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0:00Olá. Esse livro bem pequeno da poetisa
0:04portuguesa Sofia de Melo Breiner
0:08Andrezen. Ele contém duas obras. o
0:11Cristo cigano, eh, que tem vídeo aqui no
0:15canal, que foi um, eh, um vídeo que eu
0:17fiz o ano passado, vou deixar o link na
0:20descrição, e uma outra obra chamada
0:24Geografia, que esse ano então sai o
0:27Cristo cigano e entra geografia em
0:30alguns vestibulares. Por isso vai ser o
0:33nosso vídeo de hoje. Antes de falar de
0:37geografia,
0:38eu quero lembrar para vocês que estudar
0:41literatura,
0:42seja para o vestibular ou pra vida, né,
0:46não é só ler um livro, mas
0:49contextualizar,
0:51observar o tipo de de narrativa
0:54utilizada e principalmente, gente, isso
0:58como professora é o que eu sempre pedi
1:01em prova, estabelecer relações da
1:04história
1:06do livro com a política, com a
1:09sociedade, com o tempo atual, mesmo que
1:12não haja uma forte ligação. Você tem que
1:15saber que então não há uma forte
1:17ligação. E muita gente me pede, então eu
1:21pretendo, mesmo fugindo um pouco da
1:23linha editorial do canal, eu pretendo
1:26fazer um vídeo que lhe ensine a estudar
1:29literatura e não apenas literatura, né,
1:32mas qualquer área do conhecimento. seja
1:35para uma prova, seja pra vida, seja por
1:37prazer, né? Eh, mas eh já fica uma dica
1:42aqui para você, o nosso cérebro ele
1:46adora repetição.
1:48Então, eh veja esse e outros vídeos que
1:52você vai precisar pra prova, alguma
1:55coisa assim, muitas e muitas vezes, e
1:59também reveja perto da prova. Muito lá.
2:03Vamos lá. Vamos a geografia que eu vou
2:06resumir,
2:07analisar e contextualizar.
2:11Bem, eu já disse em outro vídeo que a
2:15Sofia Andresen foi uma das principais
2:20poetisas portuguesas, tá?
2:24E foi também a primeira mulher
2:27portuguesa a receber o importante prêmio
2:31Camões. O prêmio Camões, ele premia eh
2:34brasileiros eh portugueses e acho que é
2:37o mais importante de língua portuguesa.
2:41A Sofia, ela nasceu no começo do século
2:44XX, em 1919
2:47e ela viveu bastante. Ela só morreu em
2:502004,
2:52eh, com quase, acho que 85 anos. Então,
2:56gente, isso lhe permitiu escrever muitas
2:59obras. E pelo período ali que ela viveu,
3:02século XX, você já pode imaginar que ela
3:05vai estar inserida no modernismo e
3:09também no pós-modernismo. Tudo depois do
3:12modernismo é pós-modernismo.
3:16A obra geografia, ela vai ser dividida
3:19em sete partes. E perceba que cada parte
3:24se refere a um lugar. Por isso já
3:28começamos a entender o nome geografia,
3:32mas eh eu vou falar mais sobre o título
3:35quando eu for fazer a análise. Então,
3:38nesse primeiro momento, vamos entender
3:42eh as partes, né, da do livro. Vamos
3:45fazer um um breve resumo.
3:48Na primeira parte chamada Inggrina, a
3:52poetisa vai situar os seus poemas na
3:57praia de Ingrina, que realmente existe e
4:01fica na região do Algarve em Portugal.
4:06Nos poemas desta primeira parte, o eu
4:10lírico deixa claro que é um [roncando]
4:14recomeço, tá? Então, fala muito em
4:17recomeço. Diz que se esqueceu ou perdeu
4:23a memória de morte, da morte, da lacuna
4:28e do desastre. E o que significa isso?
4:31Significa que o eu lírico está otimista.
4:35né? Perceba que os poemas dessa primeira
4:39parte eles focam na luz, na claridade,
4:44ideia que também vai estar nos objetos,
4:48né? Não precisa ser só luz. Por exemplo,
4:51quando aparece a cal. Por quê? Porque a
4:54cal, ela, a cal que pinta a parede, né?
4:57A cal é branca. Ou então nas pedras
5:01brancas a que os poemas se referem.
