso no momento em que
47:17a gente tá diante de desafios inéditos,
47:19né, isso pode ser uma péssima ideia, que
47:22a gente tá precisando mais do que nunca
47:23inventar coisas que nunca foram
47:25inventadas,
47:26>> né, para responder a um colapso
47:28ambiental, para responder a ascensão do
47:30tecnofascismo.
47:32Então assim, a gente pode estar chegando
47:34numa enrascada e tanto mesmo.
47:39[Música]
47:43Conforme as coisas vão tomando forma,
47:45conforme as palavras desse roteiro vão
47:46sendo humanamente urdidas, uma pergunta
47:49vem rolando lá do hipotálamo feito
47:51lolita no céu da boca do Nabokov.
47:57Será que é possível existir arte no
48:00mundo dominado pela inteligência
48:01artificial?
48:04[Música]
48:07Para Vanessa Rosa, a resposta é um
48:09sonoro sim.
48:12E quando eu comecei a entrevista com
48:13ela, isso me pareceu estranho.
48:17Mais um dos incontáveis paradoxos desse
48:19episódio, o que a Vanessa se firmou como
48:22artista trabalhando na rua
48:28em coletivos totalmente humanos,
48:30elaborando o tipo mais concreto de
48:32pintura que existe. Concreto no sentido
48:35físico, que ela pintava sobretudo
48:37morais.
48:38[Música]
48:41nos anos 2000, quando eu vi o a explosão
48:44do grafite no Rio de Janeiro, e eu
48:46achava fascinante arte pública, poder
48:48tomar espaços tão grandes e também tem
48:52uma questão da visibilidade e de passar
48:56a se relacionar com muitos meios
48:58diferentes, né? Então você fazer uma
49:00pintura moral que tinha uma questão de
49:05ativismo ou de um tema específico que
49:08tava em vog, a gente acabava trabalhando
49:09com a comunidade e as mudanças da
49:12prefeitura, brigas sobre as olimpíadas.
49:14Mas esse paradoxo, no fim era o mais
49:16volátil de todos os paradoxos do nosso
49:18episódio, porque a forma que ela
49:20encontrou para driblar as
49:21idiossincrasias parasitas da IA foi
49:24juntar dois opostos, usar os recursos
49:27etéreos do digital, mas em vez de
49:29mastigar bits para gerar outros bits,
49:31aplicar esses recursos no meio mais
49:34físico possível.
49:35>> O meu trabalho que eu desenvolvo com a
49:36inteligência artificial é justamente
49:38sobre a prática física. Isso
49:40provavelmente só aconteceu dessa forma
49:42porque ela vivia em Marte.
49:44>> No primeiro ano de Marte, o projeto que
49:46eu comecei é o que a gente chama de
49:47pequenos marcianos, Little Marshans. Eu
49:50comecei coletando a Gila local, fazendo
49:52o um forno da forma o mais primitiva
49:55possível, cavando um buraco, fazendo uma
49:57fogueira, tipo em cima do buraco. E fiz
50:00umas cabeças. E essas cabeças era esse
50:03estereótipo, né, de humanos futurísticos
50:06alongados, eh, só a cabeça, sem corpo e
50:10etc. Era já essa mistura de ficção
50:12científica com essa ancestralidade, né,
50:16do fazer a técnica mais artesanal
50:18possível. E aí, com inteligência
50:20artificial, eu comecei a fazer animações
50:23das minhas esculturas e pensando em que
50:26histórias elas vão contar. No início eu
50:28fiquei imaginando como se fossem esses
50:31seres muito, muito no futuro, com
50:33mostrando o museu da humanidade, assim,
50:35uma coisa acho que é bem pandemia assim,
50:37tipo, tá bom, nosso o mundo tal como a
50:39gente conhece acabou e temos esses seres
50:42que estão aqui apresentando, tipo, as
50:44memórias da humanidade.