5:03Então, tudo ali é branco, tudo é claro.
5:09No poema
5:11eh, o eu diz
5:14nem a abre aspas, nem a linha das águas
5:19me divide. fecha aspas, o que é a mesma
5:22coisa do que dizer que está inteiro
5:27nesse recomeço.
5:29Vamos relembrar o que é eu lírico. Eu
5:32lírico é sempre quem fala em primeira
5:37pessoa nos poemas. Do mesmo jeito que se
5:40não fosse poema, se fosse um texto
5:42corrido, que a gente chama de texto em
5:44prosa, né, romance, conto, nós teríamos
5:48o narrador. Então, toda vez que for um
5:52poema,
5:53não confunda o autor ou autora com o eu
5:58lírico. Da mesma forma que a gente não
6:01pode confundir o autor ou autora com o
6:05narrador em primeira pessoa de um
6:08romance, tá? Então, faça essa
6:11diferenciação.
6:13Claro, gente, que o escritor, tanto de
6:17prosa como de poesia, vai emprestar
6:21muitas opiniões e sentimentos que são
6:25seus,
6:26principalmente para o narrador em
6:29primeira pessoa e para o eu lírico
6:32também, que aparece nos poemas. Mas de
6:36novo, não é, não, você não pode
6:39confundir. Autor e eu lírico são duas
6:43coisas diferentes.
6:46Geograficamente,
6:47a praia de Ingrina, ela é pequena,
6:51protegida por rochas. Ela tem águas
6:55límpidas e cristalinas. Por isso que é
6:58um cenário perfeito
7:01para quê? para um recomeço seguro. Além
7:06disso, o eu lírico, ele diz: "Abre
7:09aspas, que ali é o seu reino." Desculpa,
7:12que ali é o seu reino. Abre aspas. O meu
7:15reino é meu como um vestido que me
7:19serve. É sobre a areia, [roncando] sobre
7:24a cal e sobre a pedra que escrevo nesta
7:29manhã. Eu recomeço o mundo. Fecha aspas.
7:34Então, gente, há uma alegria, há uma
7:38conformidade
7:39entre a pessoa e o reino, né? Porque ela
7:42falou que o vestido servia e também há
7:44uma segurança nesse recomeço. Por isso
7:47que tudo é tão claro, tá? Então, é o
7:51ambiente ideal, é o ambiente seguro,
7:53tudo para o recomeço.
7:56A segunda parte X eh se chama
8:00procelária. Que [roncando] que é
8:02procelária? Procelária é uma espécie de
8:05várias aves marinhas, tá? Não, não.
8:08Então, essas aves que ficam ali no
8:10litoral, eh, então, perceba que
8:13geograficamente os poemas ainda estão
8:16falando do litoral. A grande curiosidade
8:20em torno dessa ave da procelária é que
8:23quando a gente vê um bando de
8:25procelárias significa tempestade a
8:29caminho, tá? Então ao trazer a
8:32procelária, ela já tá, então ela perde
8:35um pouco aquela claridade da primeira
8:37parte, tá?
8:39No poema também chamado procelária, o eu
8:43diz que a ave faz da insegurança
8:48sua força e do risco de morrer seu
8:52alimento. Porque claro, a ave ela encara
8:56o mau tempo, ela não tem medo, ela se
8:59arrisca. [risadas] Perceba que ao
9:02contrário da primeira parte, que a
9:04claridade [limpando a garganta]
9:05prevalecia, nessa segunda parte já há a
9:10figura eh do mau tempo, das coisas que
9:14associamos a ao escuro. Você vai ver
9:18isso nos poemas que vão falar de
9:21desonestidade,
9:23eh, que tá presente ali no poema,
9:27eh, Cidade dos Outros, eh, da Sordz do
9:31Mundo, que tá presente no poema Eu me
9:34Perdi, tá? E nesse poema Eu me Perdi, o
9:38eu lírico lembra que havia se perdido
9:42nessa surdidez, mas que se salvou na
9:46limpidez da terra. Então, começa a
9:49perceber como que o a terra, como que a
9:52paisagem, como isso interfere na na vida
9:57do eu
9:59poema Esta gente, os versos dizem, abre
10:03aspas, faz renascer meu gosto de luta e
10:08de combate e na última estrofe ainda
10:12reforça, abre aspas, meu canto se renova
10:16e recomeço. a busca. Então, gente, nessa
10:19segunda parte, apesar da tempestade
10:23anunciada, apesar da sordidez do mundo,
10:27eh, dos aviões, né, tem um tem um poema
10:30chamado aviões que podem ser pacíficos
10:33ou podem ser aviões de guerra. Apesar do
10:37fuzilamento que que ela cita num poema
10:40do escritor Frederico Garcia Lorca, o eu
10:43lírico percebe que a sua força para
10:47enfrentar todas essas mazelas vem da
10:50Terra. Por isso é tão importante ali a
10:54paisagem na obra da Sofia.