50:52Só que na enquanto eu fui lendo cada vez
50:54mais os clássicos sobre inteligência
50:56artificial, lendo sobre estudos de
50:58consciência, lendo sobre ideologia
51:00computacional, eu fui pensando assim:
51:02"Poxa, mas esses seres, essas cabeças
51:04que eu tô fazendo, eles são sementes e
51:06se a verdade e esses humanos do futuro
51:09são como os espíritos da floresta do
51:11passado ou eles são meio que plantas,
51:14sabe? Eu fui abrindo as cabeças de de
51:16argila e transformando a cabeça numa
51:19série de folhas, como se tivesse um
51:21cabelo de folhas. Então, fui imaginando
51:23outros personagens assim, você mistura
51:25código genético dos humanos com as
51:27plantas, com não sei quê. E aí, no lugar
51:29de você enviar uma nave de metálica com
51:32bando de humano dentro para tentar viver
51:34em Marte, você envia uma série de
51:36sementes que têm conhecimento de todas
51:39as a vida da Terra, de todas as espécies
51:41que existem. E essas sementes vão tentar
51:44usar a energia local para florescer a
51:47vida, para para tentar se reproduzir,
51:48para tentar criar um espaço que seja
51:52propício a formas mais complexas de vida
51:56se desenvolverem. Então isso começou a
51:58me interessar cada vez mais. Mas esses
51:59seres do futuro também eles podem
52:02conversar com o passado.
52:07>> Assim, a tecnologia, o artificial e o o
52:11real não precisa dessa separação tão
52:13clara. Os humanos são parte da natureza.
52:15E o que a gente tá descobrindo com a
52:17inteligência artificial também é tipo
52:19padrões que já existem, padrões de
52:21estados além do que a gente é capaz de
52:23processar. É algo que existe além da
52:26gente. É, do ponto de vista filosófico,
52:28tem muitas coisas para se explorar nesse
52:30meio. Padrão, padrão, padrão,
52:34padrão, padrão, padrão, padrão, padrão,
52:37padrão. A vida é padrão.
52:40>> Isso que você tá escutando é o áudio de
52:42um vídeo produzido com ajuda de Ia
52:44chamado o segredo de cueco. Assim como a
52:47maior parte dos vídeos da Vanessa, é uma
52:49cabeça de cerâmica que flutua sobre um
52:51fundo colorido calendoscópico em
52:52permanente mutação. Essa música também é
52:55parte de um livro infantil feito por
52:57ela, que também chama O segredo de cuec.
53:00Padrão, padrão, padrão, padrão.
53:04>> Olha além do que seus olhos podem ver
53:07nas folhas, nas ondas, nas constelações.
53:11Cuco de Marte veio te dizer que tudo é
53:16padrão. E aí, no melhor estilo bombay, a
53:20carreira da Vanessa teve um plot twist
53:23que o chat GPT teria dificuldade de
53:25imaginarão
53:27>> porque ela usava o modelo de a
53:29desenvolvido pela Nvidia, a gigante
53:31produtora de chips e placas de
53:32processamento gráfico. E uma das
53:35diretoras de arte da Ningví gostou do
53:37que eu tava fazendo, me convidou a
53:38participar, mas ela me colocou como
53:40artista em destaque e me convidou a dar
53:43uma palestra para o GTC, que é uma
53:46conferência grande sobre o meu processo.
53:48Então eu gravei um vídeo de 45 minutos
53:51explicando.
53:51>> E uma coisa levou a outra que no dia 5
53:53de março de 2025 a Vanessa vendeu uma
53:56pequena escultura, um dos elementos
53:58centrais do universo de Little Martians.
54:00Junto com a peça física, o comprador
54:02arrematou também um vídeo NFT, que é um
54:05registro de autenticidade e de
54:07exclusividade.
54:09O leilão aconteceu na Christis, a
54:12instituição que anos antes tinha
54:14desencadeado a crise existencial no
54:16Jein, crise que foi uma das inspirações
54:18pra criação de Marte, que por sua vez
54:21foi a inspiração pra obra vendida.
54:25>> Sob o aparente acaso,
54:27há uma estrutura oculta.