10:57A terceira parte se chama A noite e a
11:00casa. Nessa parte, os poemas vão focar
11:05em um jogo de contrastes, então de
11:08sombra e luz e também no jogo de
11:12silêncio e sons. Não há nessa parte a
11:16mais as a referência ao litoral, mas a
11:21uma casa. Veja a primeira estrofe do
11:26poema chamado Vela, abre aspas.
11:31Em redor da luz, a casa sai da sombra,
11:36intensamente
11:37atenta, levemente
11:40espantada. Fecha aspas. Eu gosto dessa
11:44estrofe que fala de quando a gente
11:46acende uma vela, né, a gente ilumina um
11:50espaço que, lógico sai da sombra. E como
11:54isso pode ser surpreendente, né? como
11:57ela pode iluminar coisas que a gente nem
12:00esperava. Entretanto, o resto desse
12:03mesmo poema lembra que essa mesma chama
12:07da vela, a chama que ilumina, ela pode
12:10ser apagada com um suspiro e fazer com
12:14que a casa novamente fique muda. Perceba
12:19que ela não diz que a casa sem luz vai
12:22ficar escura, ela diz que vai ficar
12:26muda, como eh ao não ter luz, ao ao
12:30ficar na escuridão, não houvesse também
12:34vida.
12:36E também, gente, porque nessa parte eh
12:40do livro, né, do Geografia, os poemas
12:43estão fortemente
12:46eh associando luz e treva, como eu falei
12:50antes, som e silêncio. Então, ela faz
12:53muito esse jogo. Nessa terceira parte,
12:57no poema Bá e B Segóvia guitarra, o Eu
13:03lírico preocupa-se mais com os sons que
13:07rompem o silêncio da casa. Veja que o
13:10título Begóvia são dois grandes
13:14musicistas, né? Se você não conhece Bai,
13:16não conhece Fegóvia, precisa estudar.
13:19Eh, então os sons a que ela tá se
13:21referindo são sons muito bonitos, são
13:24sons musicais.
13:26Repare nessa estrofe, abre aspas aspas.
13:31E no silêncio ouvinte,
13:33o canto me reúne de muito longe. Venho
13:39pelo canto chamado. Perceba que do mesmo
13:43eh modo que o mar que eu citei antes eh
13:48não a dividia, de novo, ela diz ela usa
13:51essa imagem de estar inteira quando diz
13:56que o canto a reuniu.
13:59Também note o contraste na expressão.
14:02Ela usa a expressão silêncio ouvinte
14:07que é estranha porque normalmente o
14:10quando há silêncio nada ouvimos. Mas o
14:14eu lírico está falando da música do ser,
14:19que traz lembranças e que, por isso
14:22mesmo, a reúne, ou seja, a completa. Se
14:27são lembranças, é passado. Ela ela
14:30trabalha também com o presente e o
14:33passado que temos que ter junto para
14:36sermos completos.
14:38A quarta parte do livro chama-se Dual e
14:42é a [limpando a garganta] maior parte,
14:43tem 19 poemas. Que que significa dual?
14:47Significa duas partes, que é o que eu
14:49venho falando desde o começo. Então são
14:52poemas que falam eh de sentimentos,
14:55principalmente de amor e de ausência. E
14:59é uma parte que vai focar justamente
15:03nessa dualidade. Por isso chama-se dual.
15:09Nessa parte vai ter um poema inteiro,
15:13eh, chamado De um amor morto.
15:17E de um amor morto fica um passado,
15:22é tempo cotidiano,
15:25onde os gestos se esbarram
15:29ao longo do ano. De um amor morto não
15:34fica nenhuma memória.
15:38O passado se rende, o presente o devora
15:44e os navios do tempo,
15:47agudos e lentos, o levam embora, pois um
15:53amor morto não deixa em nós seu retrato
15:59de infinita demora.
16:03É apenas um fato que a eternidade
16:08ignora. Então, a gente imagina que o
16:10recomeça é depois de um amor morto, né?
16:14Então, eu quis falar esse esse romance
16:17para você se situar. Veja que
16:20interessante que na primeira estrofe
16:22desse poema, o amor morto deixa a sua
16:26presença. Na segunda estrofe, essa
16:29lembrança
16:31vai embora. E na última estrofe, eh, o
16:35tempo passou e o amor morto ficou sem
16:39importância. Olha que interessante esse
16:42poema.
16:43Então, gente, é desse passado e presente
16:48que se constrói esse dual, essa
16:51dualidade. A quinta parte se chama
16:54Mediterrâneo e os poemas vão se situar
16:58na Grécia, que claro, gente, é banhada
17:01pelo Mediterrâneo.
17:02Começa em Acaia, que é uma região grega,
17:07passa pelo Golfo do Corinto.
17:11as colinas de suntão, que ficam no
17:15templo de Poseidon. Vai falar também eh
17:19da Epidauro, que é um de Epidauro, que é
17:22um sítio arqueológico,
17:25eh de Tulon, que é uma vila. Vai falar
17:28de Pompeia. Vamos lembrar que Pompeia,
17:32antes de pertencer
17:34aos romanos, ela era ao Império Romano,
17:38ela era controlada pelos gregos. Vai
17:42falar de Itaca, ã, a ilha grega, que é
17:47onde nasceu Ulisses. Então, toda essa
17:50parte da Grécia é a humanidade do mundo,
17:53né? É a nossa história de humanidade,
17:56tá? Nos nossos mitos. Então, nessa
17:59parte, além dos locais na Grécia, que
18:02são reais, o Euulírico também vai falar
18:06dos deuses gregos e dos mitos gregos,
18:10eh, como o mito de Eletra, eh, que é um
18:14personagem da da mitologia grega que
18:17induz o seu irmão Orestes a assassinar a
18:21sua mãe para vingar a morte de seu pai.
18:24Então, eh, esses mitos todos a gente
18:28convive com eles até hoje, no século XX,
18:32com algumas modificações. Então, ela
18:34resgata nessa parte esse passado da
18:37humanidade. A Sofia Andresen, ela esteve
18:40na Grécia em 1963,
18:43antes do livro. E os poemas dessa parte
18:46então são inspirados nos lugares por
18:50onde, claro, ela viajou.
18:54A sexta parte tem o título de Brasil ou
18:59do outro lado do mar e tem apenas quatro
19:02poemas. A poetisa também esteve no
19:06Brasil. Ela esteve duas vezes antes do
19:08de lançar o livro, antes de publicar o
19:10livro, se não me engano, em 63 e
19:14novamente em 66,
19:17quando ela então conheceu Brasília,
19:20cidade à qual ela vai dedicar um poema
19:23nessa parte. Então, os poemas dessa
19:27parte também tem a ver com a as duas
19:31viagens que ela fez ao Brasil. Mas
19:33principalmente tem a ver com a
19:36influência que a poetisa sofreu dos
19:40poetas brasileiros, principalmente
19:44de João Cabral de Melo Neto, que aparece
19:47na obra O Cristo cigano, que eu já falei
19:50no outro vídeo. Eh, se você não viu,
19:53veja que você vai começar a entender
19:56tudo melhor.
19:57E nesse livro, a influência de Manuel
20:01Bandeira, que aqui em geografia também a
20:04autora vai dedicar a ele um poema. Às
20:08vezes as pessoas me perguntam: "Por que
20:11cai obras portuguesas, obras africanas
20:15em um vestibular no Brasil?" Eu já
20:17expliquei isso algumas vezes, vou
20:19repetir.