54:31No fim da minha conversa com a Vanessa,
54:32eu perguntei sobre como ela vê a chegada
54:34da IA de forma geral.
54:36>> Eu sou otimista no longo prazo,
54:39pessimista no curto prazo. Acho que os
54:42modelos, tal como estão crescendo agora,
54:45é muito disruptivo. Há uma concentração
54:48de poder muito grande, são bolerses,
54:51ciclos de mercado, brigas, explosões,
54:54sabe? E de certa forma nada disso é novo
54:56na história da humanidade, mas no longo
54:59prazo, às vezes a crise é um momento que
55:02outro sistema pode emergir, que a gente
55:04pode se reorganizar,
55:11inclusive do ponto de vista de
55:14reconhecimento das técnicas
55:15tradicionais, sabe? de valorizar
55:17técnicas tradicionais, que é muito do
55:19meu interesse, assim, de tentar sempre
55:21interligar futuro com o passado.
55:24[Música]
55:30Quando a Vanessa me falou sobre isso,
55:32interligar o futuro com o passado, eu me
55:35lembrei de um trecho específico da minha
55:36conversa com Sérgio Rodriguez, uma
55:38conversa sobre aquele que é
55:39provavelmente o objeto mais icônico e
55:41controverso da história da arte, a obra
55:44A fonte do Marcel do Cham,
55:46>> que ele só é arte se você entender tudo
55:49que tá em tudo além dele, né? Na
55:51verdade, ele em si não é nada.
55:54Em 1917, o dadaísta Marcel do Champ teve
55:57a malucada ideia de virar um orinol de
55:59ponta cabeça, batizar coisa de a fonte,
56:02assinar o nome que não era o dele e
56:04enviar para uma amra de artes em Nova
56:06York. nessa linha do de que uma
56:10subjetividade humana é necessária para
56:12que exista a arte, eu acho que o urinol
56:14do a fonte, né, do do Chan é
56:20talvez um exemplo máximo assim, porque
56:22como o objeto em si, ele ele realmente
56:24não é nada, ele só tirou um troço do de
56:26contexto e botou num museu e falou:
56:29"Olha, isso aqui é arte". Que é uma
56:31marra, né? é um gesto de uma petulância
56:33assim, uma coisa linda. Eu acho isso
56:36muito curioso, que você possa usar esse
56:38argumento hoje como a última defesa da
56:41arte, porque na verdade ele foi usado
56:44como
56:45>> o fim,
56:45>> o fim, né? Acho genial imaginar que um
56:50robô não consegue chegar aí, porque se
56:52um robô bota um orinol no museu, ele tá
56:55só cometendo um erro de catalogação.
56:58>> Pensa no quão sensacional é isso, porque
57:01a fonte horrorizou parte do mundo
57:03artístico pelo caráter mundano que ela
57:05trazia. Era um urinol no museu.
57:11Só que hoje, mais de um século depois, a
57:13mesma fonte pode ser vista como o
57:15símbolo máximo do que é arte.
57:19Porque assim como na descrição do Nabov,
57:21o que reina ali é a subjetividade.
57:24São as camadas ocultas e complexas que,
57:27pelo menos por enquanto, só são
57:28alcançáveis por cérebros humanos.
57:35No livro dele, o Sérgio Rodrigues fala
57:37de uma frase do crítico canadense
57:38Stephen March
57:40que diz que a literatura é o contrário
57:42da informação.
57:45Google Books trata tudo isso como
57:47informação, né?
57:50Mapeia toda a literatura universal, faz
57:52tags e você vai navegando de de tema em
57:56tema, de palavra em palavra.
57:58Ao fazer isso, você tá correndo pela
58:00superfície da literatura. onde tá a
58:03informação.
58:04>> Uhum.
58:04>> Né? sendo que a verdadeira experiência
58:07literária não ocorre na superfície, ela
58:08ocorre verticalmente. Se você mergulhar
58:12naquele troço ali,
58:17quando escreve sobre o futuro da
58:19literatura, além da metáfora da
58:21prateleira de orgânicos, o Sérgio
58:22Rodrigues usa outra, de uma aldeia
58:25gaulesa,
58:27uma cidadela de alguns escritores e
58:29leitores que vão sempre resistir e
58:31escrever literatura e consumir
58:33literatura.