20:21A nossa literatura brasileira sofreu uma
20:25grande influência da literatura
20:27portuguesa e da literatura, mesmo que
20:31oral africana, tá? E da mesma forma nós
20:36também, os nossos escritores também
20:38influenciaram, claro, africanos e
20:41portugueses, tá? Então, essa conversa
20:45entre literaturas é sempre muito
20:47interessante. Quem gosta de literatura
20:50tem que ler bastante também literatura
20:52portuguesa e literatura africana.
20:57A sexta parte do livro começa com um
21:00poema chamado Descobrimento, que tem a
21:04ver com a visão portuguesa de como os
21:07portugueses chegaram ao Brasil. Quero
21:11lembrar que hoje em dia nós sabemos que
21:15não foi um descobrimento, né?
21:18Descobrimento seria se não tivesse
21:20ninguém aqui. Foi mais claro uma
21:24invasão, já que o Brasil tinha sua
21:27população, os seus habitantes, que são
21:31ou que eram os indígenas, que são os
21:34nossos povos originais, não são os
21:37portugueses, né? Entretanto, gente, na
21:40década de 60, eh, quando foi escrito
21:43geografia,
21:44eh, ninguém falava em invasão. Eh, na
21:48escola a gente aprendia que era
21:50descobrimento. Espero
21:51[limpando a garganta] que hoje em dia
21:52não ocorra mais isso nas escolas, mas
21:55era uma visão equivocada que a gente
21:58tinha.
22:00A sétima e última parte chama-se No
22:03poema, que é claro um local, mas é um
22:08local em linguagem figurada, mais ou
22:11menos como ela dizer que se pode viver
22:15dentro da poesia. Gosto muito do último
22:19que se chama justamente poema e que diz
22:23assim,
22:25eh, em sua primeira estrofe, né? Vamos
22:28ver só a primeira estrofe. Abre aspas.
22:34A minha vida é o mar, o abril, a rua. O
22:39meu interior é uma atenção voltada para
22:43fora. Meu viver escuta a frase e que de
22:50em que de coisa em coisa silabada
22:54grava no espaço e no tempo a sua
22:58escrita. Fecha aspas.
23:01Perceba que o eu nesse poema está
23:05dizendo que sua vida é tudo, desde o
23:09litoral até a rua, até o tempo
23:13representado por o abril. é o interior
23:16eh do eu lírico que está voltado para
23:19fora, escutando tudo e gravando tudo na
23:25escrita, o que é um sentimento, claro,
23:29que a gente costuma ver muito nos
23:31poetas, né? Muito na poesia. E aí então
23:35o livro termina.
23:37É um livro pequeno, mas tem bastante
23:39coisa para falar. Vamos então à análise.
23:44Geografia foi publicado inicialmente em
23:471967
23:51em um contexto de efervescência
23:55no mundo.
23:57Que que era, que que estava acontecendo
23:59no mundo? estava acontecendo a
24:01contracultura RIP,
24:03a guerra do Vietnã e talvez eh um dos
24:08momentos mais difíceis da ditadura do
24:12presidente Salazar em Portugal. Então
24:15era um momento conturbado do mundo.
24:19Entretanto, a poetisa não traz esse
24:22contexto, essa agitação da sociedade
24:27para os seus poemas. Você fala mesmo a
24:30morte do escritor Federico Garcia Lorca
24:34num poema chamado
24:37Túmulo de Lorca não é uma coisa recente,
24:41não é uma coisa daquela daquela época. O
24:44Lorca ele foi assassinado em 1936,
24:4930 anos antes dela escrever este livro
24:52geografia.
24:54>> [roncando]
24:54>> E mesmo em outros poemas chamado aviões,
24:57né, que a gente pode ali em um verso ou
25:00outro levemente nos remeter a aviões de
25:04guerra, isso não fica claro, porque ela
25:08faz referência também eh a aviões
25:13que ela chama de eh inofensivos. Então,
25:18ela não traz essa essas essas coisas eh
25:21ruins do contexto para o livro, ruins e
25:24boas, né? Tem de tudo ali. O livro,
25:27então, gente, não está preocupado em
25:30retratar o mundo naquele eh naquele
25:34instante. O foco dos poemas é o recomeço
25:39pessoal, [roncando] eh, na calma ali
25:43dingrina, na paisagem segura. na
25:47paisagem clara, nos cheiros de orégano e
25:51de tulha, né, que aparece com o mar por
25:54perto, como se fosse um refúgio. Os
25:57poemas, eles querem a união entre o
26:02interior, o pessoal do ser humano e o
26:06exterior da natureza. entre os opostos
26:10que se completam e entre o passado, né,
26:13que está em Lorca, que está em Bá, em
26:18Segóvia, que está na história grega, ela
26:21quer todo esse passado unido com o
26:25presente.
26:27O título geografia já nos indica logo no
26:31início, eu já falei um pouquinho disso,
26:33eh que os poemas eles vão passar por
26:37muitos lugares, mas não se enganem, não
26:42serão apenas eh lugares físicos, lugares
26:47geográficos, lugares externos, mas
26:51também lugares da alma, lugares do
26:55pessoal, né? né, lugares do nosso
26:58interior, do nosso mais profundo do
27:01fazer poético. Eu poderia chamar que é
27:05um em vez de geografia, de poderia dizer
27:07que é uma geopoética, tá? Como eu já
27:11expliquei em outro vídeo, uma marca da
27:14poesia da Sofia Andresen é a presença da
27:19natureza em seus poemas. Eh, ela usa
27:23muito a paisagem, né? principalmente a
27:27paisagem do litoral, a paisagem que tem
27:31o mar. E ela faz poemas que ligam a as
27:36paisagens reais, concretas, geográficas,
27:40aos sentimentos, aos ao abstrato da alma
27:44e mostrando como as paisagens reais
27:48podem influenciar o nosso sentir, por um
27:52lado, e como o nosso sentir também pode
27:57influenciar como enxergamos essa
28:00paisagem Por outro lado, né? Eh,
28:05eu vou vou dar um exemplo para eh para
28:08explicar melhor isso que eu acabei de
28:09falar para ficar mais claro.
28:12Por exemplo, a autora, ela usa muito
28:15nesse livro a noção de claridade. A
28:19claridade pode ser da paisagem,
28:23como também pode ser da alma. Então, ao
28:27mesmo tempo que eh a claridade da
28:32paisagem
28:34nos alegra, deixa a nossa alma clara,
28:39também [limpando a garganta]
28:40eh o contrário pode acontecer, porque
28:44estamos eh felizes, alegres, em um
28:48momento de recomeço, tá? como é o caso
28:51do do eu lírico, que acontece eh nessa
28:54primeira parte do livro. E por causa
28:57dessa vontade nossa, dessa claridade da
29:00alma, nós enxergamos também a paisagem
29:03dessa forma. A gente vê o mundo mais
29:06claro, o mundo bonito. Então, o tempo
29:09todo nos poemas da Sofia há essa
29:13tentativa de estabelecer uma relação do
29:17homem com a natureza. Por isso os poemas
29:21falam bastante de se estar inteira.
29:27Eh, o externo,
29:29né, da da das paisagens e o interno.
29:33Para ela estar inteiro é uma é uma
29:35relação dessas duas eh coisas.
29:39A linguagem dos poemas é simples, como é
29:42a natureza. Então, há uma harmonia eh
29:46natural e uma sensibilidade
29:50aguçada nos versos desse livro. Mas
29:54perceba
29:56eh que não apenas o olhar eh está
30:00presente como um dos sentidos, mas
30:03também o escutar. A paisagem e a casa,
30:08elas também t sons. Então, não é só
30:11aquilo que a gente escuta, a gente vê,
30:13desculpa, mas também aquilo que a gente
30:16escuta. Uma figura importante que tá
30:19muito presente, que é fundamental nessa
30:22obra, é a antítese, que liga o exterior
30:27físico e concreto ao interior abstrato e
30:31subjetivo.
30:33Podemos encontrar antítese nos poemas,
30:36quando há sombra e luz, noite e dia,
30:39terra e mar, música e silêncio, presente
30:44e passado. Mas o mais interessante que
30:47eu acho é que apesar de serem opostos,
30:53o uso da antítese também serve para
30:57mostrar que há duas partes e para unir
31:00as partes. Porque pra gente ser inteiro
31:04na visão da da Sofia, né, da visão do eu
31:06lírico, é necessário
31:09unir essas partes, tá? Eu já falei isso
31:11várias vezes, mas não esqueça, isso é
31:13bem importante.