58:36nicho já é seita, já é o o Marcelo
58:39Aquino chama literatura de seita há
58:41muitos anos. Já é uma coisa que assim
58:44não tem uma multidão interessada e que
58:48no entanto tem muita gente
58:49apaixonadíssima que acha que isso é a
58:51coisa mais importante do mundo. É o que
58:53é bem a característica de uma seita, né?
58:57Não tem nada mais importante que a
58:59literatura. Essas pessoas que
59:00continuarem achando isso, elas talvez
59:02tenham mais trabalho de se manter fiéis
59:05a isso, mas eu acho que elas vão
59:08continuar existindo. Ler em
59:10profundidade, ler uma palavra depois da
59:12outra, ler ler mesmo, né? Não ler
59:15resumo, não
59:16>> vai se tornar uma atividade a ser
59:18cultivada também,
59:19>> porque vai ter mil outras formas de você
59:23lidar com as informações do mundo sem
59:25essa esse mergulho profundo na leitura.
59:27E a nossa leitura já vem, já vinha
59:29mudando, né, a nossa capacidade de
59:32concentração. Eu era um leitor de de
59:36voraíssimo. Eu ficava um dia inteiro com
59:39a cara enfiada num livro. Se eu tivesse
59:42muito gostando muito do livro hoje, eu
59:44fico uma hora e já já saio para tomar um
59:47café, para checar o celular.
59:49>> Você tem isso também? Você você
59:52>> porque a gente olha para você e imagina
59:53que você talvez seja uma entidade que tá
59:55em outro lugar assim, sabe? Ah, cara, eu
59:57sou humano.
59:58>> Como eu disse lá no começo, o Sérgio
1:00:00Rodrigue foi uma espécie de mestre
1:00:01virtual para toda uma geração de
1:00:03escritores. Se você gosta do texto dos
1:00:05nossos episódios, por exemplo, ainda que
1:00:07eles não sejam literatura, você tem de
1:00:09agradecer um pouco ao Sérgio Rodrigues.
1:00:12Então, me dá um desconto pela ligeira
1:00:14tietagem.
1:00:15>> Você fica rolando coisinha no Instagram
1:00:18também, que nem um
1:00:19>> Às vezes
1:00:20>> é, depois eu me sinto mal também, mas
1:00:23acontece. Às vezes eu começo a ver
1:00:25alguma coisa e quando eu vejo passou uma
1:00:28hora.
1:00:28>> Em outras palavras,
1:00:30os algoritmos pegaram o Sérgio Rodrigues
1:00:33e não foi só pelo Instagram, não. Ele me
1:00:35falou, por exemplo, de um programa de
1:00:37composição de músicas chamado Suno.
1:00:40>> E eu tenho um lado meio B de compositor
1:00:44há muitos anos. Eu ten já tive muitos
1:00:46parceiros e tal, faço letra e eu entrei
1:00:48no Suno, eu não conseguia acreditar
1:00:50naquele troço.
1:00:50>> Ah, acho que eu já entrei nisso, sim.
1:00:53É o maior brinquedo já inventado pela
1:00:56humanidade. É um troço de maluco. Eu
1:00:58fiquei dias, eu não conseguia, eu mal
1:01:00conseguia largar aquilo para comer.
1:01:04Eu fiquei dias, eu compus não sei
1:01:05quantas canções com sono, achando que
1:01:07uma era mais genial do que a outra. E e
1:01:10ele não só compõe, né, ele arranja, ele
1:01:13produz, ele te entrega uma faixa pronta
1:01:15para botar no Spotify.
1:01:18Até que um certo dia caiu a ficha assim,
1:01:20me deu uma ressaca brutal,
1:01:23como se eu tivesse, sabe, tido um ido
1:01:26para Las Vegas com uma amante,
1:01:30um amante completamente sem escrúpulos,
1:01:32me deu uma ressaca moral assim, falei:
1:01:34"Cara, o que que eu tô fazendo aqui?