31:15Um recurso estilístico, também bastante
31:18utilizado pela autora nesse nessa obra,
31:23eh, é que em muitos versos ela usa três
31:27elementos para reforçar ou completar uma
31:32ideia. Vou dar vou dar um exemplo, né?
31:34Ela usa é
31:37terrível, atroz, imenso. Em outra ele
31:41ela usa olhado, amado, conhecido. Em
31:45outro ela usa eh
31:48debate, eh, emerge, balbucia. Então
31:53isso, gente, é para sempre reforçar. Ela
31:56usa mais de um elemento, pode ser um
31:59substantivo, pode ser um adjetivo, pode
32:01ser um verbo, não importa, mas ela usa
32:04para reforçar, completar uma ideia. Uma
32:08curiosidade é que Machado de Assis
32:09também fazia muito isso, né? Eu observo
32:13isso num trecho do meu mestrado. Eh, ele
32:16usa bastante esse recurso na narrativa.
32:21Bem, a maior parte do livro geografia,
32:24o eu lírico, não se define nem como
32:28masculino, nem como feminino. Isso
32:31acontece pouquíssimas vezes, né? Eu tive
32:35que lá com lápis procurar. Então, eu
32:38posso citar como exemplo do eu lírico
32:42feminino no poema chamado Escrito do
32:46Poema, eh, o Eu lírico, então, na última
32:49estrofe diz:
32:52"De certa forma fico alhei e a, tá?
32:56Então aquele é feminino. E como exemplo
32:59do eu lírico masculino, eh, no poema,
33:03escuto quando diz: "Apenas sei que
33:07caminho como quem é olhado,
33:11amado e conhecido." Então aqui ele está
33:15no masculino.
33:17E também, gente, há
33:19inclusive em um poema chamado Ali, então
33:24em que o eu está não mais no singular,
33:28mas na primeira pessoa do plural e ele
33:31diz não nos tivessem acontecido ou ele
33:36diz em nossas mãos. Eu quis frisar essa
33:40parte novamente do eu lírico, porque eu
33:43já vi muita gente confundir eu lírico
33:46com o autor ou autora do livro. Então eu
33:50quero mostrar que mesmo ela sendo uma
33:53mulher, às vezes o eu
33:55às vezes o eu lírico está no plural.
33:57Então você não pode nunca mais esquecer
34:00que o eu lírico é uma coisa e o autor é
34:03outra.
34:05Não é um livro difícil. A parte talvez
34:09eh mais complicada
34:12é a que se refere à Grécia, que
34:15representa o passado da humanidade, né?
34:19E na qual, gente, tem muita a ela tem
34:23faz muita referências a elementos da
34:27cultura grega que você precisa
34:30minimamente
34:32conhecer, precisa saber do que que ela
34:34tá falando, né? Eh, eu já expliquei aqui
34:38alguns alguns lugares, alguns termos,
34:41né, mas há outros. Então, eu recomendo
34:44que você leia com o Google do lado e
34:48fazer pergunta pro Google tudo que você
34:51não souber o que é, tá?
34:54Creio que é isso. Como todo livro de
34:56poemas, deixe na cabeceira da sua cama e
35:00leia pelo menos um poema toda a noite.
35:03Você vai fazer isso ao longo do ano.
35:06Você vai ler e reler muitas vezes. É
35:08assim que eu faço. É assim que eu leio
35:11livro de poemas, tá? Uma dica é que
35:14depois de ter visto esse vídeo, pega um
35:17lápis, nunca caneta, pelo amor de Deus,
35:20pega um lápis e tenta sublinhar o que eu
35:23abordei. Você vai ver que a compreensão
35:26fica muito, muito mais fácil. Olha eu já
35:28dando dica de como estudar literatura,
35:31mas ainda vou fazer o vídeo, fique
35:33tranquilo. Se você quiser conhecer
35:35minhas crônicas, eu as publico todas as
35:37terças-feiras no meu site,
35:39www.mirambivaqua.com.
35:43br. Dê seu like, compartilhe com pessoas
35:46que vão fazer prova, vamos ser generosos
35:49e se você tiver qualquer dúvida, me
35:51escreva. Vai ser um enorme prazer eh lhe
35:55ajudar. Um grande abraço.
36:02>> [música]