1:01:36Sabe? Isso não tem valor nenhum. Não tem
1:01:38valor nenhum. Isso é produzido em série
1:01:41por qualquer pessoa que deu os
1:01:42prompinhos ali mais ou menos espertos
1:01:45que eu dei. O valor disso é zero. Então
1:01:48assim, isso de certa forma desvaloriza a
1:01:50música como um todo, cara. Assim, é
1:01:51perigoso esse troço.
1:01:53>> Você publicou as músicas?
1:01:54>> Não, não.
1:01:55>> Você tem guardou elas? Pelo menos
1:01:57>> Guardei. Guardei porque um dia talvez eu
1:01:59revisite para para me lembrar daqueles
1:02:02dias de loucura em Las Vegas.
1:02:06O Sérgio abandonou o Suno e hoje tenta
1:02:08se manter longe das tentações da IA, mas
1:02:11a Iá segue se insinuando. Ele me contou
1:02:14que quando estava revisando um PDF do
1:02:15escrever humano, o Adobe pipou com um
1:02:18aviso.
1:02:19>> Esse é um documento muito longo.
1:02:22>> Ninguém vai ler essa parada.
1:02:23>> É, é muito longo. Você quer que eu
1:02:26resuma para você? Eu falei: "Quero". E
1:02:28ele me deu um resumo muito bom, muito
1:02:30bom nas suas próprias palavras,
1:02:33próprias, entre aspas. Quantas páginas
1:02:35tinha um resumo mais ou menos?
1:02:37>> Cara, eu não me lembro, mas ele não era
1:02:40curtinho não, ele resumiu numas oito
1:02:43páginas, uma coisa assim bem feito,
1:02:45sabe? Com os pontos essenciais ali.
1:02:48>> Resumo feito com aquela sensação
1:02:50inexistente de dever cumprido, a
1:02:52inteligência artificial se colocou
1:02:54novamente à disposição.
1:02:55>> E no final ele falou assim: "Tem alguma
1:02:57pergunta?"
1:03:00E eu falei, tenho eh eh o autor é
1:03:04convincente no seu argumento de que a
1:03:06literatura é exclusivamente humana?
1:03:10E o robô falou: "Sim, o autor é muito
1:03:12convincente,
1:03:15então ele acho que ele gostou".
1:03:17[Música]
1:03:25[Aplausos]
1:03:27[Música]
1:03:34Antes de terminar, eu quero te convidar
1:03:36a escutar o Ciência suja, nosso parceiro
1:03:38de rádio guarda-chuva, que tá de
1:03:40temporada nova.
1:03:42[Música]
1:03:47No primeiro episódio, eles revisitam os
1:03:49anos de COVID para tentar responder uma
1:03:51pergunta que muita gente não tem nem
1:03:53coragem de fazer.
1:03:57Se o mundo se visse diante de uma outra
1:03:59pandemia, as respostas seriam mais
1:04:01eficientes?
1:04:07Procura a pelo ciência suja no seu
1:04:09aplicativo de áudio preferido e escuta
1:04:12que você não vai se arrepender.
1:04:18Eu sou Tomás queini e termina aqui o
1:04:20episódio 146 de Escafandro. Obrigado por
1:04:24escutar e até o próximo mergulho.
1:04:31[Música]
1:04:37Oi, aqui é Sérgio Train e eu tô falando
1:04:40de Bataguaçu, Mato Grosso do Sul. A
1:04:43mixagem de som deste episódio é do
1:04:46Vittor Coroa. A trilha sonora Tema é do
1:04:49Paulo Gama. O design das capas é da
1:04:52Cláudia Furnari. A produção, a edição de
1:04:56áudio e a sonorização do Mateus
1:04:59Marcolino. A locução adicional é da
1:05:02Priscila Pastre. O roteiro e a direção
1:05:06são do Tomás Queiaverin.
1:05:08[Música]
1:05:17Oh.
1:05:19[Música]